Irregular

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Só a mais vergonhosa ignorância para me fazer suspeitar de um chiste ao ler o obituário de Agota Kristof, há três semanas, no Libération. É incrível que eu nunca tivesse ouvido falar nela, publicada no Brasil desde 1987, pela Rocco. É verdade que o nome também não ajuda. Bastou eu ler o título do artigo para achar que era mais uma dessas piadas que o Libération costuma publicar, no verão, para entreter os leitores em férias – e que este ano começou com uma hilariante vida de Cristo. Achei que Agota Kristof fosse um trocadilho com Agatha Christie.

E não poderia ser mais infame, uma vez que os textos de Agota Kristof tratam dos piores horrores de guerra. A autora, nascida na Hungria, foi obrigada a fugir da invasão soviética em 56, com o marido e uma filha de colo, para acabar (e aí vem a piada) como operária numa fábrica de relógios, na Suíça.

O artigo comparava a obra de Agota Kristof , toda escrita em francês, à de Beckett e à de Thomas Bernhard. Desde então, li o seu romance mais famoso, O grande caderno (traduzido no Brasil como Um caderno e tanto), primeira parte de uma trilogia escrita em forma de fábula, cujos protagonistas são dois irmãos tentando sobreviver à guerra, e mais um punhado de contos. Não li o teatro. Mas, ao contrário do que acontece quando leio Beckett ou Thomas Bernhard, tive de fazer o maior esforço para achar graça do humor de Agota Kristof.

Não existe juízo de valor mais burro, mesquinho e acovardado do que o que diz de uma obra que ela é irregular, porque é claro que tudo é sempre irregular, basta estar vivo. Só a morte é regular. E se irregular é crítica, regular também não é elogio. Então chamar um livro de irregular não quer dizer nada, é só uma forma de não se comprometer – e de endossar algum tipo de regra. Toda literatura de verdade é necessariamente irregular. Feita a ressalva, me envergonho de confessar que achei irregular o que li de Agota Kristof, sobretudo por causa dos contos. Porque o romance tem passagens realmente incríveis.

Existem escritores que, independentemente de você considerá-los bons ou ruins, abrem perspectivas e alargam a literatura, porque surpreendem, e outros que, independentemente de você considerá-los bons ou ruins, estreitam a literatura, porque correspondem às expectativas. Você pode me matar, mas para mim um escritor muito mais regular e convencional que Agota Kristof, como Jonathan Franzen, independentemente de você, como a maioria dos leitores, considerá-lo excelente, corresponde a esse segundo tipo, dos que, na sua excelência, reproduzem e consolidam modelos conhecidos e esperados. E, nesse sentido, o que é considerado um livro excelente, por reforçar na sua qualidade uma convenção, pode ser também o aprisionamento da literatura.

Agota Kristof, na sua irregularidade, faz parte do primeiro tipo de escritor, aquele que alarga a literatura e é capaz de abrir caminhos e perspectivas inesperadas para novas iniciativas literárias, graças a sua imprevisibilidade.

E é um alívio, por exemplo, ler (numa entrevista que ela deu ao El País e que foi publicada com o título A literatura não me interessa) que Agota Kristof não acreditava nos sentimentos. Porque a regra, para um escritor hoje, é acreditar nos sentimentos. É uma camisa-de-força e um lugar-comum repetir que literatura é sentimento e que, se você não acredita nos sentimentos, não pode ser escritor. E aí aparece uma escritora de livros inesperados, que descarta os sentimentos, reduzidos a simplificação e domesticação do que há de mais selvagem, indizível e incompreensível no humano. Irregular é também o que não está conforme as regras. E, por maior que seja o horror, a irregularidade desses livros afinal liberta.

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