Israelense Etgar Keret e palestino Sayed Kashua trocam cartas sobre a guerra no Oriente Médio (Parte 1)

Por Guilherme Freitas
O GLOBO

Em julho deste ano, enquanto o mundo acompanhava com apreensão mais um capítulo da guerra no Oriente Médio, o escritor palestino Sayed Kashua chegou à conclusão de que precisava ir embora de Israel. Nascido em 1975 em Tira, cidade israelense de maioria árabe, e radicado em Jerusalém desde a adolescência, aproveitou um convite para dar um curso numa universidade americana e comprou passagens só de ida para ele, a mulher e os filhos.

Kashua explicou a mudança repentina num artigo publicado no jornal britânico “The Guardian” naquele mês. Autor de origem árabe que escreve em hebraico, acostumado a transitar entre as duas culturas, ele sempre procurou expor aos israelenses a situação dos palestinos em seus romances, roteiros para cinema e TV e intervenções na imprensa. Durante a ofensiva deste ano, porém, sentiu que algo havia mudado no país. “Depois das minhas últimas colunas, alguns leitores mandaram que eu me exilasse em Gaza, ameaçaram quebrar minhas pernas, sequestrar meus filhos”, escreveu.

De seu exílio nos EUA, onde dá aulas de hebraico na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, Kashua trocou cartas com o escritor israelense Etgar Keret sobre a vida num ambiente degradado por uma guerra que se arrasta há décadas. Com humor e melancolia, eles comentam a radicalização crescente do conflito e sua influência corrosiva sobre a convivência de judeus e árabes em Israel. Publicadas também na revista “The New Yorker” e nos jornais “Le Monde” e “El País”, as cartas de Kashua e Keret, que se conhecem há mais de 15 anos, aparecem pela primeira vez em português nesta edição do Prosa.

Nascido em 1967 em Tel Aviv, onde vive com a mulher e o filho, Keret é hoje um dos mais reconhecidos contistas israelenses. Em agosto, esteve no Brasil para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e lançar o livro “De repente, uma batida na porta” (Rocco). Crítico frequente das ações do Exército israelense, ele diz, em entrevista ao GLOBO por e-mail, que Kashua o ajudou a entender “como a ocupação e a guerra são vistas do outro lado por alguém que, apesar de nascido dentro de outra tradição, compartilha o mesmo senso de humor e ama os mesmos filmes e livros que eu”.

— Escrevendo e recebendo essas cartas, temos ao menos o conforto de poder expressar o que sentimos, que é o primeiro passo necessário para uma transformação — diz Keret, que conta ter recebido reações “muito calorosas” de leitores sobre a correspondência. — Nessa atmosfera cheia de violência e desespero, o simples ato de comunicação entre um judeu e um palestino parece um pequeno milagre. Espero com todas as forças pelo dia em que isso será absolutamente comum.

Esta é a primeira parte da correspondência. A segunda parte pode ser lida aqui.

DE SAYED KASHUA PARA ETGAR KERET

O escritor palestino Sayed Kashua – Divulgação
Oi, Etgar.

Como estão você, Shira e Lev?

É tão estranho escrever para você, sabe? Nesta semana mesmo eu estava pensando em você. Falei de você na aula de hebraico e levei para os alunos um conto seu, “Espero que morram”. Levamos uma hora para chegar na metade. São legais, os meus alunos, mas o hebraico deles deixa muito a desejar. Mas não foi por isso que pensei em você. Pensei em você por causa do inverno que está começando a dar as caras por aqui. Quer dizer, não é que o inverno já tenha começado, talvez seja só o começo do outono, mas já é como nos dias mais frios do inverno de Jerusalém. Faz frio no interior de Illinois, e quase todo mundo que me encontra e sabe que acabei de chegar se sente obrigado a me alertar sobre o inverno cruel que nos aguarda.

Nesta semana tivemos que comprar roupas de frio. Como você sabe, chegamos aqui no verão, ou talvez mais precisamente, fugimos para este lugar no verão. Tirando umas poucas calças e blusas de manga curta, não trouxemos quase nada de casa, o inverno está chegando e as crianças não têm nada quente para usar.

“Vá ao T.J. Max”, disseram alguns de nossos novos conhecidos, muito solícitos, que estão ajudando com nossa aclimatação. “Lá tem umas coisas lindas e bem baratas”.

“Não comprem no shopping”, me disseram os pais de uma criança israelense que meu filho conheceu na escola. “Tem um outlet enorme a meia hora de carro, roupas ótimas com um preço muito bom”.

Ouvimos os conselhos de nossos novos amigos e compramos roupas para as crianças no outlet, até chegarmos aos casacos. “Nos casacos a gente não faz concessões”, eu disse para minha mulher. “Não no interior de Illinois, não para o tipo de inverno que garantiram que vamos ter”.

E, bem, é por sua causa que não estou sendo pão-duro com os casacos. Você nem deve se lembrar, mas quando dividimos um táxi de Leipzig a Berlim, talvez uns 15 anos atrás, você me contou uma história sobre seu pai, e uma frase ficou gravada na minha mente: “Ele sobreviveu porque levou um casaco”.

“Nos casacos a gente não faz concessões”, eu disse para minha mulher. “Temos que comprar os melhores, os mais caros”.

De qualquer forma, estamos em Champaign, Illinois. Não tem muito o que fazer aqui, tem uma universidade e campos de milho intermináveis, e tirando isso não sei muita coisa. Você acredita que meses já passaram e ainda não saí para tomar uma cerveja? Nem sei se eles têm bares decentes aqui. Vou ter que encontrar um logo. Nesse meio tempo, temos estado ocupados arrumando a casa, procurando escola para as crianças, entendendo a universidade e descobrindo onde comprar tahine e pepino.

De alguma forma, as crianças se adaptaram mais rápido do que eu esperava, e mesmo com o idioma novo e totalmente estranho para eles, mesmo com o clima e a comida, mesmo que tenham precisado deixar os amigos, elas parecem felizes. Sei disso porque vejo como elas me apressam para ligar o carro de manhã e sair de casa cedo porque não querem se atrasar para a escola. De alguma forma, minha mulher se acomodou bem aqui, embora eu temesse que ela fosse enlouquecer de tédio, porque está tirando uma folga do trabalho e da escola pela primeira vez em 20 anos.

E eu, que fiquei tão feliz por ir embora, por tirar minha família daquele lugar horrível chamado Israel, por afastá-los do cheiro de pólvora e do sangue, às vezes sinto que sou o mais triste de todos nós. Tenho medo de ficar aqui e tenho muito medo do dia em que tiver que voltar para casa, para Jerusalém, para Israel, para a Palestina. Sair foi traumático. Eu me senti como um refugiado correndo para salvar a vida, e a decisão de sair rápido foi tomada antes mesmo do início da guerra com Gaza. No dia em que o garoto palestino foi queimado até a morte em Jerusalém, eu me dei conta de que não podia mais deixar meus filhos saírem de casa. Naquele dia, liguei para a agente de viagens e pedi que nos tirasse dali o mas rápido possível. Infelizmente, levou alguns dias, e aquela maldita guerra, outra maldita guerra, já tinha começado, e o racismo que vi decolar na época da Segunda Intifada, no fim de 2000, estava alcançando níveis assustadores. Eu estava com muito medo e me sentia perseguido de verdade. Imagina, sou tipo um astro no zênite do sucesso, com um filme programado para sair no fim do ano e uma nova série sendo filmada nos primeiros dias da guerra, quando, de uma hora para outra, viro um inimigo. De uma hora para outra, todo jornalista de nariz escorrendo acha que pode descontar sua raiva em mim. De uma hora para outra, tenho medo até da garota que entrega água no estúdio. Etgar, de uma hora para outra, até o assistente de produção que eu nunca vi acha que pode parar na minha frente quando vou acompanhar as filmagens e me dizer, com uma clara sensação de superioridade: “Temos que bombardear todos eles, um por um”. E eu fico com medo. Medo dos vizinhos gentis do apartamento ao lado, porque estão com um olhar novo que eu nunca tinha visto antes da guerra, medo do garçom que põe cerveja no meu copo há mais de 20 anos.

Minha mulher sempre dizia que eu era um covarde paranoico com distúrbio de personalidade, que a situação era assustadora mas que eu estava exagerando. Mas juro para você, Etgar, eu vi a forma como meus amigos judeus mais próximos começaram a me olhar diferente. Às vezes eles tentavam não olhar nos meus olhos, às vezes o olhar deles era de acusação, condescendência, ódio.

Nunca me imaginei querendo ser professor e, quando dei aulas em Israel, detestei. Mas tenho tanto medo de voltar que até me animo preparando as aulas e torço para quererem que eu fique mais um ano, e talvez mais um ano depois disso. Nunca pensei em viver em outro lugar quando me perguntavam com frequência se eu considerava ir embora de Israel. Sempre rejeitei essa possibilidade com orgulho: “Que história é essa? Tenho uma guerra para lutar aqui!” E, você sabe, neste ano me dei conta de que perdi. Neste ano, os últimos vestígios de esperança no meu coração foram esmagados. Neste ano, me dei conta de que não podia mais mentir para os meus filhos e dizer que um dia eles teriam direitos iguais num país democrático. Neste ano, me dei conta de que os cidadãos árabes do país nunca terão um futuro melhor. Pelo contrário, será pior, os guetos onde eles vivem serão mais populosos, mais violentos e mais indigentes com o passar dos anos. Me dei conta neste ano de que não posso mais prometer aos meus filhos um futuro melhor.

Por outro lado, tenho muito medo de ficar aqui. O que me resta aqui se eu não puder escrever? E o que vou fazer sem o hebraico, a única língua em que consigo escrever? No começo, achei que aprenderia uma nova língua, que trocaria o hebraico pelo inglês, e acredite ou não o primeiro livro que comprei aqui foi seu. É tão doloroso perceber que, se já estou procurando uma nova língua, sequer estou considerando como opção viável o árabe, meu idioma materno.

Cá estou eu, um árabe palestino que só consegue escrever em hebraico, encalhado no interior de Illinois.

Sei que você e sua mulher tiveram dias difíceis porque você ousou discordar da violência e se opôr às máquinas de guerra, mas ainda assim escrevo, talvez em busca de um pouco de esperança. Pode mentir, se quiser. Por favor, Etgar, me conte uma história com final feliz.

Um abraço,

Sayed

Sayed Kashua, de 39 anos, é escritor e roteirista palestino, autor de três romances traduzidos em 15 idiomas, mas inéditos no Brasil.

 

DE ETGAR KERET PARA SAYED KASHUA

Oi, Sayed.

Fiquei muito feliz por receber sua carta, e muito triste quando a li. Detesto dizer isso, mas conheço bem a cidade de Illinois onde você está. Há alguns anos, quando Lev ainda estava no jardim de infância, fui convidado para dar conferências na Universidade de Illinois e passei umas semanas aí com minha família. Quando voltamos a Israel, cada um de nós tinha engordado uns quilos, e ficamos gratos pelas companhias aéreas cobrarem por excesso de bagagem, mas não por excesso de peso dos passageiros. É o que acontece quando você vive num país onde, em vez de celebrarem o Yom Kippur ou o Dia em Memória do Holocausto, celebram o Dia do Donut (isso existe, eu juro). Até hoje, Lev diz que Roma e Nova York são cidades fascinantes, mas nenhum lugar do mundo chega perto de Urbana, Illinois, e tudo por causa da pista de boliche e dos fliperamas que ele guarda com carinho na memória (o que mais o impressionou foi o enorme número de máquinas de refrigerante). Então, não me surpreende que seus filhos tenham se adaptado tão bem (você vai ter que limitar a dose diária de donut e panqueca para eles, senão isso vai acabar mal — quando o assunto é nutrição, a culinária americana é pior que o Estado Islâmico), e é fácil entender porque você ainda não se encontrou totalmente por aí. Você pediu uma história otimista com final feliz, então lá vai, vou tentar.

***

2015 foi um ano histórico no Oriente Médio, e tudo por causa de uma ideia brilhante e surpreendente de um expatriado árabe-israelense. Certa noite, o escritor estava sentado na varanda de casa em Urbana, Illinois, olhando para os intermináveis campos de milho que se espalhavam até o horizonte. Vendo toda aquela extensão, ele não pôde evitar o pensamento de que talvez os problemas de sua terra viessem do fato de que simplesmente não havia espaço para todo mundo. “Se eu conseguisse botar todos esses campos na minha mala”, ele disse para si mesmo, “dobrá-los muito, muito bem até ficarem muito, muito pequenos, eu poderia voar com eles até Israel. Passaria pela alfândega na fila verde para pessoas que não têm nada a declarar, porque afinal o que eu teria? Não seria como levar uma ideologia subversiva na mala ou qualquer coisa capaz de despertar o interesse de um fiscal de alfândega. Teria apenas imensos campos de milho muito, muito bem dobrados e, quando chegasse em casa, abriria a mala e shazam!, de uma hora para outra haveria espaço para todos, palestinos e israelenses, e até umas sobras para um gigantesco parque de diversões onde ambos os povos poderiam pegar todo o conhecimento e tecnologia que aplicam em desenvolver armas e usar para construir a mais incrível montanha-russa do mundo.”

Ele estava muito animado quando entrou em casa e tentou compartilhar a ideia empolgante com sua mulher, mas ela não se animou. “Esquece”, ela disse com frieza, “nunca vai funcionar”. O escritor admitiu que ainda precisava resolver questões logísticas, como convencer os fazendeiros de Illinois a lhe darem todos aqueles campos de milho, sem falar em encontrar o método correto para dobrar todos aqueles campos numa mala grande. “Mas”, ele respondeu, “esses problemas menores não são motivo para abandonar uma ideia que pode levar a paz para nossa região”.

“O problema não é esse, seu bobo”, disse a mulher. “Mesmo que você pudesse espremer toda a terra do mundo nessa sua mala velha, nunca conseguiria levar a paz para a região. De um lado, os radicais ultraortodoxos diriam que Deus prometeu todos aqueles campos de milho para eles. De outro, os racistas messiânicos diriam que todos aqueles campos de milho eram seu patrimônio. Não há escapatória, querido”, ela disse, dando de ombros. “Nascemos num lugar onde, mesmo que um monte de gente conviva em paz, ainda há gente suficiente dos dois lados que não quer e nunca vai permitir isso”.

Naquela noite, o escritor teve um sonho estranho. Nele havia um campo de milho infinito onde mísseis eram lançados e abatidos por mísseis antimísseis, enquanto caças de combate passavam zunindo e despejando bombas do céu. O campo ficou em chamas e o escritor se pegou imaginando, ainda no interior do sonho, quem diabos estava combatendo quem. Porque não havia pessoas no sonho, só mísseis, bombas e milho queimado.

Na manhã seguinte, o escritor tomou seu horroroso café americano em silêncio, sem dar nem bom-dia à mulher (estava muito ofendido por ter sido chamado de bobo na véspera), e depois de deixar os filhos na escola sentou-se para escrever uma história. Algo triste, com muita autocomiseração, sobre um homem bom e honesto injustiçado pela vida e pela mulher. Mas enquanto ele trabalhava na história, brotou em sua mente uma ideia brilhante, cem vezes melhor do que a anterior, sobre como resolver os problemas do Oriente Médio. Se o problema não era o território mas a população, tudo que ele precisava fazer era atualizar a “solução de dois Estados” para uma “solução de três Estados”, e assim os palestinos viveriam no primeiro, os israelenses no segundo e os radicais fundamentalistas, os racistas e todos aqueles que se divertem brigando viveriam no terceiro. A mulher dele desdenhou menos disso do que do plano de levar campos de milho na mala, sem falar que Barack Obama, com quem o escritor esbarrou num restaurante de beira de estrada na periferia de Urbana, Illinois, simplesmente adorou a ideia.

Em menos de uma década, havia três países lado a lado em um cantinho do Oriente Médio: o Estado de Israel, o Estado da Palestina e a República de A-Única-Língua-Que-Eles-Entendem-É-A-Força, um cenário de guerra civil constante que contava com o apoio de negociantes de armas e apresentadores de TV. O escritor (que, na história, é bem modesto) recusou educadamente o Nobel da Paz, fez as malas e voltou com a família para sua antiga casa em Israel. E toda vez que Barack Obama vem ao Oriente Médio para mais uma de suas infrutíferas missões de paz na República de A-Única-Língua-Que-Eles-Entendem-É-A-Força, faz uma visita ao escritor que conseguiu, com as próprias mãos, trazer a paz para seu povo. Eles sentam em silêncio na varanda do escritor, que dá para um vale cultivado, e dividem com gosto um pratinho de milho

***

Essa é a história. Não tenho certeza se é mesmo uma história, nem se é mesmo otimista, mas foi o melhor que pude fazer. Cuide-se. E seja lá o que acontecer, não economize nos casacos. Um casaco é uma coisa importante.

Um abraço,

Etgar

P.S. Cuidado. Um fato comum entre israelenses que imigram para os EUA é que começam a falar iídiche, e no caso dos árabes pode soar cômico!

Etgar Keret, de 47 anos, é escritor israelense, autor da coletânea de contos “De repente, uma batida na porta” (Ed. Rocco), entre outros livros.

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