Já passou o domingo

Foto: Flávio Tin (aqui)

Já passou o domingo. Desejava falar do domingo, mas já passou e a segunda-feira chegou cheia de pressa e com muitas pernas. Quando pensei em falar do domingo passou. Quando pensei dizer a vida passou. Tudo passa até uva passa. Logo chega o nosso inverno. Não gostaria que passasse a hora outonal de dizer que ontem, domingo, estava lindo o dia. Uma luz de pintor. Crepuscular aquarelada em cores sépias e aconchegantes. Tudo convidava ao descanso e à meditação. Nos bares só o barulho do jogo. Pensava! como tinha chegado a velhice e logo a vida passou. O tempo passa mais rápido com a idade.

Em tempos on-line tudo acontece no mesmo tempo. Não temos mais tempo de esperar as notícias que vinham a cavalo. Nesse tempo a história era menor, o mundo menor, o tempo de vida menor. Hoje somos mais e menos. Ficamos mais sós. Odiamos e amamos esse tempo. Odiamos e amamos o outro. Para alguns ” é sempre no passado aquele orgasmo”.  Prefiro o Paulinho das Viola: meu tempo é hoje.  Esse domingo é único. A memória presente. Ficamos no passado.

Hoje tudo ficou velho. Velho o mundo. Velho os nossos amigos. O tempo não parou para olhar o tempo passando. Vejo (só) nos outros a pressa do tempo. A escala do tempo muda e bom que entre uma e outra semana tem o fim de semana para meditarmos. Estava lindo demais o domingo. Pena não ser pintor e estas palavras serem tão pobres para dizer o que senti. O caminhar… tudo parecia mais lento. As ruas com poucos carros.

Nos sentimos transparentes com o tempo. Ninguém nos olha. As três moças do restaurante eram lindas. Entre dez falas nove eram com ele. E nem uma comigo. Ele é bonito. Ele gosta dela. Ele acabou o namoro com minha amiga, etc. Não tenho nariz nem tão pouco um corpo grgo. Roxane não se aproxima.  Não tenho a verve de Ronsard em amores  nem o canto do rouxinol para oferecer a ela.  Os cantos do domingo de Pentecostes ainda soam como lá.

Mais bonita ainda elas ficaram quando levantaram com seus corpos de mulheres renascentistas. Nada de corpo de violino, embora seus corpos tocassem as mais lindas valsas. E que pernas torneadas e belas. Pareciam colunas de mármores apoiando corpos monumentos. Os vestidos curtos podiam ficar mais curtos ainda. O tempo parou para olhar era domingo. Elas inda ficaram em pé para melhor serrem contempladas. E eu que comecei a escrever essa crônica para falar do céu terminei falando das meninas na plenitude da mulher. Aí por volta dos trinta-quarenta anos. Mas até esse tempo muda na beleza da mulher. Só não passou o tempo de apreciar as belezas do universo. A balzaquiana de ontem pode ser a gata de hoje. Elas estão cada vez mais belas. Veio a mini-saia, depois esses shortinhos que maltratam e os vestidos que nunca saem de moda. Hoje tem uns tecidos finos que enriquecem o vestir e a feminilidade. O tempo passou é já não é domingo. Que pena. Tudo passa, até uva…

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