Jabuti, Cascudinho, Mário

Não sei como repercutiu na Imprensa potiguar em geral, o SP não comentou especificamente que o Prêmio Jabuti na área de Teoria e Crítica Literária saiu para Marcos Antonio de Moraes, que coordenou a edição anotada da correspondência entre Câmara Cascudo e Mario de Andrade (o título do livro é Câmara Cascudo e Mário de Andrade – Cartas, 1924-1944, editado pela Global). Esse trabalho, muito bem cuidado, retoma, amplia e aprofunda o esforço pioneiro anterior de Veríssimo de Melo (Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo, publicado pela Villa Rica), primeiro organizador de uma edição parcial dessa correspondência. Marcos Antonio de Moraes foi além daquela experiência anterior, principalmente por possibilitar acompanharmos o diálogo efetivo entre os dois, abrindo perspectivas muito importantes para a compreensão de sintonias e diferenças entre aqueles importantes nomes da modernidade brasileira. Ele pesquisou principalmente no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP) e no Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo e o volume inclui expressiva iconografia. Certamente, é uma referência clássica, desde já, para o estudo sobre os dois epistológrafos.

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Do editor

Marcos, Woden Madruga comentou hoje em sua coluna na Tribuna do Norte. A foto acima vem acompanhada do texto “Mário Andrade e Natal: uma ótima relação”, de Rostand Medeiros (aqui). Abaixo o texto de Madruga:

Jornal de WM
Por Woden Madruga

Cascudo e Mário, no Jabuti

O Prêmio Jabuti deste ano, na categoria Teoria e Crítica Literária, foi dado para o livro Câmara Cascudo e Mário de Andrade – Cartas, 1924-1944, organizado por Marcos Antônio de Morais, professor de Literatura da USP (Departamento de Letras Clássicas e Vernaculares) e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) também da USP. O livro foi publicado em 2010 pela Global Editora. O Prêmio Jabuti é criação da Câmara Brasileira de Livros e já está na 53ª versão. O prêmio consta de várias categorias.

Na categoria Romance, o ganhador foi o escritor José Castello, com Ribamar, editado pela Bertrand do Brasil. Na Poesia, venceu Ferreira Gullar, com Em alguma parte alguma, selo da José Olympio. Em Contos e Crônicas, foi para Dalton Trevisan, 86 anos de vampiragem por Curitiba. Ganhou com Desgraciada (Record). Por falar em Trevisan, a Record acaba de publicar o seu 42º livro: O anão e a ninfeta, com uma capa porreta de Fabina sobre desenho de Poti, outro arretado. São 40 contos e alguns poemas (a orelha do livro é um poema, “O coração”, bem vampiro). Li todo o livro de uma tacada numa tarde dessas no alpendre de Queimadas. Alguns contos são tão concisos que só têm quatro linhas. “O escritor”, por exemplo:

Me fiz de bêbado entre os bêbados, para ganhar os bêbados.

Me fiz tudo para todos, para todos os meios chegar a entender um só – ai de mim!

Voltemos ao Jabuti. Na categoria Gastronomia, o prêmio foi para Machado de Assis: Relíquias Culinárias, de Rosa Belluzzo, editada pela Unesp. Certamente o doutor Ivan Maciel já leu o livro. Como era esperado, o 1982, de Laurentino Gomes, publicado pela Nova Fronteira, ganhou na categoria Reportagem. Em Biografia, o vencedor foi Alceu Penna e as Garotas do Brasil: Moda imprensa – 1933 a 1974, de Gonçalo Júnior. Quem foi leitor da revista O Cruzeiro, como eu fui, eras de 50 e 60 do outro, vai querer ver de novo essas garotas, matando saudades.

Gilberto Freyre também foi premiado (in memoriam) na categoria Biografia, com De menino a homem – De mais de trinta anos e de quarenta, e de sessenta e mais anos. Obra póstuma. Quem ganhou na categoria Juvenil, foi a escritora Marina Colassanti, com Antes de virar gente e outras histórias. Livro Infantil foi para André Neves com Obax.

Sobre as cartas trocadas entre Câmara Cascudo e Mário de Andrade, Veríssimo de Melo publicou pela Editora Vila Rica, de Belo Horizonte, em 1991, Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo, com introdução e notas suas. Mas o trabalho mais completo sobre esta troca de cartas, mais até do que o livro agora premiado com o Jabuti, é a pesquisa (tese de mestrado) de Edna Maria Rangel de Sá Gomes, Correspondências: Leitura das cartas trocadas entre Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade. Foi apresentado no Curso de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, do Departamento de Letras da UFRN, em setembro de 1999. O orientador foi o professor e escritor Eduardo de Assis Duarte, também estudioso da obra de Machado de Assis. Da banca participaram a professora Eneida Maria de Souza, da UFMG, e Humberto Hermenegildo de Araújo, da UFRN.

Pena que este trabalho não tenha sido publicado em livro pela UFRN.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 20 de outubro de 2011 15:32

    Não é plágio. Acho normal que pessoas inteligentes (como nós, imodestamente) escrevam coisas semelhantes e também coisas diferentes. Temos um monte de interesses em comum: Cervantes, Cascudo. E foi muito bom para mim sairmos juntos depois do lançamento de RIMBAUD ETC. e ficarmos cantando, com o povo do SP, sambas e outros ritmos. Espero que a dose se repita pela aí. Junto com as divergências naturais que também marcam os seres inteligentes.

  2. João da Mata 20 de outubro de 2011 12:25

    O q acho interessante, Marcos Silva; é que voce algumas vezes voce escreve a mesma coisa que eu. Pode ser o mesmo interesse, né!.

  3. Marcos Silva 20 de outubro de 2011 12:21

    Ótimo saber disso, Sérgio. Tarcísio e Humberto Hermenegildo têm escrito trabalhos muito bons sobre Câmara Cascudo e o RN no início do século XX. Humberto fez pessoalmente e orientou pesquisas sobre Cascudo, inclusive a correspondência agora editada por Marcos Moraes.
    O trabalho de Veríssimo de Melo com a correspondência de Mário para Cascudo foi de grande importância, pioneiro e ousado. Por não incluir as cartas de Cascudo, pode induzir o leitor apressado a deduzir que Mário sempre aconselhou e Cascudo sempre acatou o que lia. Claro que não era essa a intenção de Veríssimo (amigo e admirador de Cascudo) mas o estilo da edição deixa esse flanco aberto.
    A edição de Moraes não desmerece nenhum pesquisador potiguar, pelo contrário, só existe porque Cascudo foi e continua a ser objeto de grande fortuna crítica no RN e noutros centros de estudos.

  4. João da Mata 20 de outubro de 2011 12:10

    UM MISSIVISTA CONTUMAZ

    Mário foi um missivista contumaz. Suas cartas são maravilhosas, porque escritas com todo o seu ser desnudo e franco. Na correspondencia Cascudo- Mário ha que se destacar o trabalho pioneiro do meu querido amigo Veríssimo de Melo, que esse ano completaria 90 anos. Sua publicação original por Veríssmo CONTINHA algumas falhas, mas foi a publicação que revelou pela primeira hora a riqueza dessas cartas. ” Deixo aos sambistas mais novos o meu pedido final / não deixe o samba morrer.. “.
    Ha que se destacar , tambem, o trabalho academico realizado pelo Núcleo da UFRN.

  5. Sergio Vilar 20 de outubro de 2011 7:06

    Fala, Marcos!
    O Diário de Natal publicou matéria de capa. Infelizmente, sem a palavra do professor Marcos Moraes. Ele estava em uma conferência com alunos durante toda a manhã. Ainda assim, escrevi baseado nas cartas e no auxílio do professor Tarcísio Gurgel.

    Abraço!

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