James Douglas Morrison e as “portas da percepção”

Esse aí em cima, no título deste texto, era o nome de batismo do “Rei Lagarto”, o polêmico e muito talentoso Jim Morrison, nascido em Melbourne, EUA, 1943, e líder da imortal banda “The Doors”, que incendiou a cena americana nos anos 60.

Filho de um almirante conservador e de uma também funcionária da marinha americana e igualmente conservadora, James, ou Jim (como ficou mundialmente conhecido), subverteu todas as ordens e fez arte com “A” maiúsculo. Todo tipo de arte, aliás. Jim era um elevado artista (estudou cinema, era fascinado por poesia, e tinha ligações com diversos tipos de arte) e também um “arteiro” da pesada (chegou, dentre outras muitas peraltices, a mostrar a genitália em um show, o que ocasionou a primeira prisão e diversos transtornos).

Comoveu-me vê-lo sob todos os ângulos no documentário (que reputo como excelente)  de Tom DiCillo, “When You’re Strange – a film about The Doors”, 2010, um verdadeiro “soco no estômago”.

O filme, narrado por ninguém menos que Johnny Depp, mostra os bastidores da grande banda liderada por Jim e que teve de suportar todas as idiossincrasias e vícios do seu ícone maior, até se desmanchar, sem possibilidades de continuar presente na cena, já que Morrison decidira partir para Paris em busca de novos sonhos e, talvez, já com uma predestinação para o descanso eterno (em 1971) no Cimitière du Père Lachaise, por onde gostava de caminhar em meio a defuntos e fantasmas célebres, Balzac, Oscar Wilde, Chopin, Proust, Paul Éluard, Delacroix, Piaf…

Talvez os maiores fantasmas de Jim estivessem mesmo em sua mente, povoada por delírios, sonhos e …poesia. Jim, inclusive, acreditava que tinha abrigadas em seu corpo as almas de índios americanos que vira mortos num acidente de estrada, no Novo México, quando pequeno. Os pais de Jim negaram até a morte que essa cena tivesse acontecido. Mas, os nativos de Jim estavam lá, explodindo em seu cérebro ultra-sensível:

“A primeira vez que descobri a morte… eu, os meus pais e os meus avós, íamos de automóvel no meio do deserto ao amanhecer. Um caminhão carregado de índios, tinha chocado com outra viatura e havia índios espalhados por toda a auto-estrada, sangrando. Eu era apenas uma criança e fui obrigado a ficar dentro do automóvel enquanto os meus pais foram ver o que se passava. Não consegui ver nada – para mim era apenas tinta vermelha esquisita e pessoas deitadas no chão, mas sentia que alguma coisa se tinha passado, porque conseguia perceber a vibração das pessoas à minha volta, então de repente apercebi-me que elas não sabiam mais do que eu sobre o que tinha acontecido. Esta foi a primeira vez que senti medo… e eu penso que nessa altura as almas daqueles índios mortos – talvez de um ou dois deles – andavam a correr e aos pulos e vieram parar à minha alma, e eu, apenas como uma esponja, ali sentado a absorvê-las.”

Jim foi para Paris, com sua mulher Pam, buscar o sonho da poesia. Talvez, ninguém tenha levado tanto a sério a poesia. Jim largou uma carreira de extremo sucesso, na condição garantida de ícone mundial do Rock, para escrever uns livrinhos na “Cidade Luz”, talvez inspirado por nomes como o de Baudelaire, a quem admirava.

Por sinal, o amor de Jim à poesia foi o que possibilitou  a criação do nome da banda, “The Doors”, com uma expressão oriunda de textos de William Blake, depois também aproveitada por Aldous Huxley num livro (“The Doors of Perception”) escrito em 1954:

“If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite.”

E as portas da percepção nem sempre estão limpas.

Jim Morrison morreu em 1971, numa banheira, como um famoso poetinha bem conhecido por nós, brasileiros. Alguns dizem que morreu de overdose, outros afirmam que foi assassinado pela CIA. Muitos creem, fortemente, que o “Rei Lagarto” ainda está vivo…

P.S. Nos extras do DVD há uma muito curiosa entrevista do Almirante Morrison, pai de Jim (falecido em 2008), falando sobre a infância do filho célebre, dentre outros temas, inclusive o seu amor pelos livros e pela poesia. A irmã de Jim também presta o seu depoimento e, numa das suas falas, revela que Jim, adolescente, pedira aos pais uma coleção completa dos livros de Nietzsche, que leu toda.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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