James Joyce, um vidente na virada do século

James Joyce nasceu em 1882, em Dublin, na Irlanda, onde fincou os pés até os 20 anos, quando decidiu bater em retirada em um exílio voluntário. A partir daí não mais parou. As raízes, porém já estavam entranhadas em sua alma o que podemos deduzir pela sua obra, em que as estórias contadas se passam quase sempre em sua terra natal adorada e odiada. Pintar o próprio chão é se tornar universal, já disse Tolstoi.

Joyce escreveu alguns dos livros seminais da literatura mundial e que são motivos de pesquisa acadêmica até hoje. Ele estréia com um livro de contos chamado “Dublinenses”, em que pinta um retrato vivido da decadência irlandesa. Na seqüência veio “Retrato do artista quando jovem” bastante autobiográfico, “Ulisses” em que Joyce procura contar um dia na vida de um sujeito, Leopold Bloom e por fim, “Finnegans Wake” um livro difícil e que parece mais um discurso onírico tamanho os experimentalismos e desconstrucionismos na ordem da linguagem mais parecendo um discurso esquizo. Aliás, será por causa dessa linguagem fragmentada, cheios de trocadilhos multilíngües que o psicanalista francês Jacques Lacan vai perceber em Joyce uma estrutura psicótica não consumada. O próprio Joyce, no entanto, irá dizer, diante do estranhamento que “Finnegans Wake” causou no público e na critica, que seria capaz de justificar cada frase do livro. Há ainda “Stephen Hero” inacabado e uma peça de teatro “Exilados”.

Mas, independente de questões pessoais (quase sempre interessantes) o certo é que a obra desse irlandês irá produzir e deixar marcas profundas na literatura moderna. A começar pelos seus personagens. Os personagens de Joyce são ricos no sentido humano do termo, entendam bem, de não aderirem a separações dicotômicas ou maniqueístas idealizadas tão ao gosto do ideário marxista da época e quiçá ainda hoje. Joyce irá romper com as dicotomias radicais tão aceitas pela ideologia esquerdista. Aliás, Joyce sempre foi muito mal avaliado pelas esquerdas. Mas é justamente ai que reside sua grandeza como escritor, penso eu. É preciso dizer que seus personagens convivem com os opostos dentro de si, como todos nós. Um dos méritos de Joyce foi ter conseguido a façanha de ter criado o ordinário e o extraordinário em seus personagens e isso através de uma linguagem completamente inovadora.

No sentido político e social (que me desculpem a redundância) Joyce teve dois grandes inimigos: o Império Britânico e a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana. Contra o primeiro o escritor transferiu seu ódio a ponto de em “Retrato do artista quando jovem” terminar o livro com a perspectiva de que era preciso “forjar a consciência incriada de sua raça”. A ira contra o império britânico deve-se em muito ao fato dos irlandeses falarem o inglês, língua do opressor, contra o idioma gaélico que era a língua natural antes do domínio inglês. Sua fúria não menos intensa será dirigida também contra a Igreja católica, a ponto de sua mãe no leito de morte ter pedido para que Joyce fizesse as pazes com a religiosidade cristã, mas cujo pedido não foi atendido.

No entanto, será com seu estilo literário cujo consenso é inconteste que Joyce irá figurar como um dos precursores do movimento modernista, ainda que paradoxalmente o mesmo nunca tenha visto com bons olhos a modernidade, tida por ele como o palco ou o “lócus” da destruição, das perdas de referências (sintomático?), do anonimato e do desencanto.

Joyce como todo grande artista nunca se sentiu confortável no mundo que ajudou a criar e descrever. É sua a frase famosa em carta a Nora (sua esposa, uma camareira de hotel antes de conhecê-lo e o grande amor de sua vida ao lado da literatura) em que, num profundo reconhecimento de si disse: “não posso ingressar na ordem social exceto como vagabundo”.

Em outro artigo que certa vez escrevi, já faz tempo, cunhei a frase ou a perspectiva de que Joyce foi um dândi, um errante por toda a vida. Continuo pensando assim. Mas foi esse errante genial que legou para a posteridade uma obra extramemente inovadora e que como ele mesmo disse certa vez antevendo o seu futuro de que daria “trabalho aos acadêmicos por mais de 200 anos”. Se todo grande artista é uma espécie de vidente da raça, Joyce também foi um.

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