Jane Russel

Por Luís Fernando Veríssimo

A Jane Russel morreu na semana passada. Atriz americana. Morena. Bonita. Grandes seios. Entrou no cinema, por assim dizer, pelos seios. O excêntrico empresário e produtor de cinema Howard Hughes avistou seus seios na rua e decidiu contratá-los na hora. Os seios eram perfeitos mas Hughes achou que podia melhorar sua exposição. Ele desenhava aviões, tratou de inventar um soutien apropriadamente aerodinâmico para sustentar os seios da Jane Russel. Depois de meses de pesquisa o soutien ficou pronto e Jane e seus seios foram apresentados ao público. Seu primeiro filme, produzido e dirigido por Hughes, se chamava The Outlaw, o fora da lei. Foi uma sensação.

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Um filme histórico. Não apenas pela franca exploração dos grandes seios da atriz, cujo decote dominava todos os cartazes, mas principalmente pela cena em que Jane Russel decide ajudar o fora da lei a se curar de uma tremedeira, não me lembro se causada por gripe, pneumonia ou tiro, e deita-se com ele na cama. Não acontece nada entre os dois, Jane só usa seu corpo para fins terapêuticos. Mas a ideia do calor daqueles grandes peitos reanimando o caubói prostrado causou escândalo, numa época em que nem casados podiam aparecer nos filmes ocupando a mesma cama. O filme de Hughes quase foi proibido. Ele teve que cortar cenas – presumivelmente de excesso de protuberância dos peitos pioneiros – para que fosse liberado.

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Anos antes, outro filme tinha causado sensação porque o Clark Gable, despedindo-se calhordamente da Scarlett O”Hara em E o Vento Levou, dizia, referindo-se a seus problemas, “Frankly, my dear, I don”t give a damn”. Em português inócuo “francamente, minha querida, eu não dou a mínima”, mas no original a primeira vez que se ouviu no cinema a palavra “damn”, maldição, uma profanidade, como “Deus”, “Jesus”ou “inferno” usados como expletivos. Anos depois outro filme, acho que do Otto Preminger, também se tornou histórico porque nele uma personagem se declarava virgem. A não ser para descrever a mãe de Jesus – e desconfio que nem então – a palavra “virgem” nunca tinha sido dita num filme americano. Fui ver o filme quando ele saiu nos Estados Unidos em 1953 e lembro do murmúrio de risos abafados que percorreu a plateia na única vez em que a mocinha confessou sua condição.

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Compare-se tudo isso com os seios nus que pululam, se este é o termo, e na palavra “fucking” usada como interjeição obrigatória em qualquer diálogo, no atual cinema americano.

O GUIA
(Da série Poesia numa Hora Destas?!)

Dante escolheu Virgílio para guiá-lo no mundo dos mortos.
Que poeta você escolheria para a mesma missão?
(Lembre-se que pela companhia o conhecerão…).
Homero, Ovídio, Petrarca ou alguém mais moderno
para explicar o Paraíso e o lascivo Inferno?
Os franceses, nem pensar:
Verlaine e Rimbaud iriam desmaiar
e Baudelaire aderiria
à divina baixaria.
Mas Drummond, por que não? Ou João Cabral?
Bandeira, Cecília… E o Quintana, que tal?
Yeats, Thomas, Pound ou Eliot, o T.S.
ou qualquer outro que se dispusesse.
Poetas não faltam, falta o poeta certo
para nos conduzir pelo Além sem sair de perto.
Eu já escolhi meu consorte
um que sabe tudo da vida e da morte
do amor, do ciúmes, do poder e da glória
dos terrores da alma e dos tremores da História.
Seu nome é Shakespeare, o bardo ilustríssimo.
Mas dizem que seu cachê é altíssimo…

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