Janelas para o mundo

Fui procurar informações sobre o nome dos passos que a moça no supermercado executava enquanto esperava sua vez na fila quilométrica a nossa frente. Foi apenas umas das coisas mágicas que aconteceram em duas horas de vai e vem nos corredores abarrotados de carrinhos.

Um pouco antes passei na casa de Cris – ela queria me mostrar duas gigantescas janelas que olhavam para dentro de casa e para os curiosos da rua. Não perdi a oportunidade de tomar uma fresca e fomos sentar em um dos parapeitos. Essa é uma das sensações de que a linguagem metafórica não dá conta.  Balançávamos as pernas e fazíamos poses de namoradeiras; falávamos dessa dádiva que incendiava a casa de luz.

Então, passamos a contar, marcando nas pontas dos dedos, quantas pessoas a gente conhecia que tinham janelões em casa. Menos eu. Três colunas com duas janelinhas em cada. E nada de um ínfimo ventinho a espreitar por elas. Um forno. Mas a da casa de Angélica Vitalino, um colosso! Dava para um jardinzinho em tons de amarelo; ao centro uma mesa de ferro fundido com tampo e cadeiras bordadas. É isso – cabe um verso para ela: “Quem faz um poema abre uma janela”.

Somos interrompidas por cliques de uma câmara. Uma sequência de fotografias de duas mulheres na janela. Lembra de Acássia? Conte o dia em que foi lá…

Soube por Acássia que a casa já havia sido fotografada por algumas revistas de arquitetura. Não encontrei janelas. Algo muito mais pós-moderno saltava diante dos meus olhos. Demorei a encontrar um traço da beleza, como em outras casas.  A existência tem um sentido perene. A de desconsiderar o ordinário para refazer-se de novo é infinitamente diante do belo.  

Venha, suba! Parei estupefata diante de uma janela. Dantesca. Meu Deus! Meu Deus! Ela deu um sorriso de satisfação! Trago esse sagrado momento na memória. Em casa, releio Perto do coração Selvagem, em que a mulher da voz diz: “preciso lavar minhas roupas antes de tomar minha fresca na janela”.

As horas se passam. Não vá agora! Preciso ir. Depois trago um chá que ganhei de Bete. Coisa fina! “Crème brûée”. Tem gosto de quê? Perfume. Traga xícaras. Só tenho uma de porcelana. Sim. Merece, né!?

Esqueci a máscara. O rapaz de farda aponta para meu rosto. E agora? Só um minuto, senhora! Em três tempos, estou dentro do prédio. Olho para cima. Toneladas de alimentados encaixotados em plásticos transparentes. Ainda há fome no mundo. Procuro focar nas necessidades… Vejo um panetone de chocolate com o preço de um quilo de carne. Desisto. Insulto. Esbarro em um funcionário do frigorífico. Moço, por favor, me indique aqui onde estão as aves. As aves? Sim. Isso aqui? Sim.

A promotora da marca aparece encantada não sei de que corredor. Todo um braço tomado por sacolas térmicas e um sorriso de atendente de creme dental . Promoção. Leva dois, ganha a bolsa térmica e dois refrigerantes de dois litros. Tentador. O moço do açougue tem cheiro de frios. Continua parado diante de nós duas. Ela tenta colocar entre a alça de sustentação dos pacotes das aves ao da bolsa térmica um fecho de segurança. Uma eternidade. Tenta uma, duas, três vezes.  Não consegue. O rapaz tenta ajudar. Os nós de seus dedos estão arroxeados. Ele também tenta. Nada. Um homenzinho de sobrancelhas de Lobato toma a frente. Um minuto. Passo o dia inteiro trabalhando com isso. E olhe que eles são da grossura de um dedo. Eu diria de suas sobrancelhas. Agradeço. Quatro pessoas e o calor da generosidade humana. Obrigada.

Sempre me perco nesses hipermercados… Passei de novo pelos panetones. Peguei um do tamanho de uma xícara. Preço justo. E olhe que levei duas aves grandes… Vou para a fila. Encontro o homem de sobrancelhas grossas. Deu certo. Sabe, ela estava colocando do lado errado. Tem um jeitinho para fazer dar certo. E demonstrava com as mãos. Chegou a vez dele. Acenou para mim após passar pela caixa . Ainda é possível respirar humanidade.

Descanso um dos braços no corrimão do carrinho, e o outro na posição de uma namoradeira. Não há janelas. Fito os olhos no chão e me desmancho em um sorrisinho envergonhado.  Olho os pés de uma bailarina . Literalmente. A mulher faz passinho de balé. Eu fiz balé… Ela repete uma sequência. Acho que é isso: quatrième derrière, épaule , écarté 

O marido. Acho que era o marido. Toca de leve o braço da bailarina. Se abraçam. Minha máscara está encharcada. Vou tomar chá e uma fresca na janela logo mais à noite. Feliz Natal.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. GILMARA LOPES DA SILVA 2 de janeiro de 2021 11:07

    De uma das coisas mais lindas que li, sua palavras são como pincéis, é possível ver e sentir-se nesse cenário,reconfortante e ao mesmo tempo profundo.

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