Jango e João Cabral

NO NOVO JORNAL/RN

Jango nunca fez um verso. João Cabral nunca fez um discurso. Jango era um homem simples, quase simplório. João Cabral era um homem simples, quase sumido.

Getúlio fez o primeiro governo que deu vez aos oprimidos, mas o fez como esmola. E ainda sujou a biografia criando uma ditadura.

Jango fez o primeiro governo que deu voz aos oprimidos, deu consciência em vez de esmola e foi expulso por outra ditadura, tão terrível que fez da de Getúlio uma imagem pífia da crueldade.

O Brasil de JK, dourado tempo de obras e festa, mergulhou na hipocrisia farsante de JQ, o histrião malandro que a UDN usou para ganhar a única eleição da sua história de falsa ética.

Jango, simples, simplório, ingênuo, foi traído por aliados e escorregados. Que se uniram aos conspiradores e bateram as portas dos quartéis onde moravam políticos ambiciosos fantasiados de japona e coturno.

A República de bananas virou posto avançado da estratégia americana nos seus embates com os coturnos do Leste. Uma ditadura da grana, outra ditadura de partido único. E nós entregues à ditadura chinfrim do conluio servil. Não fosse tanto sangue derramado, seria apenas um poema de circo. Com palhaços olivas bufando ameaças.

Não havia um terceiro lado. Tempo bidimensional. Quem não combatia, colaborava. Fosse pela ação ou omissão. E qualquer combate, mesmo tímido, causava ódio e furor nas hostes dos capitães de mato.

Onde se cruzaram os caminhos de Jango e João Cabral? Jango exilado no Uruguai. Vigiado até pra cagar. João Cabral servidor diplomático, batendo perna no mundo, onde fosse designado. Mal visto pelo poder, por conta dos seus versos de “Morte e Vida Severina”.

Estava servindo na Embaixada do Brasil, em Buenos Aires, quando recebeu a missão canina, abaixo do nível dos cães, de informar sobre a presença de Jango na capital argentina. Jango ia lá, raramente, receber medicamentos que vinham da França. O poeta deveria noticiar aos superiores o tempo de estadia, local e encontros de Jango.

No mesmo papel onde fazia nascerem poemas perfeitos, lhe exigiam versos de excremento. Para preservar o seu sossego, roubava migalhas de sossego do conterrâneo exilado. Não há paz no exílio para fugido odiado. E Jango nadava em águas de ódio. O Itamaraty guarda esses tristes papéis.

Jango morreu longe da terra amada. Repousa em sossego na História. João Cabral também repousa em sossego, reconhecido com justiça como um dos nossos maiores poetas. Criador de uma escola de poesia.

Vejam o que faz uma ditadura! Dois grandes homens, num tempo terrível, compondo cada um o seu poema possível.

E as víboras do poder, com desculpas às cobras, peritos em arrancar, pelo espinhaço, o coração da Pátria. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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