Jarbas reúne seus inéditos e dispersos

Atendendo a sugestão do livreiro Abimael Silva, o poeta Jarbas Martins está reunindo seus dispersos em livros, jornais, revistas e gavetas, com isso, dando forma a um novo livro, que terá o sugestivo nome de “re-Visões e outros poemas contra-acabados” (qualquer eco ao seu livro Contracanto não é mera coincidência, mas a construção “contra-acabados” ele tributa ao poeta Augusto de Campos). A ideia de Jarbas é que ainda este ano seu novo livro de poemas seja lançado, certamente num grande evento literário, à altura das expectativas que cercam de idiossincrasias a figura do poeta.

De fato, Jarbas Martins costumava jactava-se, até poucos anos atrás, de ser autor de um único livro de versos, Contracanto, lançado em 1996 pela Editora da UFRN, e que, certamente, está esgotado. Seus namoros com a poesia, porém, já haviam rendido, dois anos antes de Contracanto, um curioso e singular livreto intitulado 14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense – seleção e crítica. Essa obra, aliás, constitui outro projeto literário em que Jarbas vem trabalhando com vistas a uma segunda edição. A seleção de poemas não sofrerá alterações, mas o curto ensaio que enfeixou a primeira edição será substituído por uma longa reflexão crítica em torno da história do soneto enquanto estilo poético, mas sem perder de vistas as características que ele assume quando transplantado para a seara das nossas letras.

14 versus 14, que é também uma “viagem em busca da aura perdida do soneto”, conforme a definição do seu autor, seria seguida de Contracanto e, em 2008, de Antielegia para Emmanuel Bezerra. Assim, a veleidade que Jarbas alimentou de ser o poeta de um único livro está se desfazendo, graças às injunções da própria poesia.

Essa mudança deve ser vista como uma consequência natural de sua história como poeta vivendo em um contexto muito específico, do qual ele faz absoluta questão de não desenraizar-se e para o qual vem dando uma contribuição das mais singulares e significativas.

É suficiente que se atente para o escopo de abrangência da sua poesia, em inquieta expansão, para aí se perceber o quanto ela exibe de colorido, de variegado, de pensado e de experimentado. Desde Contracanto, formas clássicas, como o soneto, convivem, em Jarbas, com experiências induzidas pela eclosão do concretismo e do pós-concretismo, especialmente sob a forma do poema processo, “pecado” em que também incorreram conterrâneos seus, como Dailor Varela, Moacy Cirne, Bosco Lopes, Anchieta Fernandes e Nei Leandro de Castro.

Nel mezzo del cammin, a arte tradutória, exemplarmente defendida pelo poeta Luís Carlos Guimarães entre nós, sobretudo depois da publicação do seu 113 traições bem-intencionadas, sugeriu a Jarbas experiências nessa senda. Daí, vieram as traduções de Henri Michaux, de Jorge Luis Borges, de César Vallejo, entre outros, que ele publicou em algumas edições do jornal cultural O Galo, na Revista do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte e também na Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses, que organizamos para a Editora da UFRN, em 2008. Sub-repticiamente, houve também o reencontro com o soneto, gênero que, hoje, parece merecer uma especial atenção de Jarbas, pelas possibilidades que lhe vem oferecendo em termos de expressão poética.

O acervo de traduções, de sonetos e de outras formas poéticas que Jarbas Martins vem produzindo nestes últimos anos justifica plenamente o projeto editorial de Abmael Silva para um novo livro do autor de Contracanto.

A propósito dessa obra, já não seria tempo de dar-lhe uma segunda edição, haja vista que se encontra fora de catálogo há mais de duas décadas? Não pensamos, evidentemente, numa mera reposição de um título esgotado, mas numa reedição comportando um novo projeto gráfico e uma exposição introdutória assinada pelo próprio poeta, além, evidentemente, de uma seleção da fortuna crítica escrita à sua margem nesse entretempo. Mais do que servir à memória literária potiguar, uma obra com tais características faria justiça ao papel que Contracanto merece ocupar nas nossas letras.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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