Javier Marías e a incerteza da espera

Novo romance do espanhol, “Berta Isla”, traz história de casal e uma questão: vale a pena ficarmos à espera da volta de alguém, ou devemos enterrar o passado e viver surpresas e incertezas que só o futuro oferece?

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Madrilenho Javier Marías Franco é um dos principais escritores espanhóis.

Ulisses foi à  guerra de Tróia e sua esposa Penélope o espera. Os anos se passam e nenhuma notícia se Ulisses segue vivo ou morto. Penélope o espera fiel, leal e resignada.

Vinte anos depois e Penélope segue a espera sem fim. Seu pai sugere um novo casamento e Penélope resolve aceitá-lo, com uma condição: que o casamento seja realizado quando finalizar um sudário para o pai de Ulisses.

Penélope, o sí­mbolo da fidelidade, costura pela manhã e desfaz o trabalho à  noite. Ulisses volta…

É assim que enxergamos Berta Isla, nome da personagem principal e do novo livro de Javier Marí­as. Berta Isla é a Penélope moderna.

Porém, mais leal que fiel. Mas igual de resignada, forte e esperando seu marido, Tomás Nevinson, retornar de missões secretas a serviço da majestade, a rainha britânica. Berta é madrilenha; Tomás, inglês.

A liberdade é incolor

O primeiro aspecto que chama atenção da nova obra de Marías é a capa, contrariando o dito que não se deve comprar um livro por ela. Este sim. O olhar hipnotizante de uma mulher que, ao mesmo tempo aparenta delicadeza, fragilidade encantadora, força e esperança, independência e fascinação. Ao longo das 544 páginas será a fascinação visual da modelo que dá vida a Berta Isla e a força da personagem que nos acompanhará até o fim.

O outro aspecto que chama atenção é a dupla voz da narração. Nos primeiros capí­tulos, o narrador onipresente introduz a história e as incertezas vividas pelo jovem casal até chegar na fase adulta e o começo do condicionamento da relação causado pela distância.

Após esse perí­odo, Berta Isla assume o papel de narradora em primeira pessoa e a leveza de Javier Marías, sua poética segura e pontual, nos conduz por uma Madri inicialmente franquista, passando pelo pós-franquismo e todo o movimento de transição de regime.

Madri volta a obra de Marí­as e como na obra de Francisco Umbral, aqui comentada em outras ocasiões, a capital espanhola surge não somente como cenário de uma história encantadora, de resistência, liberdade, amor e lealdade, mas também como um personagem importante para o enredo.

Por falar em liberdade, uns dos diálogos mais valorosos da obra tem como temática esta palavra, conceito ou ideia que, segundo Dom Quixote, é um bem dado pelos céus e pelo qual vale a pena lutar.

Segredos e ocultações, não necessariamente mentiras

Tomás e Berta são dois seres diferentemente iguais. Tomás detém a capacidade de imitar qualquer tom de voz e reproduzir qualquer idioma sem sotaque. A vida de Nevinson está presa ao talento a serviço de sua majestade, e por isso sua liberdade é condicionada a missões secretas que nem Berta, nem nós, sabemos.

A de Berta está condicionada pela falta de liberdade de escolha do seu marido e condicionada a uma espera que de dias de distância convertem-se em meses e, logo, em anos.

Porém, ao passar por todo o relato em primeira pessoa da personagem principal, o que fica de lição é que: a liberdade não é somente uma questão de movimento, mas, especialmente, de escolha.

E Berta escolhe esperar… Nevinson tem que fazê-lo. Assim, Berta tem a liberdade. Seu marido, não. E por isso essa talvez seja a maior declaração que possa existir por parte dele. “A única coisa que escolhi com liberdade foi vocꔝ.

Outra lição é que em todas as relações existe um certo ní­vel de segredos e ocultações, não necessariamente mentiras. E esse é outro aspecto ensinado por Marí­as em Berta Isla: “a gente nunca sabe o quanto de segredo temos que ocultar”.

los-signos-del-aguaUma vida sem esperas e incertezas é insuportável

No lançamento do livro, em uma das salas do Cí­rculo de Belas Artes, em uma das avenidas principais de Madri, Javier Marí­as disse que a vida sem incertezas e sem espera seria insuportável.

Esperar, como Penélope, Berta Isla, Florentino Ariza (O amor nos tempos do cólera – Garcí­a Márquez), Ricardo Somocurcio (Travessuras da menina má – Vargas Llosa), independente de ser homem ou mulher, está relacionado com a esperança, embora nem todas as esperas, como a de Gilliatt em Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, conte com esse ingrediente essencial.

A de Berta é comovente e dramática, e em muitos momentos sem esperança.

“Durante um tempo não esteve segura de que seu marido era seu marido, de maneira parecida a como não se sabe, em um sono inquieto, si se está pensando ou sonhando, si ainda conduz sua mente o a perdeu por cansaço. Às vezes creia que sim, às vezes creia que não, e às vezes decidia não crer nada e seguir vivendo sua vida com ele, ou com aquele homem semelhante a ele (…)”.

Assim começa… Embora a espera por Tomás seja a causa de Berta, é ela e não ele o grande protagonista da história, ao menos a meu entender, pois ela não se limita somente em esperar, embora isso faça parte da sua vida e rotina.

Ao final do livro cabe a cada um concluir a reflexão que levantei ao finalizá-lo:

Vale a pena ficar preso ao passado, esperando  – com e/ou sem esperança – a volta de alguém com a resignação necessária, ou seguir em frente e enterrar um passado, e viver as surpresas e a incerteza que só o futuro nos causa?

Javier Marías.berta isla
Além do casal Berta e Tomás, Madri ‘protagoniza’ romance.

A época mais hipócrita vivida por Javier Marí­as

O Substantivo Plural esteve no lançamento de Berta Isla. Antes dos autógrafos, Javier Marías foi sabatinado pelo jornalista e poeta Antonio Lucas, e além de comentar sobre o livro, tratou de diversos temas.

Alguns pontos merecem destaque, como a frase que intitula este subtí­tulo, o que nos remonta também a atual situação social brasileira, com uma divisão em opiniões odiosas, muitas vezes sem fundamentos, baseados em uma crença hipócrita, desinformada e estúpida como a que diz que “nazismo é de esquerda”.

Além de uma falta de conhecimento histórico gigantesco, sem excluir nem um dos lados em combate.

Sobre reações e disseminação do ódio pelas redes sociais, Javier Marí­as afirma:

“Quando muita gente reage de maneira verbal violenta, essas pessoas não estão convencidas do que pensam e opinam”.

Solicitando a análise de Umberto Eco, redes sociais organizaram idiotas que antes se resumiam a conversas de bar e cí­rculos pequenos.

Marías tem sua própria análise a respeito da temática e ela reflexiona muito o atual momento do Brasil. De acordo com ele, nos ensinaram que toda a opinião é respeitável, mas não deve ser assim.

O ensinamento devia focar em: “nem toda opinião é respeitável. Ter o direito de opinar é respeitável”. Como o direito de votar em um candidato que homenageia torturador deve ser, mas defende-lo com desculpas frágeis não é.

Para Javier Marí­as, a atualidade hipócrita está condicionada ao pensamento que diz: “se uma opinião contraria a minha, ela não pode ser respeitável”. E isso ocorre na direita ignorante brasileira e na cega esquerda nacional. Todos podem opinar. Mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Nos ensinaram mal.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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