Jessé e os antigos cabarés

Jessé gostava de uma tribuna e de um cabaré onde disse possuiu muitas mulheres. Orgulhava-se dessa sua façanha, muitas vezes compartilhada com amigos menos endinheirado. Ele, um velho promotor e poeta, nunca deixou a tribuna. Não a tribuna da inquisição que ele não pratica. E, sim, a tribuna da poesia e do bem-querer. O Café São Luis já foi sua tribuna quando discursava na Universidade Popular do Grande Ponto.

Em sua Ágora de outrora, discursava a plenos pneumáticos pulmões: Colocar a poesia potiguar na vanguarda como sinônimo da transgressão e vitalidade era para o velho promotor uma das maiores heresias critico-literárias. O badalado poeta potiguar e também cultor do erotismo, trabalha com um estoque linguistico de origem parnasiana – vociferava o crítico promotor. A poesia política, no RN, só repercutiu escandalosamente no país através de dois poetas plantonistas, espertíssimos demais: a epigônica e canastrona Nisia Floresta com seus cantos pernambucanos nos quais tenta calar a voz do índio potiguar; e o bardo da ditadura militar, que é Homero Homem: um poeta que escreveu três bons sonetos, dignos de um Ledo Ivo. Jessé já não discursa como naquela tribuna poundianamallarmaica haroldadriana.

Sua tribuna hoje é a do epígono dos sonetos em louvor de mortos e vivos ilustres. E das eternas Musas dos velhos cabarés que ele também não mais frequenta.

Tribuno eternamente embriagado de poesia e de erotismo. Poeta dos pés e mãos que abraçam na solidão de um menestrel que atingiu o nirvana e sabe que tudo é Maya. Jessé passava horas relembrando as velhas histórias do antigo cabaré de Maria Boa e outros. Quando o tempo ficava mais lento e a vida parecia menor o velho poeta se punha a relembrar para continuar vivendo. Lembrava das grandes cortesãs da história: a bela Frinéia, Aspásia e Messalina, como dignas representantes da mais antiga das profissões. De um tempo em que Cabarés eram montados para receber os gringos e homens endinheirados, ou nem tanto. O cabaré da paraibana Maria Boa (Maria de Oliveira Barros) fez época em Natal e foi freqüentado pela fina flor da sociedade natalense. Antes da II Guerra Mundial e durante, a população da cidade aumentou enormemente e Natal foi habitada por muitos americanos e brasileiros dispostos a lutar contra o eixo.

Precisava de comidas e de diversão e muita mulher e comida teve que ser importada. Quando Maria faleceu no dia 22 de Julho de 1997, boa parte de Natal ficou na mão. Os motéis vigoravam e boa gente nasceu no Tahiti. Lá você comia duas e pagava uma. As roupas das camas de Maria Boa eram muito bem limpas e suas belas mulheres muito bem cuidadas. Numa vila bem estreita onde morou uma parente próxima de Jessé no Alecrim – RN, havia uma mulher que lavava as roupas do cabaré de Maria Boa. O poder de Maria era ostentado do alto de em belo Cadilak Americano de cor azul. Jessé lembrava nostálgico de muitas histórias de Maria Boa. Do japonês que todo dia demorava dez minutos em ponto no quarto. Após umas boas bordoadas pagava e saía aliviado. Da mulher ficava esperando pela namorada até o ultimo freguês. Dormia junto e no outro dia a mesma rotina. Uma mulher casada só gozava no cabaré de Maria Boa. Muitos se apaixonaram pelas mulheres de Maria Boa e, alguns, até casaram. Aquela luz de néon era o ambiente correto para tomar uma cerveja e fumar um cigarro arromba peito tipo Hastora, Gaivota, Belmont, Elmo, Arizona, Iolanda e Clássico. Tempos antes, essas carteiras de cigarros serviam de notas para brincar de dinheiro. Dos tempos áureos do Maria Boa, Jessé também lembrava das estrepolias de Zé Areia vendendo papagaio por Galinha.

O repertório de Jessé era um poço sem fim. Muitas outras boas histórias ficamos sabendo dos cabarés através de Jessé e amigos Do cara que não conseguia endurecer com o frio das noites ribeirenses, e a mulher apressada, resmungava: – vamos não posso esperar quero meu dinheiro. Do outro que só gostava na bunda e achou pequeno o que a mulher comprou. Um dia a mulher de Jessé telefona: – onde está você? – Atrasei no trabalho, respondeu um lacônico Jessé. Num certo dia, serviu de intérprete para um amigo brasileiro que desejava se fazer de gringo para melhor ser tratado pelas putas. Falava em Inglês macarrônico e Jessé traduzia em brasileiro castiço. No auge da boemia natalense também fizeram sucesso os cabarés de Francisquinho (Boate Paris) e Loudes (Boate Ideal), Rita Loira e Boate Asperge. O Grande Hotel na Ribeira, fundado em 1919 por Teodorico Bezerra, também serviu de casa de recurso. No bairro mais granfino do Tirol ficavam as Boates de Belinha, Alaíde e Lenita. Quando pegava uma doença venérea, tipo crista, mula ou blenorragia, tomava uma Benzetacil. Se algum incauto pegasse uma “doença do mundo” não podia comer carnes de porco, rolinha, arribaçã ou guiné. De tudo lembrava Jessé quase chorando. Mas nem só de cabaré chique e bordeis conheceu o velho promotor. Lembrava–se também do antros fuleiros “Cai Pau” onde o preço era bem menor e tomava-se zenebra.

A famosa transamazônica, onde só precisava ancorar o carro e namorar ao som das estrelas e das ondas do mar. Para se lavar, uma quenga de coco. No puteiro da Ribeira, quando muito uma bacia com água.. Pegava uma ficha e punha para tocar na radiola o “Tango para Tereza”. Garçon, uma cerveja por favor ! O erudito poeta – promotor dizia que o epicentro do amor em Natal é movente. Durante muito tempo esse epicentro esteve na Ribeira onde hoje ainda resta o arpége em ruínas. Houve um tempo que um desses templos ficava ali na quinze. Lugar de muitos bares, sinucas e casas de mulheres da vida fácil.

Em tempos não muito afastados tinha o feijão verde para curar a ressaca. Confluência de várias ruas e bairros a quinze era o point da época. Ainda rapazinho Jessé lembrava dos bares da região. Nesse lugar hoje habitam sebos, barbearias, brechós, ateliês de arte e alguns bares que lembram os velhos tempos. Gosto desses lugares e faço deles minha Lapa ou Montparnasse. É assim que Jessé se sentia também na velha Tavares de Lira. Um boêmio no meio de buchudas, gatos, pedintes, loucos boêmios e artistas. Prefiro esses lugares aos shoppings. Não sabia jogar sinuca, mas apreciava o jogo, dependendo da ocasião. Como aconteceu numa certa tarde jogando com a nova musa do bar. Errou de tocar duas bolas e perdeu a partida. Nesse bar também podia-se cantar karaokê. Muitos jovens apareciam para mostrar seus talentos. O filósofo poeta gostava mesmo era de ficar observando. Houve um tempo em que a frequencia do bar aumentou por causa de uma Lolita que pareceu por lá. Linda. Tentava o vestibular. Trabalha lá para se manter.

Como morava longe, muitas vezes dorme no próprio bar. Não sei e vocês também não precisam saber não vou dizer a graça da fulana. Jessé não gostava de entregar o jogo. O dono do bar, um senhor, muitas vezes aparece sem camisas. O ambiente é quente e precisava ser ventilado por fazedores de vento. Na vitrola de ficha Jessé pedia para colocar o disco do Cae com Gadú. Antes, estava tocando Roberto Carlos. Um amigo do poeta pergunta se tem cigarro no bar. – Só Derby em retalhos, respondia o dono. Um pintor passa pedindo cinco reais para fritar um peixe. Uma das cenas que Jessé mais repetia era a de uma mulher que bebia muito. Uma antiga puta dos antigos cabarés da região. Ela estava sempre presente no bar resmungando e dizendo palavrões Quando vai ao banheiro, Jessé vê a mulher esparramada no chão NUMA CENA não tão boa para muitos mocinhos. Grande boêmio, Jessé conhecia bem onde pousava o pisante. O rapaz moço que acordava sai com o seu amigo travesti. A mulher diz outro palavrão e toma mais uma.

A mesa ocupada por Jessé a mulher diz que é federal. E fala um palavrão maior para todos os hipócritas. Ela que amou tanto hoje está sozinha e bebe. A luz dos cabarés para muitos ainda não fechou. Toca ai Dolores Sierra, pedia Jessé para a nova mascote do bar. A mulher toma mais uma e tenta se equilibrar no tamborete. Ela representa uma das ultimas donas da noite de uma Natal lembrada por Jessé como muita emoção. Ao se despedir Jessé pede para tocar aquela música cantada pelo Reginaldo Rossi. Garçom! Aqui! Nessa mesa de bar. Tudo hoje são recordações de um tempo de glorias vivido por Jessé e seus amigos. “A Luz do Cabaré já se apagou em mim”, e se hoje o poeta lembrava essas coisas era uma forma de dizer que valeu viver.

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