Jhumpa Lahiri

Por José Castello
O GLOBO

Ainda podemos apostar na noção de identidade? Essa pergunta desconfortável permeia “Aguapés” (Biblioteca Azul, tradução de Denise Bottmann), novo romance da inglesa de origem indiana Jhumpa Lahiri, uma das convidadas da Flip 2014. “Nunca tive um país com o qual eu pudesse me identificar completamente”, declarou Jhumpa em entrevista recente. Aos três anos, trocou Londres, onde nasceu, por Rhode Island, nos EUA. Lá passou a vida, até se mudar, em 2012, para Roma. Esteve sempre deslocada em relação a suas origens. Ainda hoje não se sente, também, inteiramente americana. Em seus primeiros tempos nos EUA, a viam comoestrangeira. Agora falam de sua ficção como se ela pertencesse a outro lugar.

De fato, a ficção pertence sempre a outro lugar — nem mesmo a assinatura assegura uma origem. Ela procede de regiões que escapam a nosso controle e se infiltra nas palavras como uma peste. Por isso, porque nos transporta para outra parte, a ficção é tão perigosa. A mesma experiência de alto risco é vivida pelos irmãos Subhash e Udayan, protagonistas de “Aguapés”. Nascidos com a diferença de quinze meses, eles tiveram uma infância inseparável. A vida, contudo, os deslocou para lugares e destinos distintos. O romance de Jhumpa Lahiri tem como tema central a busca fracassada da identidade. Subhash va para a costa americana, onde estuda oceanografia. Udayan permanece na Índia e se engaja no movimento radical conhecido como naxalita. Ambos se deslocam de seu centro. Ambos ultrapassam o destino que a tradição e o sangue lhes legaram.

A grande ruptura se dá quando Udayan é assassinado — na mesma planície inundada de aguapés em que os dois brincavam na infância. A luta política o leva à morte. Subhash, que sempre foi o irmão mais tímido, retorna às pressas à Índia na esperança de entender o que aconteceu. O movimento naxalita nasceu em Calcutá no fim dos anos 1960, inspirado na imagem de Lênin. Surge para organizar a guerrilha no campo. É esse mundo radical que Subhash — um homem bastante adaptado ao modo de vida americano — deve agora desafiar. Recorda-se, então, de uma carta que recebeu do irmão morto, em que este lhe comunicava seu engajamento na luta armada. Ela termina com uma citação que resume seu sonho: “A guerra trará a revolução; a revolução encerrará a guerra”. Em uma segunda carta, Subhash encontrou uma fotografia em preto e branco de uma moça em pé. Era Gauri, mulher de Udayan — que ele escolheu livremente, e não seguindo as milenares tradições hindus. Mulher que, com a morte brutal do marido, se tornará, mais tarde, esposa do próprio Subhash.

A volta de Subhash à Índia é dolorosa. Já não é o mesmo homem, e tem dificuldades até em reconhecer os próprios pais. Quando enfim os avista, descreve Jhumpa, “uma parte de si sentia vontade de voltar ao táxi, que saía de ré lentamente. Sentia vontade de dizer ao motorista que o levasse a algum outro lugar”. O que ele não percebe é que já está nesse “outro lugar”. Já não existem mais tradições confiáveis e identidades fixas, mas apenas ruptura e fluidez. Restam máscaras rasgadas. Nelas silenciados, os pais nada lhe perguntam sobre sua vida americana. O silêncio encobre o abismo que os separa. Enfim, Subhash pergunta ao pai como seu irmão Udayan foi morto. “Eu estava em casa, disse o pai sem responder à pergunta”. As respostas não se encaixam mais com as perguntas. O mundo está para sempre fraturado.

Apesar das bruscas rupturas que caracterizam a existência de Subhash, a tradição continua a escorrer em sua vida como um rio profundo. Sua nova mulher, Gauri, a simboliza. Já nos EUA, agora casada com o antigo cunhado, uma desorientada Gauri busca alimento frequentando aulas de Filosofia. Em uma delas, “ouviu uma apresentação da doutrina da reminiscência de Platão, segundo a qual o aprendizado é uma redescoberta, o conhecimento uma forma de lembrança”. Apesar de todas as quebras, a origem se resguarda. Daí a dificuldade de viver, o que nos obriga a sustentar faces paradoxais. Gauri logo percebe que, apesar da mudança de continente, prefere continuar a ser a mulher que é. “Queria continuar anônima, passar despercebida”. O mundo não a ajuda. Tem uma relação distante com seu novo marido. “Ela

atravessava a sala como se estivesse vazia, como se ele não estivesse ali”.

Nessa encruzilhada, na qual precisa suportar vários semblantes sobre um único corpo, Gauri não chega a projetar o próprio futuro, que lhe parece vago e esfumaçado. “O futuro assombrava, mas a mantinha viva” — pois lhe dava a falsa promessa de salvação. Quando se casou com o cunhado, Gauri estava grávida de Udayan. Dá à luz, enfim, uma menina chamada Bela. “Raramente Subhash via Gauri sorrir quando olhava o rosto da menina. Raramente via Gauri lhe dar um beijo espontâneo”. Barreiras invisíveis, mas potentes, as separam. Qualquer pergunta a respeito da identidade é, ao mesmo tempo, uma pergunta a respeito da distância. Desencontro que lateja no centro do romance de Jhumpa Lahiri. Ela nos oferece seu livro como espelho para um mund que já não sustenta imagens fixas e no qual as pessoas não passam de vultos de seu próprio passado.

Gauri decide se separar e se muda para a Califórnia, deixando a filha com o esposo. Nova cisão a ilustrar um mundo que já não suporta mais encaixes naturais. Para esconder a verdade de Bela, Gauri usa o bengali quando escreve para Subhash sua carta de despedida. “Certamente você está furioso comigo”, admite. A fúria de Subhash não passa, a rigor, de uma reação ao mal-estar que permeia a todos, em uma existência que se tornou pouco nítida e indigna de confiança. Todos nos tornamos um pouco deslocados — todos pertencemos à “outra parte”. Talvez por isso a ficção faça tanto sentido em nossos dias. Produtora de uma segunda realidade, ela nos mostra que não devemos estar tão confiantes naquilo que supomos ser. Que precisamos aceitar a diversidade que, cada vez mais, nos define e constitui. Ela pode ser aflitiva, pode trazer angústia e desassossego. Mas, como mostra o romance de Jhumpa, torna o mundo muito mais vibrante.

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