João Cabral com fome

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Uma das ideias mais ingênuas a respeito dos escritores é a de que eles são “homens resolvidos”. Por isso, os escritores vaidosos, aqueles cheios de si, costumam passar uma imagem um tanto falsa. Se os observarmos bem, logo notamos, sob o brilho da empáfia, a ponta da derrota. Escritores, ao contrário, são homens em luta constante consigo mesmos. A literatura desconhece a ideia de solução. Talvez se aproxime mais da ideia de dissolução.

Nenhum escritor escreveria uma única linha se não perseguisse o novo. Literatura – arte – é invenção. Mas uma coisa é perseguir, outra bem diferente é encontrar. Um terceiro problema é que destino dar àquilo a que se chegou. “A poesia para mim foi sempre a necessidade de fazer, de construir qualquer coisa ou um mundo”, disse, certa vez, o poeta João Cabral de Melo Neto.

Na mesma entrevista, ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o poeta disse ainda: “A poesia não foi nunca uma atividade que visasse minha adaptação ao mundo. Considero-me um animal facilmente adaptável. A poesia para mim foi sempre a necessidade, não de melhorar meu ser ou de purificar meu ser, mas de fazer alguma coisa que não existisse até então”. Reencontro suas palavras em “Ideias fixas de João Cabral”, livro organizado por Félix de Athayde, para a Nova Fronteira, no fim dos anos 1990.

A conclusão apressada é a de que, uma vez encontrado o novo _ que se materializa em um poema, ou uma ficção _ o escritor entraria em um estado próximo ao da levitação. Passaria a plainar algumas passos acima dos homens comuns, isto é, daqueles que se limitam a repetir e repetir. Teria “algo especial” _ como a beata que levita em “Teorema”, filme de Pier Paolo Pasolini. Erguer-se acima dos mortais seria prova irrefutável de grandeza. Prova de que o escritor chegou, enfim, a uma “solução”.

Mas, confessa João Cabral, o sentimento que se segue à criação é o da dissolução. Na mesma entrevista, ele prossegue: “Tentei escrever uma poesia que não existia e da qual sentia necessidade. Agora, depois de tê-la escrito, ela me parece enfadonha e desinteressante. Essa sensação complica tudo”. Complica porque, uma vez que o poema não traz o sentimento de solução, surge em seu lugar o de decepção. Pronto, fora do poeta, autônomo, o poema o desinteressa. Ao poeta resta o sentimento de que cometeu um erro. Julgava perseguir uma coisa, chegou a outra. Como o caçador desastrado que persegue um lobo, mas mata um cachorro.

Continua Cabral, com a fraquenza que sempre o caracterizou: “O sujeito escreve alguma coisa porque acha que essa alguma coisa ainda não foi escrita. E depois de tê-la escrito está, não digo satisfeito com ela, mas enfarado dela, a tal ponto que lhe é difícil retê-la”. Ao sair de dentro de si _ como um bebê que nasce depois de doloroso trabalho de parto – a poesia passa a desinteressá-lo. Talvez desejasse mais o trabalho em si do que o objeto que surge como resultado. Buscasse mais o “entre”, e não o “fim”.

No mesmo livro, algumas páginas antes, aparece um trecho de uma entrevista de Cabral a O Estado de S. Paulo que talvez ajude a entender um pouco melhor seus pensamentos. Diz o poeta, falando de sua vida de homem comum: “Realmente o pudor é uma característica de minha personalidade. Por horror a me destacar, corto o cabelo bem curto e só saio de casa de paletó e gravata”. Talvez _ penso _ o poema lhe pesasse como um adereço, desses imensos, carregados pelos passistas das escolas de samba. Você quer o novo, persegue o novo, mas quando ele aparece não o suporta. A grandeza, em vez de elevar, achata.

Talvez alguns poetas acreditem que o poema os salvará. Cabral jamais teve essa ilusão. É curioso: um poema pode, talvez, salvar quem o lê, mas não salva aquele que o escreveu. Pelo menos é o que João Cabral nos induz a pensar. Mas será? Podemos pensar, ao contrário, que o sentimento de decepção é o alimento da poesia. É aquilo que mantém o poeta em estado de fome. Não houvesse esse sentimento, e todo escritor desistiria de escrever logo após o primeiro livro. Após a publicação, há, de fato, uma dissolução. O poema nunca é o que o poeta esperava escrever.

O poeta _ o escritor _ espera escrever uma coisa, mas escreve outra. O que lhe sai pode ser não apenas novo para os outros (os leitores, os editores, a crítica literária), mas novo e surpreedente _ e até chocante _ para si mesmo. Se isso lhe traz susto e prazer, também o decepciona. O poeta poderia, então, gritar: “Mas onde está aquilo que desejei fazer?” Só por isso, só porque um projeto se dissolve, porém, ele volta a escrever. A decepção é, portanto, o motor da escrita. Um escritor nunca é um “homem resolvido”. Sim, muitos escritores se imaginam assim: prontos e gloriosos. Mas é só a vaidade que os cega.

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