João Carlos Martins, pode perdoar?

Por Ignácio de Loyola Brandão
ESTADÃO

Na minha juventude, 20 e poucos anos, crítico de cinema, adepto de uma arte engajada, “revolucionária”, que mudasse os povos, derrubasse o sistema capitalista, bastava o Walter Hugo Khoury lançar um filme para que eu e outros disséssemos: eis o cineasta alienado, bergmaniano, distante da realidade brasileira, da realidade e do homem brasileiro. E tome pau!

Que realidade, meu Deus? Que realidade era aquela? Quem eu era? O tempo passou, o mundo mudou, o Brasil se transformou, mudei o olhar sobre a vida, me desiludi com ideologias, me decepcionei com os homens e também comigo e com atitudes e conceitos que se desmoronaram.

Um dia consegui ver o que era o cinema de Khoury, suas buscas, seu perfeccionismo, sua maneira refinada de filmar e transmitir uma visão particular do homem e do mundo. Khoury foi dos poucos diretores do cinema brasileiro com cultura e muitas leituras, capaz de discutir filosofia, misticismo, religião, história, arte, cinema, fotografia, mitologia, música. Era um homem educado, gentil, falava baixo, não se exaltava.

Certa vez, o Centro Cultural Banco do Brasil realizou uma Mostra Walter Hugo Khoury. Fui convidado. Na noite em que subi à mesa, ele estava na plateia. Mal sabíamos todos que estava mal, fraco, deprimido, desencantado. Teve um ataque de coração pouco depois. De repente, joguei fora tudo que eu tinha preparado e olhando para ele comecei com um pedido de desculpa, de perdão, por ter sido aquele pretensioso, que achava que sabia tudo e que o mundo girava em torno de meus ideais de cinema “transformador”.

Pedi perdão a Khoury por críticas insensatas, textos estúpidos, opiniões sem sustentação. Perdão por não ter entendido sua posição no cinema, o que pretendia, a coerência de uma obra. A vida tinha me mostrado muita coisa. Falei pouco e saí da mesa com um imenso alívio. Não em paz, mas me sentindo melhor.

Dali em diante, tenho pensado neste gesto simples e difícil: o de pedir perdão a alguém. Quantas vezes quis rever amigos, não liguei, não procurei. Quando liguei, alguns tinham morrido. Prometi a mim mesmo ver as pessoas de quem gostei e de quem gosto. Umas mudaram muito, outras me decepcionam. Não importa, vou em frente.

Escrevo hoje para dizer: meu caro João Carlos Martins, me perdoe. Por uma crônica que escrevi há anos em outro jornal que até já desapareceu, em que misturei estações, fui agressivo. Foi um episódio ligado a um político paulista sempre acusado de corrupção e que me enervava, me dava alergia. A imprensa acabou te envolvendo, entrei naquela. Você era então secretário de Cultura. No meu horror àquele político, distribuí pancadas, pedras, lanças. Fiz mal! Não era a você, João Carlos, era ao político que me horroriza até hoje. Na minha sanha atingi quem não devia. Depois, você foi inocentado, absolvido. Sei como ficou ferido, como tentou ao longo destes anos falar comigo, sempre me desviei. Você sempre me tratando com cordialidade incomparável. Estivemos juntos, um ano atrás, em um evento na cidade de Amparo e, ao falar diante de uma plateia selecionada, teceu os maiores elogios a mim como escritor. Não me senti bem, fiquei incomodado. Desde aquela noite, venho me remoendo por dentro.

Aprendi uma lição. A de usar minhas palavras com justiça, a pesquisar, indagar, saber se o que digo é verdadeiro, se a pessoa, o fato, a situação merecem o que digo. Há anos tenho uma admiração profunda por você e sua capacidade de superação. Quantos suportaram o que você atravessou? Um pianista de extremo talento que perde o movimento de uma das mãos, depois das duas, depois tem um tumor no cérebro causado por um assalto, sofre seguidas intervenções cirúrgicas dolorosíssimas, fez anos de fisioterapia. Ameaçado de perder o que o sustentava, a música, ameaçado de ficar sem a paixão, o sonho, portanto sem motivo para viver, você se superou. Na minha vida pouquíssimas vezes vi isso; se é que sua superação não é caso único.

Mesmo contra tudo e todos, você negou a impossibilidade, voltou, gravou Bach completo, retornou ao Carnegie Hall, aos palcos da Europa. Finalmente, suas mãos se foram de vez, mas você com dois dedos ainda toca piano, aprendeu regência, circula pelo Brasil e pelo mundo com uma orquestra de jovens. Você contou que certa vez ouviu o falecido maestro Eleazar de Carvalho voltar para te chamar: “Venha, vou te ensinar regência”. Que beleza a mente humana, que consegue tais prodígios, ressuscitar um homem da envergadura de Eleazar, para se levantar do poço mais fundo.

Pensar que tem gente que por uma dor de cabeça, uma topada do dedão, uma indisposição estomacal, uma tristeza momentânea se imobiliza, cheio de autopiedade. Antes que eu me vá, ou que não tenha mais este espaço, ou que você não esteja mais aqui, me perdoe João Carlos Martins pela insensatez de um momento em que me julguei acima do bem e do mal e assim julguei você. Ninguém é juiz de nada.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove − seis =

ao topo