João cinquentão

Por Eduardo Alexandre

JOÃO CINQÜENTÃO

Matéria publicada no Verso X Versos Diário de Natal, 14 de Março de 1997

“o que me resta de dor é preguiça ou é vício sou do século o início não tenho computador”

João Gualberto da Cunha Aguiar, ou simplesmente Gual, é daqueles que sabem e fazem. Amante de Othoniel Meneses e Eduardo Medeiros, canta, pelas noites da cidade, a Serenata do Pescador. Se provocado, é capaz de recitar Auta de Souza, Henrique Castriciano, Gothardo Neto e, até, os poemas “parnasianos” enumerados de Jorge Fernandes.

Boêmio inveterado, não é difícil encontrá-lo na prainha amada, a Redinha, em pleno mercado, a trocar idéias com pescadores e nativos do paradisíaco balneário. Ou no Lourival, no Bar do Naldo, Bar do Coelho, Meia Meia Quatro ou Pedrinho. Hoje cinqüentão, passagem comemorada no último dia 5, na verdade, João é senhor de todos os bares, de todos os botecos e botequins da cidade. Do Bar das Bandeiras ao Canto do Mangue, da Bodega da Praça ao Pé do Gavião, não importa, o que vale é o aperitivo de lado e uma boa conversa para comemorar o dia, especialmente, se “na piscina azul do mar”.

Máquina de fazer poemas, João produz cotidianamente e sua obra, infelizmente, ainda é pouco conhecida do público natalense por falta de editores na cidade. Um nome que poderia ser nacional e não é, pela pura fatalidade de Natal a ninguém consagrar, como tantos querem. Cinqüenta anos de idade. Quantos de poesia, João? Hoje, neste Dia da Poesia, João é a cara da cidade. Por isso, trazemos ao público leitor deste DN Verso X Versos, uma coletânea de poemas seus que falam de gente e poetas potiguares, homenageados em sua poesia:

Na piscina azul do mar (fragmento)

João Gualberto

em inspirada seresta meu Brasil é uma festa na piscina azul do mar A cultura nos convence de nossa sabedoria uma vez era um dia a poesia natalense é a melhor há quem pense Veríssimo epistolar Cascudo vem assuntar Mário de Andrade sorriu “Macunaíma” dormiu na piscina azul do mar

Navegos em mar em profundo de Zila um exercício para cumprir seu ofício encontrou o fim do mundo a palavra vai ao fundo a manhã vai mergulhar a poesia vai nadar na força do pensamento ministrou um sacramento na piscina azul do mar

Celso Dantas da Silveira do nosso Açu fescenino neste Brasil nordestino Paraíba de Zé Limeira poesia sem pó e poeira por absurdo versejar a rima só vem em par em nossas cores natais alpendres e carnaubais na piscina azul do mar

Diva terra natalina de Auta, Maria, Clarice Zila Mamede me disse a poesia é feminina Nivaldete nos ensina a Nathalie estudar vem Clotilde, vem rimar Myriam Coeli admira Tem Marize, tem Palmira na piscina azul do mar

Do povo faz Galeria Alexandre grande bardo Com seu prenome Eduardo de renomada mestria das artes faz alegria com o seu quadro no ar onde posso pendurar a mais fina abstração com as tintas da emoção na piscina azul do mar

Castro Alves nos atesta dos cais Sanderson Negreiros afro-negros brasileiros Bahia é uma festa a minha Pátria é esta o mundo todo a dançar em casa, na rua, no bar um país de retirantes das espumas flutuantes na piscina azul do mar

Na praia de cor silvestre com a Mulata Rosinha a fina flor da Redinha Gil Barbosa é um mestre aprovada por semestre a lua queria cantar com acordes acordar a beleza que dormia com Pau de Arara bebia na piscina azul do mar

“A República” vai mal Clóvis Santos fotografa Olívio abre a garrafa para o pintor de Natal Navarro excepcional é safra para provar a tarde toda a falar a entrevista gravava o repórter caprichava na piscina azul do mar

A Deodoro ainda prima em ser do Lácio a fonte vendo a linha do horizonte José Melquíades faz rima numa décima que exprima seu valor vernacular sabe o verbo conjugar ele aprendeu no convento o mais sábio pensamento na piscina azul do mar

Quando você me amava eu era um ser de alegria a tímida lua ouvia Edson Péres encantava dona noite ainda estava com vontade de sonhar a lua vinha deitar numa nuvem mais escura licença da Prefeitura na piscina azul do mar

Um canto de pescador praieira dos meus amores recebi os seus favores de Othoniel sofredor o peito cheio de amor pela praia a murmurar meu bom Deus quero voltar nessas ondas de verão tem cachaça com limão na piscina azul do mar

Na poesia da história Othoniel desce o pano Henrique Castriciano com o valor da memória o seu aboio é a glória a Branca de Itajubá vem Açucena abraçar os cantores de modinha de Muriu a Redinha na piscina azul do mar

Minha poesia repousa em um cantinho do céu a musa descobre o véu da mártir Auta de Souza ponho meu verso na lousa o seu “Horto” vou regar para os antigos honrar com o valor da memória escrevi a nossa história na piscina azul do mar

Compositor de cordel agora mudou de plano só quer ouvir ao piano versos de Carlos Gurgel xará de Carlos Gardel com rock, vinho e luar até o sol declamar o melhor psicanalista violeiro repentista na piscina azul do mar

São divinos os pintores Madê é uma aquarela vejo Thomé numa tela inventam todas as cores como deuses criadores Dorian Gray é avatar Fernando Gurgel, Renoir de expressão modernista um pincel expressionista na piscina azul do mar

Amigo dos pescadores dos sertanejos patrono da poesia está no trono lua cheia de amores mestre da arte das cores numa sala-de-estar um sanfoneiro a tocar uma garrafa de vinho Francisco de Assis Marinho na piscina azul do mar

Marcelinho de avião com seu lápis colorido ganhou um sexto sentido um “hippie” de ocasião deixou em exposição um trancelim, um colar um brinco só, a brincar com as luzes do Farol foi na Ladeira do Sol na piscina azul do mar

A paisagem se descreve com força de profecia faz a nova travessia meu amor de ultra-leve dá um aceno tão breve um potengi de acenar vem um navio atracar Odaíres toma alento canta Milton Nascimento na piscina azul do mar

Modernistas do Brasil em cada rua uma bela uma vaga na escola o comunismo infantil da miséria a mais vil pela cidade a rondar aprendeu a soletrar Jorge Fernandes verter deste verso em louvor na piscina azul do mar

Tem um mote seu poder na pintura é Grande Ponto em ficção canta um conto Quem é que pode esquecer poeta de raro saber de tudo isso que narro o boêmio tira um sarro veste a poesia se acalma um verso nasce da alma do pintor Newton Navarro

Está aberto o caderno folhas do pré-concretismo vindas ao pós-modernismo um poeta ultramoderno do soneto faz um terno um nome e temas afins um rio cheio de alfinins coisas nossas de criança a palavra de lembrança na linha Jarbas Martins

Fernando a tinta reparte do Brasil a Alemanha Com ele a pintura ganha Uma família de arte Com sua poesia à la carte Do natalense vergel Cláudia prepara seu mel Deífilo é folclorista Carlos é um vanguardista Todos eles são Gurgel

Diz o cartaz na vitrine uma platéia assumida por tanta gente aplaudida O Teatro do Racine de Santos Reis fez um cine a peça “made in” Natal ao inverso de Cabral uma nova travessia no palco da fantasia vai descobrir Portugal

A noite alta me aprova esperava por você tendo ao lado Volontê um violão bossa-nova Manoel Fernandes é prova da minha psicologia amanhã é outro dia tenho mesmo de estudar logo mais volto do mar com um cesto de poesia

A poesia vem com rima mas sem rima também vem ouço o apito de um trem Diógenes da Cunha Lima na Academia ele prima assinou meu alvará homem de fé – saravá! com um dúctil instrumento fez um bom investimento Abraçou um baobá

Com seu estro mais profundo Luís Carlos Guimarães é plural, rima com mães As grandes coisas do mundo seu verso é o mais fecundo traz ao homem um porvir o poeta ao traduzir o sal da palavra amor com justiça é um senhor para a poesia aplaudir

Woden Madruga, doutor das chuvas pelo sertão protetor da criação A cultura tem valor no jornal é professor nos estudos é um leme a notícia é um creme para ver seu gabarito a voz do povo é um grito No “Jornal de WM”

Tem o feirante um cesto poemanúncio eficaz Ney Leandro de Castro faz um horizonte do texto “Flauta de Pã” é pretexto “Voz Geral” da liberdade “O dia das moscas” invade “As pelejas” rio Açu Decomposição do nu Em nua verticalidade

Pode dizer é um luxo um Romance de Natal pois Nazareno é real em “Reduto Pelabucho” bota fogo no cartucho da melhor literatura faz a ficção com bravura como pintor ele pinta a “Revolução de Trinta” da nossa história mais pura

A velha Ribeira cria um humano panorama da literatura chama José Alexandre Garcia “Gol de Placa” delicia as melhores consciências homens de fé e ciências dos boêmios um reduto é o valor do homem culto “Delícia”, reminiscências

Lendas, mitos brasileiros, possuem um valor infindo: são estudos verdadeiros do professor Gumercindo. Veríssimo professor ensina antropologia, no folclore é doutor, da vida sabe a magia.

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