Joãozinho e a bola

Para Tânia e Jarbas

Sempre tive fascinação pela bola. A esfera e sua simetria perfeita. As bolas da minha infância não eram tão esféricas e todas improvisadas. De tudo fazia bola e chutava. Chutava a vida, também.

Muitas vezes joguei com um pedaço de madeira. Um caco de pedra, uma tampa de garrafa, tudo servia de bola. Era bom nesses jogos improvisados entre o café da manhã feito a lenha e o lanche que não sabia. O intervalo da aula era o melhor momento. Tempo de jogar na quadra improvisada.

A bola também podia ser de meia. Cheinha e quase redonda. Uma evolução. Com o cheiro que só as meias possuem.

Não gostava de dormir para não perder tempo. À noite lavar os pés com uma bacia d´água. Quantas peladas nas calçadas do Instituto Sagrada Família, ali no Alecrim. Um pé na bola e o olho em papai que se me visse jogando naquela hora era bolo na certa. Bolo de palmatória. Castigo.

Aos domingos o catecismo no Sagrada Família e a cabeça na pelada depois dos juramentos de nunca pecar os 10 mandamentos,

O final da aula no Pe Monte era uma beleza. Jogar na grama o futebol mirim. Aquilo era bom. Fazia muito gol de calcanhar. Defendia me deitando em frente è trave feita com os sapatos e sandálias.

Na Escola Técnica de Comércio, ali na Rua Câmara Cascudo, jogava numa quadra de verdade. O chão quente de meio dia tirava todo o coro da sola do pé pouco protegida pelos tênis conga.

Antes disso, pegava qualquer coisa para jogar. Uma quenga. Uma cabeça de boneca. Essa bola era boa. Já tinha o formato e plasticidade para os nossos chutes de atletas de ruas sem calçamentos e asfaltos.
Nunca lembro de ter jogado num time com camisa e calção de verdade. Era tudo de brincadeira.
Para bater um pênalti um montinho de areia feito um peito.

João foi o maior peladeiro de bolas que não eram redondas como redonda também não foi a sua vida que ele aprendeu a chutar. Jogar na praia era uma delícia. Areia durinha e molhada. Um gol e um banho.
Quando não tinha ninguém para jogar jogava sozinho com as ondas. Rebolava a bola e a onda trazia.
Um dia resolveu desafiar um colega das Quintas. Baixinho, pobre e filho de um homem que tinha uma ferida. Foi aquele banho. De cuia e tudo. Um massacre.
Já formado fui jogar feito um Zé Ninguém. Quadra de salão e a bola pesada. Joelho inchado e ligamentos desfeitos. Perdi a partida. Perdi os óculos escuros.
Vivi a vida que pode ser vivida.

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Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Danclads Lins de Andrade 22 de fevereiro de 2011 11:36

    A bola, como bem o disseste,podia ser uma cabeça de boneca (minha irmã que o diga…rs… cansei de decepar as bonecas dela para fazer a cabeça de bola), um bolo de meia, uma quenga…. Enfim… Peraltices infantis, doces memórias… Belíssimo texto Da Mata.

  2. Tânia 24 de maio de 2010 19:05

    Valeu João!
    Leia os comentários no post de Claudia “O jantar” que tem convite para você e Jarbas Martins.

  3. Jarbas Martins 24 de maio de 2010 15:06

    João, tás escrevendo o fino,cara. E teu humor… Um montinho de areia feito um peito. Gostei. Só faltou você nomear o nome da musa. Fafá de Belém ou Rita Pavoni ?

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