Jobs: um gênio a ser traduzido

O gênio é sempre um personagem que, universal e  controverso, tem a capacidade de se tornar alguém absolutamente familiar. Assim acontece quando nos reportamos a figuras como Freud, Marx, Einstein, Cristo, Mozart, Lennon, Michelângelo, dentre outros inúmeros prodígios da humanidade. Parecem todos com pessoas de nosso estreito convívio doméstico, tão presentes e decisivos que são em nossos cotidianos e vivências.

No caso de Steve Jobs essa genialidade ainda está sendo assimilada, visto que sua obra – mesmo que avassaladora e revolucionária – ainda é relativamente recente, e suas diversas etapas propostas têm tido a contribuição praticamente coletiva de outras diversas mentes férteis da informática e dos negócios correlatos. Todos, na verdade, buscando imitá-lo ou mesmo superá-lo.

Contudo, Steven Paul Jobs (São Francisco, Califórnia, 24 de fevereiro de 1955 — Palo Alto, Califórnia, 5 de outubro de 2011), o gênio recém-morto, já encontrou um espaço cativo nessa especial galeria de alcance planetário e, portanto, presente diariamente em nossas vidas. Neste tempo frenético, de mudanças tão rápidas quanto a acomodação das dunas de Genipabu ou a formação dos buracos asfálticos de nossa combalida Natal, Jobs sabia o que se passava nas mentes da humanidade sequiosa pela comunicação. E sabia o que fazer com isso.

O nosso mundo talvez tenha mesmo esse sintoma atual: busca-se, desesperadamente, a comunicação, mesmo que todos tenhamos a mais plena certeza da eterna incomunicabilidade. A correria e a competitividade frenéticas do dia a dia têm nos tornado a todos seres engolidos pela voracidade e insensibilidade dos “sistemas”, sejam lá quais forem. Quantas vezes você já ouviu falar no trabalho, no supermercado, no banco, na lanchonete, que “o sistema caiu”? Em cada situação dessas, você não se sentiu mergulhado num vazio abissal ou num mar de lama movediça? E esse tal de “sistema” não passa sequer de um objeto abstrato e amorfo ao qual, em última análise, ninguém pode recorrer de fato.Por isso mesmo, a angústia em lidar com ele.

Nesse contexto em que a verdadeira comunicação é uma pedra raríssima já é muito comum verificarmos que pessoas, até mesmo em salas vizinhas ou contíguas (e até no mesmo ambiente físico), “comunicam-se” através de e-mail ou outros múltiplos recursos da tecnologia da informação.

E Jobs, o homem que se construiu sobre o sofrimento do menino rejeitado e posteriormente adotado, soube apreender essa realidade, executivo e visionário inventor de tecnologias, como era. Fez de artefatos tecnológicos que já existiam (e que eram inexoráveis na nova forma de viver eleita pelas pessoas) algo muitas vezes melhor, com objetos interativos mais leves, menos frios, lidando sensivelmente com o desejo latente e transformando em realidade algo que, a princípio, somente existia no campo da fantasia, da ficção cientifica. Assim foi com a colossal Apple e diversos de seus produtos, como os indefectíveis iPhone, iPod e iPad.

Jobs, além dessas, trouxe outras grandes contribuições, como a beleza lúdica dos filmes da Pixar Animation Studios, empresa que ajudou a desenvolver (incorporada posteriormente pela Disney, passando Jobs a ser o seu maior acionista individual), injetando computação gráfica de ponta, com realismo fotográfico de elevada qualidade, o que daria vida pulsante aos personagens das animações. Quem por aqui nunca se comoveu e se deliciou com  filmes como “Toy Story”, “Procurando Nemo” e “Ratatouille”?

A meu ver, a maior contribuição desse inventor e magnata do universo da informática talvez tenha sido mesmo a tentativa de humanizar esse antes gélido e quase inacessível território. Trazendo a fantasia que lhe era necessária, Jobs teve a coragem de morder a “maçã” e inaugurar, com a ponta de seu dedo mágico, esse “admirável mundo novo”, antes que todos nós pudéssemos compreender exatamente o que havia sido feito.

Fica a certeza de que o legado desse californiano perfeccionista e sonhador ainda terá de ser traduzido em uma quantidade incomensurável de bytes. Tudo terá que se reacomodar.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 10 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 7 de outubro de 2011 15:23

    Caro amigo Gustavo, bom ler você de novo. Um abraço!

  2. Gustavo de Castro 7 de outubro de 2011 12:21

    Lívio, adorei isto: “a verdadeira comunicação é uma pedra raríssima”
    Gostei também da atenção e cuidado do seu texto para com Jobs. Parabéns.

  3. Lívio Oliveira 7 de outubro de 2011 8:48

    Prezado Daniel, concordo com você. Melhorar o mundo não garante salvação. O que me interessa nos gênios é o que têm de humanos. Por isso, vejo a grande sabedoria desse cara que se foi. Digo mais: toda essa nova realidade é para muito tempo adiante. Evidente que não é algo passageiro. Obrigado e um abraço.

  4. Lívio Oliveira 7 de outubro de 2011 8:37

    Caro Danclads, fico muito grato pelo seu comentário. Põe em evidência o que é essencial: a necessidade de humanização (de tudo). O meu abraço.

  5. Daniel Menezes 7 de outubro de 2011 1:18

    Professor Lívio,

    parabéns pelo texto.
    Sem dúvida que o cara foi um gênio e visionário.
    No entanto, só tenho uma certa ressalva, que não direciono contra teu texto, mas contra algumas análises que estão gravitando pela net, blogs, jornais, etc, quanto a junção de gênio e visionário com a ideia de que ele queria salvar o mundo.
    Me parece que o objetivo dele não era o de salvar o mundo, mas de revolucionar para ganhar dinheiro e reconhecimento, o que pode até ter relação com melhorar o mundo, mas não são duas coisas totalmente semelhantes.

  6. Danclads Andrade 6 de outubro de 2011 21:03

    Lamentável a morte de Jobs. E concordo com Jarbas, eu também aprendi mais sobre ele, neste teu artigo, Lívio. Espero que a humanização destas novas tecnologias continuem.

  7. Lívio Oliveira 6 de outubro de 2011 14:59

    Fico grato pelos comentários amistosos e que ampliam o texto, ilustrando-o.
    Abraços.

  8. Jarbas Martins 6 de outubro de 2011 11:49

    sua morte também é minha morte, e a sua, a dos oprimidos,a dos sofridos, a dos desvalidos, a dos poderosos…prefiro, amigo Lívio, dedicar, a este este pobre ser humano, um Hai-Kai:, que resume (penso eu) nossa tragicidade finita. ora pro nobis/ zuckenberger, capitalismo/ steve jobs.

  9. João da Mata 6 de outubro de 2011 9:03

    Quanto em tinha 17 anos , eu li uma frase que dizia algo como: “Se você vive cada
    dia como se fosse seu último, algum dia você certamente estará certo.”

    do discurso de Jobs na sua na formatura de Stanford em 2005.

    Leia o discurso aqui, quando ele fala que de uma garagem com duas pessoas a Apple se transformou numa das gigantes do mundo , fazendo coisas pra gente comprar sem precisar.

    http://news.stanford.edu/news/2005/june15/jobs-061505.html

  10. Jarbas Martins 6 de outubro de 2011 9:00

    Aprendi mais sobre Seteve Jobs com teu artigo,amigo Lívio.Abraço.

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