Jogo do tapia

Por Demétrio Diniz

– Oh, yes! – gritaram os três homens quando a mulher loura acertou no jogo, descobrindo a bolinha escondida em um dos três copos emborcados na calçada.

Isto se dá na Elizabeth Tower, Londres, e logo percebo a combinação dos quatro, os três homens e a mulher loura. Todos trazem a marca do submundo, e a mulher loura era a que melhor representava: aos pulos quando acertava, triste quando perdia.

Perto de mim um dos três homens, que parece ser romeno (tem os olhos de raposa, aproximados, e o nariz ligeiramente aquilino), espreita sobre o surgimento de algum policial. Tiro a carteira do bolso de trás e a ponho no da frente. Assim fico tranquilo para me divertir. Ficaria toda manhã e uma parte da tarde fazendo coro com os malandros, não fosse a filha querer ver os guardas da rainha. O Big Ben, pertinho, bate onze horas, e o som é desagradável, quase rouquenho, som de sino. Gosto dessas banalidades que vou achando na rua. Viajo lonjuras pra reparar em bobagens, como o anúncio de uma cadela desaparecida que li em Lisboa, colado num poste. Contendo a foto do animal, descreve, embelezando, os aspectos físicos, cita ruas e praças por onde andou antes de sumir. Embaixo o apelo sentimental: dificilmente dá a mão, é muito tímida e medrosa devido ao passado de abandono, e enfrenta os perigos da cidade.

É o mesmo jogo do tapia da praça do Relógio, no Alecrim. A diferença é que na ponte jogam com dinheiro alto e valorizado. Um casal de turistas e o filho adolescente se aproximam e se interessam pelo divertimento.

O dono do jogo põe de novo a bola dentro de um dos três copinhos de alumínio, mexe-os para lá e para cá escondendo a bola ¬- este ganha, este perde, este ganha, este perde. O adolescente, um rapagão louro, pisa com a bota e com força sobre um dos três copinhos, dali por diante ninguém vai fazer a bola sumir.

O dono do jogo provoca a aposta: cem pounds. A mãe e o pai hesitam, se entreolham, mas se deixam contagiar pela certeza do filho. O pai resolve:

– 100 pounds!

O rapagão louro levanta o pé, o dono do jogo levanta o copinho, e os quatro malandros gritam a um coro só:

– Oh, no!

A mãe do rapagão fecha os olhos e faz cara de dor, o pai empalidece, mas disfarça a decepção, desconcertados descem os três em direção ao St. James’s Park. Como turistas devem ir se consolar vendo a troca de guarda no palácio de Buckingram.

Há poucos dias o meu filho adolescente achou que ia ficar rico com o jogo do tapia. Eu também uma vez, quando era mais bobo do que sou, quis ganhar dinheiro no tapia. No Alecrim, uma atendente de caixa, gastou todo o apurado da loja nesse jogo, e, para se ver livre das consequências, foi pra cama com o filho do dono. Terminaram casados. Pelo que sei deles, foi ela quem tirou a sorte no jogo.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

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