Johann e Maria (Parte I)

Por Ednar Andrade

Chegara então aquele dia, que tanto esperara. Acordou cedo, o Sol ainda não tinha tanto calor; lá de fora vinha um silêncio da mata densa. Abriu a porta, foi até o jardim; pegou com graça uma flor e ficou mirando. Havia uma orquestra habitual da passarada que cantava em notas já, ao seu ouvido, tão familiares. No meio desta canção matutina, um sabiá da mata. Maria, com sua silhueta fina, traços alongados, com músculos visíveis e toda uma graça no olhar. O seu sorriso era como uma moldura cintilante.

Maria sorria com graça, tinha algo de frescor naquela manhã. E ali ficou perdida em pensamentos e ansiedade; como seria aquele tão esperado encontro? – Deu voltas em torno de si, seu olhar parado; esticou-se na cadeira branca do jardim. Seu vestido colorido era um floral com florzinhas miúdas que mais pareciam um cenário inglês. Davam, àquela leve e elegante criatura, um ar de fada. Seu olhar parecia querer-lhe trair de tanta ansiedade. Respirou… Esticou-se mais, fechou os olhos como que, ainda, sonolenta, perdendo-se na entrega da paisagem matinal. Olhos fechados; o Sol banhava-lhe os cabelos, tornando-os mais vermelhos.

Por tantas vezes, Eleonor lhe havia falado deste ser tão iluminado. Mas agora chegara dia em que ele visitaria a sua amiga. Maria então preparava-se para um evento cheio de surpresa: conhecer Johann, seu príncipe encantado e platônico. Enfim, chegara o dia!

Entrou, deixou para trás os florais, o canto dos pássaros. Agora era hora de ficar linda para conhecer Johann. Abriu a torneira, observando a banheira que enchia com o frenesi da turbulência da água. A curiosidade era tamanha e aí imaginava como era o seu príncipe, que olhar teria o seu príncipe, como seria? Que cor teriam seus olhos? Em que momento da vida ele se fez tão importante? Ela não sabia. Tomou banho, foi até o penteador e usou o seu melhor perfume. Entre ela e Johann não havia sequer vírgulas, reticências ou qualquer gesto, pois entre eles nada existira antes, apenas uma fantasia de tanto que ouvira Eleonor falar-lhe. Agora pronta, perfumada, sem saber o que estaria por vir.

Maria embevecida de esperanças; vestiu-se de sonhos; fantasiou-se de ilusão. Este nome “Johann” latejava em sua mente como uma canção antiga. As horas passaram-se normalmente e aquela expectativa continuava latejante. Chega enfim Eleonor e Johann.

Maria, coração pulsante, olha – instante em que a emoção e a surpresa a dominam – e diante dos seus olhos, enfim, encontra-se Johann. Olham-se, entre o instante e a emoção habita o silêncio… Johann ali está: olhos escuros, cabelos lisos, olhar penetrante, braços fortes, pele morena. Johann, o sentimento mais platônico que experimentara Maria. Inquieta, buscava palavras, tremia, estava comovida; a emoção tomara conta do seu ser. Passou entre ela e aquele instante o desejo comovido de tocar-lhe: o que esconderia aquele olhar tão reticente? Seu semblante como se fosse luz fluorescente irradiava aquele instante. Um manancial de poesia, um berço largo de emoção.

Johann passava-lhe uma imagem sedutora; uma voz mansa; o seu falar era como um poema… Pausado e ao mesmo tempo sensual; um espetáculo que deixava Maria a flor da pele. Saíram para uma caminhada: Eleonor, Johann e Maria. O verde combinava com o momento matinal. Maria, aquela mulher, sentiu uma necessidade quase palpável; quase incontrolável de tocar-lhe a pele. Falavam de coisas amenas. Houve um instante em que os olhares se encontraram e disseram coisas que calaram. Um interminável instante como que perpetuaria aquele momento. Entre silêncios e pausas, reticências. Olhares intensos falaram coisas que até hoje pensam.

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