Jomardo Jomas: “O MADA já quis ganhar o mundo, mas o mundo é aqui em Natal”

O festival Música Alimento da Alma (MADA) completa 17 anos, mas chegou à maturidade faz tempo. Vem de um tempo ainda obscuro da cena musical potiguar, de poucas bandas, poucas oportunidades de visibilidade e irrisório prestígio do público. Mais ou menos nessa época despontava a casa de show Blackout, na Ribeira, que viria a ser um embrião do rock e do pop rock local. E foi com esse cenário ainda em início de formação que o produtor Jomardo Jomas ousou formatar um evento de dimensões inéditas em Natal. E mesmo sem experiência nem cena musical formada na cidade, apenas poucos anos depois esse atrevimento resultou em um dos principais festivais do música do Brasil. E após longa jornada o Mada oferecerá a mesma essência que marcou sua história, mas em nível de excelência, agora com shows no gramado do Arena das Dunas, dias 30 e 31 de outubro, parceria com a InterTVCabugi e com estimativas de recorde de público, além de aprovação já anunciada no edital da Funarte, quando o festival ficou entre os sete selecionados, dos 194 inscritos.

12115777_1918267551732048_3710624114113359111_nEste ano serão 19 bandas, com Pitty, a banda francesa Juveniles e Gabriel O Pensador, na sexta, e no sábado, Felipe Cordeiro, Nação Zumbi e Nando Reis. Entre as atrações potiguares, estão: Igapó das Almas, The Automatics, Mahmed, Plutão Já Foi Planeta, na sexta. E Luisa e Os Alquimistas, Agregados, e Camarones Orquestra Guitarrística, no sábado. Além das bandas Romero Ferro (PE), Versalle (RO), O Liberato (BA), Moxine (SP), Rivera (CE), e Scalene (DF). Todos divididos entre os palcos Cosern e Oi. O blog compareceu ao lançamento do Mada, realizado na noite de ontem na Fundação Hélio Galvão, e bateu um papo informal com Jomardo sobre o Mada em seu início, seu meio, seu hoje e já algumas novidades para a edição de 2016:

Sergio Vilar – Qual diferencial desta edição?
Jomardo Jomas – Da edição passada para essa tivemos crescimento considerável de estrutura. Vamos também usar o gramado da Arena, mesmo que uma parte dele. Realizamos esse ano seletivas e o envolvimento nas redes sociais nessa promoção foi muito positivo; acabou sendo um festival dentro do festival. Atingimos mais de 167 mil views, sendo uma visibilidade bacana para bandas que poucos conheciam, artistas que tinham suas 500 visualizações e de rapidamente atingiram umas 20 mil. Afora o cenário de crise com muitos festivais diminuindo sua programação, como o Porão do Rock, nós mantemos os dois dias do evento.

Sobre as bandas locais no evento?
São bandas que vivem um momento muito bacana: Luisa e os Alquimistas, Igapó das Almas… todas as bandas escaladas são novas, mas com potencial para se destacar. E tem a volta do Automatics na programação. Acho válido colocar Alexandre (Alves, vocalista e compositor do Automatics) no festival porque a banda tem uma história com a música independente potiguar e com o Mada. Pra mim ele é o maior nome da cene indie local. E dentro do rock é Raul, do Alcateia Maldita (risos).

E por que não Raul?
Raul já esteve no Mada, em 2002. Foi uma dificuldade na época, mas conseguimos. Me recomendaram tentar esse ano de novo, mas não houve jeito. Pra mim Raul é uma lenda. E Alexandre, do Automatics, é insuperável no movimento indie; é um cara que vem nessa batalha há muito tempo; quando o Mada nem existia ele já estava por aí e foi de grande ajuda no início do festival, para nos situarmos com a cena, saber o que estava rolando. Pra se ter ideia, nossa primeira matéria grande publicada em um jornal foi na Folha de São Paulo, com o Mada dentro de um contexto de festivais de música do Nordeste e um box específico sobre o trabalho de Alexandre com seu selo de música.

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Seis anos atrás perguntei qual a maior conquista do Mada e você destacou a abertura para as bandas locais. E hoje?
Acho que conseguir manter o Festival após todo esse tempo. Não é fácil. Ainda mais dentro de uma cidade como Natal que não tinha nada parecido na época. Eu não fazia ideia de como montar, mas percebia que existia uma cena começando e queria colaborar com isso. Mas sem experiência nenhuma. Voltemos para 1998 e imagine como era a cidade, a cena local. Eu montei um palco ao lado do outro porque pensava que seria melhor para o público acompanhar a programação e nem desconfiava que viraria modelo para outros festivais justo por essa praticidade. Mas não foi nada que precisei viajar para conhecer formatos de festival, foi de percepção mesmo. Então, manter um festival após tantas histórias e dificuldades é mesmo a maior conquista.

E aquela tentativa de levar o Mada para Belo Horizonte, há uns cinco ou seis anos?
Eu aprovei o projeto na lei de incentivo de lá, mas não consegui captar. E fazer sem essa captação seria um risco muito grande. Uma cidade nova, com uma dinâmica totalmente diferente e achei melhor não arriscar.

Mantém a ideia de exportar o Mada para outra cidade?
Recebi convites para fazer em Fortaleza… Olha, tem época que quando consolidamos o festival queremos conquistar o mundo, mas acho que o mundo é aqui; temos que ampliar o que temos aqui, tentar agregar outros atrativos ao festival. Esse ano voltamos com o Festival de Cinema de Curtas Metragens, que é uma coisa bacana que já fazíamos e voltamos com oficina e tudo, e pretendemos agregar outras coisas, com algo que possa movimentar a cidade durante dois meses antes do festival. Acho que o volume de público já está legal. Maior que isso só se disputássemos com o Rock in Rio ou Lollapalooza (risos). Mas mão descarto ir para outras cidades, embora meu foco seja ampliar o que temos aqui.

Esse ano o Mada já foi aprovado na Lei Câmara Cascudo e no edital da Funarte. Já dá para vislumbrar um formato de festival para o próximo ano com essas garantias?
Já entramos o ano com grande expectativa. Mas trabalhamos com o que já temos: a Lei Câmara Cascudo e a Djalma Maranhão e torcendo que os recursos da Funarte saiam até a realização do festival em outubro do próximo ano.

Então outubro já está definido como data para 2016?
Sim. Na verdade, outubro ou novembro, a depender do Enem, essas coisas que influenciam muito o evento.

Se influencia porque o público do Mada é predominantemente jovem ou qual o público do festival?
É engraçado. Percebemos nas redes sociais um público muito novo indo pela primeira vez ao evento. Então conseguimos atrair um público novo, mas temos os antigos que foram nas primeiras edições e já estão levando os filhos, o que é muito legal. Quem tinha 18 anos no primeiro Mada hoje tem 36, pow, e já tem filho pra levar. Então temos uma renovação bacana.

Lançamento do Mada na Fundação Hélio Galvão e Secretário de Cultura Dácio Galvão prestigiando o evento
Lançamento do Mada na Fundação Hélio Galvão e Secretário de Cultura Dácio Galvão prestigiando o evento

Com essa grana já garantida você já tem bandas pensadas para o próximo ano?
Já. E a ideia também é entrar na turnê de grandes bandas internacionais. E não nomes internacionais só para constar na programação. Serão nomes conhecidos. Meu objetivo é e quando eles vierem para o Brasil incluírem o Mada na turnê. É meu grande objetivo para 2016. Já estou em contato com um booker fora do Brasil para ver uma banda interessante que esteja vindo ao Brasil ou América do Sul na época do festival para atrair pra cá e não ficarem só em Recife, Fortaleza.

O Mada sempre teve o mérito de lançar bandas que pouco depois ficariam conhecidas nacionalmente. E digo teve porque…
Pois é, era na época que o mercado exigia isso, né? Hoje os festivais são o grande ponto de circulação desses artistas, como consolidação do trabalho feito nas redes sociais. Antigamente tinha aquela coisa de “aquele festival revelou tal banda”. Hoje isso mudou completamente. O grande lance é a circulação, sendo os festivais como grande fomentador desse movimento.

Já nas primeiras edições o Festival passou a convidar artistas nacionais com grande apelo de público e se mantém assim até hoje. A ideia é atrair mais pessoas para ajudar a pagar o evento e ao mesmo tempo dar visibilidade às bandas independentes que completam o set list?
Isso começou em 2002. E é uma maneira de garantir um grande público porque nem sempre as leis de incentivo cobrem todos os custos. E eu venho sofrendo isso nos últimos quatro anos; as contas não batem. E também uma maneira de essas bandas novas se apresentarem para um público legal. Tem quem diga que as bandas que abrem nunca tem grande público. Rapaz, já teve banda que abriu com público de quatro mil pessoas na Arena do Imirá. Acho que na carreira toda a banda não teve um público desse. Então, com esses nomes agregamos público e valor ao evento, também.

FOTO DE CAPA: Kenia Castro
FOTOS DE MEIO: Coletivo Oiá

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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