A poesia natalense de Jorge Fernandes

Nascido em 1887, o natalense Jorge Fernandes de Oliveira publicou um único livro, quando já tinha a idade de quarenta anos. Era o Livro de poemas de Jorge Fernandes (1927), conhecido como o principal registro da poesia modernista no Rio Grande do Norte. Resenhado por Câmara Cascudo na imprensa local e por Mário de Andrade em São Paulo, o livro de 40 poemas foi impresso em forma de caderno, de modo a tornar mais largas as páginas (15 cm por 21 cm).

Na época, o livro de Jorge Fernandes recebeu as seguintes leituras:

a) Afonso Bezerra. Livro de poemas. Jornal do Recife, Recife, 08 ago. 1928;

b) Antônio de Alcântara Machado: Jorge Fernandes – Livro de poemas – Natal – 1927. Revista de Antropofagia, São Paulo, Ano I, n. 1, maio 1928;

c) Luís da Câmara Cascudo: Bric-à-Brac. A República. Natal, 14 set. 1927;

d) Mário de Andrade. Livros. Diário Nacional, São Paulo, 15 abril 1928; e) Octacílio Alecrim. Jorge Fernandes. A República, Natal, 02 ago. 1928

A estratégia editorial parecia atender à necessidade de dar vazão a uma linguagem que tirava proveito da prosa, graças à ausência de metrificação e outros recursos tradicionais ligados ao verso. Assim, o poeta estaria liberado para ficar mais à vontade e pródigo em seu discurso irônico de “frases” que tomam conta do espaço inteiro da página, sob a forma de versos extensos.

Imagem fac-símile do poema “Aviões’3”

Apropriação crítica das culturas regionais

Por outro lado, o formato do livro, bem como a composição do seu título, não são únicos no Brasil, naquele momento: no mesmo ano de 1927, o paulista Oswald de Andrade publicara o Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, em suporte similar, conforme se anuncia no próprio título. Era um “caderno” e era “de Oswald de Andrade”.

Devemos lembrar, ainda, outros títulos publicados no mesmo ano: Poemas, de Jorge de Lima; Clã do jabuti, de Mário de Andrade e Catimbó, de Ascenso Ferreira. Tais livros representam a expressão do registro da poesia modernista que surgiu após o marco divisor do Manifesto da poesia Pau-Brasil (Oswald de Andrade, 1924) e já podem ser vistos no contexto de surgimento do Manifesto Antropófago (Oswald de Andrade, 1928), na fase mais nacionalista da poesia modernista. Nessa fase, ocorre uma apropriação crítica das culturas regionais.


Com edição de 300 exemplares, “Livro de poemas de Jorge Fernandes”, foi editado na tipografia do jornal A Imprensa, graças ao apoio de Câmara Cascudo

Publicado em situação periférica, em espaço regional, o livro de Jorge Fernandes, como objeto físico impresso, é fruto de um longo trabalho que vai da sua concepção até o lançamento, que parece ter sido no ano de 1928 e não de acordo com a data que aparece na sua capa (1927).

Com edição de 300 exemplares, foi editado na tipografia do jornal A Imprensa, graças ao apoio de Câmara Cascudo e tivera um projeto de título, conforme narra Marcos Antonio de Moraes ao comentar sobre o exemplar do livro que o poeta enviou para Mário de Andrade e que se encontra no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros–IEB/USP:

[…] o que veio a se tornar, em 1927, o “Livro de poemas”, brochura tosca de papel cinzento, impresso na Tipografia d’A Imprensa de Natal, fora antes concebido com o nome de Pensamento Evadido da Cella n. 14 (soneto). “Evadido” foi ainda o substituto de “liberto” que, rasurado pelo próprio poeta, pode ser entrevisto. Ao lado desta indicação na folha contendo datilografado o poema “relógio”, Jorge anota “nome do livro”. Este poema, datado de março de 1926, em cuja folha aparece a intenção primeira do poeta natalense, e outros sete, entre os quais, quatro deles inéditos em livro, foram enviados ao escritor paulista Mário de Andrade […].

MORAES, Marcos Antonio de. Pensamentos evadidos de Jorge Fernandes.  O Galo, Natal, nov./1997, n. 11, p. 7-9.

Cabe ainda acrescentar, nestas informações, uma curiosidade: Segundo Jaime dos G. Wanderley, em É tempo de recordar (Fundação José Augusto, 1984), o Livro de Poemas foi editado na tipografia de João Estevão, instalada no Beco da Lama.

Assim, temos duas informações que, muito provavelmente, permanecerão justapostas: a edição pode ter sido executada na tipografia de A Imprensa ou na tipografia de João Estevão. Ou será que João Estevão trabalhava para o jornal do Coronel Cascudo? O fato é que, saindo de tais espaços, o livro não poderia ser menos natalense…

“Então o Jorge cabou o livro?”

Casa de Jorge Fernandes; Fonte: MELO, Veríssimo de.  Jorge Fernando revisitado. Natal: PRAEU/UFRN, 1982

Conforme se lê no documentário O Turista aprendiz, de Mário de Andrade (São Paulo, Duas Cidades, 1983), o poeta paulista conheceu pessoalmente Jorge Fernandes no dia 07 de agosto de 1927, em passagem por Natal, na volta da sua viagem à Amazônia. A leitura de poemas que iriam compor o livro, contudo, já havia sido iniciada no ano de 1925, de acordo com a correspondência de Mário com Cascudo (Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas 1924-1944. São Paulo, Global, 2010). Em carta com a data “22 de janeiro de 1928”, o autor de Clã do jabuti reclama ao amigo natalense:

[…] Você me contou na carta curta uma notícia que me deixou espevitado. Então o Jorge cabou o livro? Queria tanto ver isso! Acho que deve publicar logo. O momento é o mais propício pra poema assim de caracter tão nacional que nem o dele, não acha mesmo?  Faça ele me mandar o índice pelo menos do livro. Jorge não escreve mesmo nem siquer secunda as cartas da gente, que tipo! […].

De fato, a publicação só foi lançada em março de 1928. Em carta de 1º de janeiro desse ano, Câmara Cascudo informa que Jorge Fernandes terminou o livro e, na carta seguinte, datada de 2 de fevereiro, acrescenta:

“[…] Dentro de vinte dias sahirá o Livro de poemas de Jorge Fernandes. Edição ruim mas, com a graça de Deus, esperamos dar melhor feição mais tarde. V. remetta uns 6 nomes de gente sua para receber o livrão”. Finalmente, em 7 de março de 1928, a data mais precisa: “[…] Jorge remetterá para V. os livros. Sahirão esta semana”.

Finalmente, dois documentos respaldam a provável data, que seria 14 de março. O primeiro é o exemplar enviado a Mário de Andrade, já citado, em que aparece o autógrafo do poeta com a seguinte dedicatória: “Ao meu grande Mário o meu livro todo errado. 14 Mar. 1928”. O segundo é outro exemplar, também autografado, que pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Oferecido a Peregrino Júnior, a data é “março 28”, sem o dia exato.

Cópia oferecida a Peregrino Júnior, exemplar guardado no Instituto Histórico e Geográfico  do Rio Grande do Norte

O livro e a Diocésia

A data do lançamento do livro não muda em nada o seu valor ou a importância dos estudos já realizados sobre a poesia em questão e, é claro, o ano da referência bibliográfica continua sendo 1927, conforme aparece na capa do objeto. O que chama a atenção é a coincidência do evento, que pode ter ocorrido no mesmo dia em que, no futuro, seria instituído o dia da poesia.

O dia da poesia é celebrado em mais de uma data: 14 de março, é comemorado desde 1977 em homenagem ao aniversário de Castro Alves; 21 de março, de acordo com a UNESCO, desde 1999; 31 de outubro, em homenagem ao aniverário de Carlos Drummond de Andrade, desde o ano de 2015

Tal coincidência vem reforçar, de algum modo, a histórica interação do poeta com a cidade do Natal e, mais particularmente, com vida literária e cultural potiguar. Agrega-se, então, como valor que estimula a recepção dos versos do poeta na contemporaneidade. Rememoremos, com o objetivo de estimular ainda mais a simpatia pela imagem criada do poeta, o lançamento de tão singular livro.

Segundo João de Amorim Guimarães, em Natal do meu tempo: crônica da cidade do Natal (1952; 1999), uma das três maiores festas realizadas no Café Magestic, espaço da Diocésia, foi o lançamento do livro de Jorge Fernandes, ocasião em que a presidência de honra da academia informal de letras foi ocupada por Câmara Cascudo, cumprindo o ritual do batismo: um cálice de aguardente, para iniciar… O lançamento não é descrito nos seus detalhes, mas o cronista apresenta outros fatos relacionados à gênese do livro, de modo a compensar a omissão sobre o evento.

De  onde teria vindo o nome DIOCÉSIA?

“Zé Laurindo chegara uma vez no Magestic em companhia de um amigo. Abancaram-se, os dois, numa das mesas da área descoberta e começaram a beber e a conversar, bem próximos da turma de habitués.

Lá para as tantas, o companheiro de Laurindo, já quasi bêbado, desconfiou com a “turma” e bancou o valente, ameaçando todo mundo.

Quando o bêbado arreliou-se de verdade, Laurindo, forte como era, segurou-o, subjugando-o e, no auge da indignação, tivera esta frase:

– Aqui, nesta DIOCÉSIA, quem manda sou eu…

Jorge Fernandes guardara o ‘nome’. O recinto festivo e alegre do Magestic, de agora por diante, estava batizado: seria DIOCÉSIA. A risonha Diocésia de Laurindo”. (GUIMARÃES, 1999, p. 158)

Zé  Laurindo: marchante de porcos e miunças do mercado, era também sócio proeminente da Diocésia.

Segundo  Jaime dos G. Wanderley (É tempo de recordar, 1984, p. 98-99), os visitantes ilustres do Magestic deixavam seus nomes gravados na parede central do salão que, “[…] por muitos anos, conservou a grafia e o nome de brilhantes homens de letras, da política, das artes e da cultura brasileira”. Cita os registros de Plínio Salgado, Ascenso Ferreira, Maria Eugênia Afonso Celso, Murilo Lagreca e outros.

Gênese dos poemas


Jorge Fernandes (1887-1953); Embora de família tradicional, abandonou os estudos para trabalhar. Foi operário de fabrica, viajante comercial e funcionário público. Seu “Livro de Poemas”, de 1927, surpreendeu pela modernidade.

João de Amorim Guimarães (1999, p. 202-204) revela-nos o caso da gênese dos poemas “Aviões” e Jahú”, no contexto da história da aviação que se desenrolou em Natal, conforme o seguinte relato:

[…]

Naquela noite… a Diocésia vibrava de patriotismo. Os jornais anunciavam a partida, da Itália, com destino a Natal – num dos primeiros vôos de travessia do Atlântico – do JAÚ, do pássaro metálico do Brasil, pilotado por Ribeiro de Barros, Newton Braga, Negrão de Lima, auxiliados pelo mecânico Cinquine, também brasileiro. A  A República  trouxera os detalhes da arrojada empresa.

Durante a noite toda a Diocésia vibrou de entusiasmo, dentro da alegria da glória imensa. Natal seria o centro da aviação do mundo, o ponto culminante das glórias aéreas. E a expectativa transformava-se em entusiasmo e vibração.

Poucos dias depois, porém, outra notícia, agora desoladora, nos dava a nova de que o JAÚ estava em Porto Praia e durante esse tempo foi esperado em Natal quasi diariamente. O “foco” de entusiasmo pelo grande feito era a Diocésia. A sua vibração chegava ao delírio. Quando recebia-se uma notícia mais promissora, a Diocésia engalanava-se de alegria incontida e sacudia o entusiasmo em aclamações delirantes, festejando a glória imensa do Brasil. E enfim, veio a notícia sensacional. O JAÚ partira de Porto Praia e chegaria a Natal no dia seguinte.

A Diocésia reuniu-se em sessão permanente. A grande Academia, acompanhando todas as notícias, passou a noite em claro… esperando o JAÚ e, dali, saiu incorporada, para olhar, de lá da calçada da Igreja do Rosário, o bater do papo da grande ave, nas águas mansas do Potengi formoso.

As asas do Brasil – do pioneiro da aviação – da pátria de Augusto Severo e de Dumont – vinham, mais uma vez, assombrar o mundo e receber a glória de tamanho heroísmo, realizando mais um passo decisivo para a prova definitiva das viagens transoceânicas…

E a Diocésia embandeirou o seu recinto para a festa patriótica, comemorativa do grande feito.

Sob o entusiasmo da canção popular:

Salve, oh Jaú, ave altaneira,

A tua glória representa a Bandeira Brasileira.

Eu fiquei zarolho mais de cem vezes.

Da Diocésia, Jorge Fernandes saudava a grande glória com poemas magistrais. […]

Café Magestic; Fonte: PINTO, Lauro. Natal que eu vi. Natal: Imprensa Universitária, 1971.

Eixos temáticos

O Livro de Poemas de Jorge Fernandes pode ser lido a partir de alguns eixos temáticos¹  que congregam poemas afins, como aquele eixo que já se apresenta no primeiro poema (“Remanescente”) e inclui também “Canção do litoral…”, “Cantilena” e “Arapucas”. Poderíamos denominar esse eixo de PROCESSO DE APREENSÃO DAS TENSÕES DO EU, em que se tem um ponto de vista opinativo e melancólico.

O ponto de vista opinativo se mantém em outro eixo temático, que denominamos de PROCESSO DE APREENSÃO DA RUSTICIDADE, cuja dominante é a representação da natureza.

Nesse eixo, o eu lírico é um observador dos fenômenos regionais, como se percebe em poemas como “Mão nordestina…”, “Manhecença…”, “Briga do teju e a cobra”, “Fogo de pasto…”, “Viva o sol!…”, “Maniçoba”, “Ninho de pedras” e “Casaca de couro”.

Já em um terceiro eixo temático – de RUPTURA COM A TRADIÇÃO ESTABELECIDA –, cuja dominante é a tensão entre o novo e o antigo, o eu lírico aprofunda a sua visão sobre a situação literária vivenciada e se torna um participante da cena cultural, com visão crítica declarada e permeada de um ponto de vista irônico. Nesse eixo, o poeta é o autor de “Moderno…”, “Relógio…” e, evidentemente, da incrível série “Meu poema parnasiano”.

Ainda dois eixos temáticos congregam poemas em que o eu lírico é um genuíno observador da cena contemporânea e cultural do espaço em que habita: são os eixos da LINGUAGEM (em que domina o experimetalismo formal) e o do REGISTRO DO CIRCUNSTANCIAL (cuja dominante é a representação de personagens e acontecimentos de época). Para o primeiro eixo, selecionamos os poemas “Rede…”, “Té-téu” e a série “Aviões”, cuja ação do eu lírico consiste, sobretudo, em se apropriar da forma dos objetos poetizados. Para o segundo, os textos de “Jahú”, “Pescadores”, “Avoetes…”, “Canção do inverno”, “O banho da cabocla”, “Verão”, “Poemas das pitombeiras…”, “A roda…”, “O bonde novo” e a série “Poemas das serras”.  Nesse segundo conjunto, os poemas revelam um atitude de quem aprecia e frui a cultura que representa.

[1] A divisão em eixos temáticos tem o objetivo de apreender, para efeito didático, os aspectos gerais predominantes na obra. Tal processo de apreensão está em andamento, no âmbito do projeto de pesquisa O “Livro de poemas de Jorge Fernandes”: apresentação e edição crítica, coordenado pelo prof. Dr. João Maria P. Palhano (UFRN), do qual participo como colaborador.

Culto ao novo

Dentre os poemas do último eixo temático referido, destacamos “O bonde novo”, que traz para o leitor um aspecto bastante atual da nossa cultura: o culto ao novo, como um fenômeno da modernidade ainda não superado.

Presente no título do poema e reiterado nos versos, o fenômeno da novidade magnetiza a atenção dos usuários do bonde. As cores do veículo, bem como o barulho da sua campa, atraem visão e audição dos passageiros, de forma total, de modo a ocorrer um aprisionamento dos sentidos desses cidadãos ao objeto que os carrega.

Impressão fac-similar do poema “O Bonde Novo”

O magnetismo dos passageiros, contudo, não corresponde ao comportamento do bonde, que é personificado pelo poeta e passa a enxergar aquilo que as pessoas que moram na cidade deveriam apreciar numa manhã domingueira, natalense: o mar.

A natureza, posta entre o homem e o objeto, é singularizada graças a uma inversão de papéis habilmente trabalhada pelo poeta. Verifiquemos, então, como se dá esse trabalho com a linguagem na estrutura do poema.

Como observador da cena contemporânea e cultural do espaço em que habita, o poeta desloca o bonde para um espaço que não é, necessariamente, aquele que lhe é destinado, ou seja, o bonde é visto não como um veículo de transporte no cotidiano da cidade, na função de carregar trabalhadores para os seus postos, entre o centro e a periferia² .

Aqui, o bonde não aparece no centro movimentado da cidade, nem está circulando entre a segunda-feira e o sábado, mas sim no dia de domingo. Nesse dia de lazer, o veículo é apresentado em um espaço muito especial: a balaustrada do bairro de Petrópolis, ponto elevado onde se tem uma magnifíca visão do oceano atlântico, com todo o seu esplendor.

[2] Cf. a respeito o estudo “A carroça, o bonde e o poeta modernista”, de Roberto Schwarz (Que horas são? São Paulo: Companhia das Letras, 1987), sobre a poesia de Oswald de Andrade.

Singularização do não visto

O deslocamento é, portanto, social e geográfico: do centro comercial para o que poderíamos chamar de um dos balneários da cidade; do espaço plano do centro para o ponto mais alto, privilegiado, espécie de mirante propício à distração.

Até o sexto verso, a expectativa do leitor vem sendo cumprida, porque o bonde está cheio de passageiros e, chegando à balaustrada, “espia o mar…”. A personificação do objeto seria, neste ponto, verossímil numa narrativa, porque o narrador-observador estaria informando que o “bonde” estaria englobando os “passageiros”, ou seja, todos espiavam o mar, uma vez vez que um bonde não pode ver³ .

Mário de Andrade (em pé, de óculos e chapéu) em carta à Cascudo: “Então o Jorge cabou o livro? Queria tanto ver isso! Acho que deve publicar logo. O momento é o mais propício pra poema assim de caracter tão nacional que nem o dele, não acha mesmo?” 

Contudo, os três versos seguintes quebram essa expectativa e o leitor fica sabendo que “os passageiros todos nem olham pro mar…” e sim para o bonde. Portanto, no sétimo verso é desfeita a possibilidade metonímica, uma vez que as “partes” ou o “conteúdo” não são substituídos pelo “todo” ou pelo “continente”.

Na sua estratégia de construção textual, o poeta inicia o sétimo verso com a conjunção aditiva “E”, aumentando em intensidade o choque provado pela imagem inusitada a partir de então: simultaneamente, enquanto o bonde espia pro mar, os passageiros espiam e ouvem o bonde.

A natureza é esquecida, o objeto que advém da invenção tecnológica é reificado. As reticências, que encerram quase todos os versos dessa primeira parte do poema, levam-nos a desconfiar que o poeta desejou, intensamente, promover uma ironia para a situação que observa como um meio de representar personagens e acontecimentos do início do século XX.

Qual seria, pois, o ponto de vista do poeta? Por meio do registro do circunstancial, os poemas desse eixo temático revelam uma atitude de quem aprecia e frui a cultura apreendida.

Por isso, a minha interpretação é de que, por mais que o bonde esteja singularizado como objeto para os passageiros, o que esse mesmo objeto permite é a singularização do que não é visto, ou seja, o mar. Assim, o mar é objeto de denúncia (“E os passageiros todos nem olham pro mar…”) numa relação que obstaculiza a natureza na sua visibilidade. Não há beleza natural e o que impera é a visão do produto industrial.

[3] Neste caso, além da personificação, estamos também diante de uma relação de contiguidade entre os passageiros e o bonde, o que caracteriza uma relação metonímica que pode ser vista, neste caso, como sinédoque (o bonde como o todo, no lugar dos passageiros que utilizam o transporte; do ponto de vista lógico [e apenas técnico, desconsiderando o aspecto humano], o continente pelo conteúdo).

Cena cultural específica do início do século XX

Toda a relação homem/objeto/natureza é intensificada pela ironia que se apresenta na última estrofe do poema, em que a moda, no seu caráter transitório4, domina a cena potiguar: “Aquele bonde só devia sair aos domingos/Pois ele é a roupa domingueira/Da Repartição dos Serviços Urbanos…”.

Por meio da ironia, o poeta dá a chave de leitura do texto, como se estivéssemos diante daquelas famosas chaves-de-ouro dos sonetos (que Jorge Fernandes, inclusive, demonstra ter o domínio, pois fora parnasiano em passado recente, de acordo com a série “Meu poema parnasiano”). Tem-se, nesse fechamento do texto, a reiteração do deslocamento do objeto poetizado em relação à sua função: ele é apenas uma moda.

O texto, na sua situação de produção, informa que estamos diante da cena cultural específica do início do século XX. Acontece, porém, que a circulação desse poema ocorre em um horizonte muito além daquela situação inicial e sua recepção chega aos tempos pós-modernos, quando já não há mais bondes. Que sentido poderíamos acrescentar, hoje, àquele desvio de olhar de tão singulares passageiros?

No  início do século XX, os meios de transporte modernos representavam, para a população, alto grau de ineditismo em Natal, sobretudo, com a chegada de aviões. A partir de então, o estado do Rio Grande do Norte apresenta índice elevado de inovação em diversos setores e áreas, com reflexo nos comportamentos urbanos: combate ao cangaceirismo, voto feminino, projetos de educação, americanização dos costumes durante a Segunda Guerra Mundial, cosmopolitismo, alta rotatividade na oferta de serviços e lazer, incluindo gastronomia e turismo, etc.

Tendo em mente que a cidade foi atravessada por muitas novidades ao longo de todo o século XX, numa situação que perdura até os dias atuais no que diz respeito à obsessão pelo novo, talvez seja possível concluir que aquela moda denunciada pelo poeta marcou a inserção da cidade na correia de transmissão de valores modernos, de modo irreversível: Natal é, sem sombra de dúvida, uma cidade novidadeira onde não sobreviveria um “Café Magestic”. Nela, a tradição sobrevive a duras penas, mas este é um tema para outras discussões…

[4] Sobre a aparição do fenômeno da moda, na modernidade, cf. os estudos de Walter Benjamin sobre Baudelaire (A modernidade de Baudelaire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988; “A Paris do segundo império em Baudelaire”. In: Walter Benjamin: Sociologia. São Paulo: Ática, 1985).

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Raul Pacheco 30 de Abril de 2019 16:14

    Texto fabuloso. Importante para equilibrar a lembrança do passado (como tradição) na criação do novo. A redescoberta não deixa de ser uma descoberta, não é verdade?

  2. Ana Cláudia 1 de Maio de 2019 10:41

    Sou super fã dos poemas do nosso Jorge. Adorei conhecer o contexto da publicação à época, bem como a breve análise do livro.

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