Saudações ao Seridó: Sobre a Jornada de Leitura e Educação

O Seridó é lindo! A frase vem à mente, a cada nova viagem que faço para lá. Em época de chuva, quando o verde enfeita a paisagem entrecortada de serras, aí o cenário também emociona, porque transmite a mensagem da fecundidade que sustenta os que vivem da terra. A gente, que é visitante mas também irmão, enche os olhos com a beleza e a perspectiva do vicejar que trará comida à mesa do agricultor.

Fotografia de capa: Jorge Luiz de Araújo

Os seridoenses são acolhedores. É o que estava estampado em cada sorriso, abraço e palavras de estímulo, que os profissionais da educação, funcionários das pousadas e restaurantes nos ofereceram. Se me basear pelo carinho que recebi, afirmo que o povo do seridó gosta de visitantes e interage com eles como se fossem de casa. Por isso fiquei com a impressão de que os conheço de toda uma vida.

A comida do Seridó é deliciosa! Desculpem os natalenses, mas carne de sol como a de Caicó, ainda não experimentei. E o que dizer do queijo de coalho, do doce de leite e da Raiva? Era muita gostosura para tão pouco tempo de estadia.

Na pousada onde nos hospedamos teve café servido no quarto com tudo o que um potiguar poderia desejar: cuscuz, tapioca, ovo frito, bolo da moça, queijo de manteiga e, como se ainda houvesse espaço no estômago, uma fruta suculenta para refrescar o paladar. Não que estivesse quente. O clima estava ameno, apesar dos amigos terem me alertado sobre a quentura de Caicó.

Jornada de Leitura e Educação

Escritores, artistas, professores, mediadores de leitura reunidos em Caicó, para a Jornada de Leitura e Educação.

A Jornada de Leitura e educação do Seridó foi especial! Promovido pelo projeto Casa das Palavras, com patrocínio da Cosern e Governo do Estado através da Lei Câmara Cascudo, o evento foi uma experiência gratificante para todos os envolvidos: professores, mediadores de leitura, coordenadores pedagógicos, artistas e escritores.

Rodrigo Bico, com sua presença solar, aquecia as expectativas do público com prévias cheias de graça e sonoridade. Aliás, Bico é um show à parte dentro das Jornadas. Cativa plateia e apresentadores da mesma forma.

O momento político que enfrentamos tornou tudo ainda mais significativo, porque o evento ganhou ares de resistência, através da fala emocionada de Salizete Freire. Após apresentar seu mais novo trabalho, o lindo e evocativo “Um colo para Aiazinha” (Editora Imeph), pediu emocionada que “não deixássemos o ensino público acabar”.

Nossa amada escritora, que também é educadora, ainda fez uma breve retrospectiva da educação no Brasil e lembrou de um tempo em que apenas as pessoas de recursos financeiros tinham acesso à educação formal.

Paula Belmino, professora e mediadora de leitura na cidade de Lagoa Nova estava lá, bem como o seu belo livro “A menina que sabe chover” (Editora Inverso). Como poeticamente afirmou Roseana Murray, “A chuva nas mãos de Paula é instrumento musical, brincadeira de reescrever a vida, esperança no sertão”.

Atrações

A editora CJA levou quatro escritores: Araceli Sobreira, Drika Duarte, José de Castro e eu. O time fez bonito: o Zé, menino que só ele, cantou, declamou Antônio Francisco, brincou de ioiô, bilboquê e bonequinho de mola, divertidos passatempos da infância que ele poetizou em seu mais novo livro “Brincadeiras poemantes” (CJA).

Escritoras Ana Cláudia Trigueiro e Araceli Sobreira durante Jornada de Leitura e Educação, em Caicó.

A Araceli, autora do ótimo “O espelho de Eloísa e outras histórias de mulheres sábias” (CJA), compartilhou um pouco da sua vida e de algumas histórias do livro, marcado pelas trajetórias de sertanejas sofridas, obstinadas e acima de tudo resistentes.

E o que dizer da Drika? Cuja declamação dos versos de boas vindas à vida, ofertados à plateia (em sua maioria mulheres) fez os pelos dos meus braços eriçarem? Drika nos orgulha.

É uma das mais novas representantes da poesia feminina do estado. Dá voz às nossas dores, angústias e crenças em um futuro melhor, também empodera meninas usando a ancestralidade, a etnia e a poesia como recursos de conscientização. Seu poderoso livro “Bonito é se gostar” (CJA) já é, para mim, um livro fundamental da nossa literatura infantil .

Abaixo, um pequeno trecho do poema, que segundo Drika, está colado na porta de entrada da casa de uma amiga. Se a autora permitir, colarei também na minha:

A Casa é Sua

A vida bate à minha porta

Não esmoreço, deixo-a entrar

Seja bem vinda, vida

E traga consigo

Muitas estradas ainda

Traga um punhado de sorte

E o seio farto de amor

Traga o calor da alegria

Para distrair o torpor

Traga também

Muitas histórias

Para em meus sonhos eu viajar

E se trouxer a desventura

Traga-me força para superar

O que for essencial

Faça-me compreender

E o que for supérfluo, vida,

Deixa pra lá que vou esquecer

Só não me deixe viver a mesmice

Que vejo por todo lugar

Venha vida, seja bem vinda

A casa é sua, pode entrar

“Manoel é um jovem sertanejo que recria a vida em versos evocativos da infância, ele tem reinventado o cordel na literatura infantil em projetos gráficos belíssimos”.

Alma gigante

 Manoel Cavalcante (Comunique editora) que apresentou o seu “Se fala assim no sertão” e Gabriela Barbalho com “Duna menina e o elo com a natureza” (M3 editora) também me encantaram. O Manoel é um fenômeno! Jovem sertanejo que recria a vida em versos sonoros e evocativos da infância, ele tem reinventado o cordel na literatura infantil em livros de projetos gráficos belíssimos.

Quanto a Gabriela, salvo engano, este é seu livro inaugural. Preciso afirmar que estreia muito bem. “Duna menina”, todo ilustrado por ela, que é designer, é lindo, tem interessante mensagem ecológica, paisagens e animais potiguares com nomes indígenas, como Caboré. Precisa dizer mais? Longa vida aos escritos de Gabriela Barbalho!

Ponto alto para mim foi entabular alguns dedos de prosa com Antônio Francisco, considerado por muitos, o maior poeta popular vivo no Brasil. Concordo com Clauder Arcanjo quando escreveu que “o homem é ainda maior do que sua obra”. O que significa dizer que a alma do poeta é gigante, porque sua obra é de uma grandeza monumental.

Segundo Thiago Gonzaga, “Antônio Francisco talvez seja a melhor revelação da poesia popular surgida no Rio Grande do Norte, desde Fabião das Queimadas”. Há algo de empolgante e inspirador no que escreve, tanto quanto nos temas que defende. Algo que nos traz esperança ou, ao menos, a lembrança de valores essenciais: bom humor, simplicidade, amizade, respeito e justiça social são temas recorrentes.

Trocamos livros e sua dedicatória me emocionou: para Ana Cláudia, com a promessa de um mundo melhor e um abraço amigo de Antônio Francisco. Esse é o ser humano por trás do “rei do cordel” como muitos o chamam.

Procurei fazer uma dedicatória à altura do mestre e escrevi no livro, com que o presenteei, o seguinte: para o mestre Antônio Francisco, cujos versos titânicos, humor ensolarado e verdade poética, emocionaram-me. Nunca esquecerei este dia.

Encerro com o nobre cordelista mossoroense, na firme intenção de abençoar o dia do querido leitor:

Uma vez me perguntaram

O que era escrever pra mim

Eu disse escrever é meditar

Todo dia o dia inteiro

Fazer do vento uma escada

Do luar um candeeiro

Pra ver o rosto de Deus

Por de trás do nevoeiro

É viajar sem temer

No barco da liberdade

Num rio feito de verso

Pela criatividade

Olhando pela janela

Dos olhos da humanidade

É andar pelas estrelas

Sem tirar os pés do chão

Almoçar pontos e vilas

Jantar rima e oração

E andar na mesma trilha

Dos passos do coração

É viver plantando sonho

Onde mais ninguém plantou

Sonhar colhendo a semente

Do sonho que Ele sonhou

E sugar o mel das pétalas

Da roseira que secou

É transformar um deserto

Numa bonita savana

Viver dezessete séculos

Num simples fim de semana

E andar pelas veredas

Das veias da raça humana

É andar catando história

Nas caatingas do sertão

Pisar em cima da pedra

Onde pisou Lampião

E ver a lua nascer

Na palma da sua mão

É sentir a dor alheia

Calando a boca da sua

Passar a noite acordado

Pelas esquinas da rua

Bebendo o suor da noite

Compondo versos pra lua

Ser escritor é pisar

Onde ninguém bota o pé

É ser Zé ninguém sem ser

Escravo de nenhum Zé

E viver plantando sonho,

Saudade, vontade e fé

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Tereza Custódio 16 de Maio de 2019 8:23

    Bela descrição da Jornada de Leitura e Educação no Seridó. A escritora Ana Claudia Trigueiro sabe usar as palavras com maestria nos instigando a ler, ler e ler.

  2. Paula Belmino 16 de Maio de 2019 12:41

    Foi uma manhã muito agradável, cheia de emoções, sorrisos e acalanto á alma, reflexões essenciais para lutarmos pela educação e pela literatura de qualidade para todos!

  3. Araceli Sobreira 30 de Maio de 2019 12:41

    Foi um encontro maravilhoso mesmo, obrigada pela descrição generosa e espero que possamos participar de mais eventos como este!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP