Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula

Foto: Francis Bourgouin

Por Ana Maria Bahiana
BLOG DA COMPANHIA

Por onde começar?

Talvez com um preâmbulo: três dias esvaziando um galpão nos cafundós de uma zona industrial de Los Angeles, onde eu havia estocado remanescentes de várias vidas passadas. Se objetos podem contar uma história, o que estes diriam? O depósito continha, essencialmente, fotos, LPs de vinil e livros. Muitos, muitos livros.

Meu filho, que cresceu cercado por essas três coisas — mais “o som da (minha) máquina de escrever”, ele me disse, um dia — e tem a sua coleção privada de todas elas, rolou os olhos. “Mãe, o que você vai fazer com tudo isso? Não cabe mais nada na sua casa! Vamos doar tudo!” Mas aí começamos a abrir as caixas… Monteiro Lobato completo. Uma edição de 1914 de Tales from Shakespeare, de Mary e Charles Lamb, encadernada em couro vermelho. Gatos: A Emoção de Lidar, da Dra. Nise da Silveira. Um bom sortimento de Mark Twain e Charles Dickens. Batuque, Samba e Macumba, 1926-1934 , desenhos e textos de Cecília Meirelles. As coleções de contos de fada e fábulas de Perrault que marcaram minha infância. Um tomo lindo, encadernado em couro azul, de uma Histoire de France que foi do meu avô, o Professor Gastão Bahiana, a quem devo meu nome.

Não se falou mais em doações em massa.

Semanas depois, atarefada com uma tradução do português para o inglês de um texto sobre escritores — um escritor, na verdade: Arthur Rimbaud e suas peripécias pela África — vou de manhã cedo, café em punho, dar partida ao meu fiel computador para iniciar os trabalhos do dia. Rapidamente noto que algo está errado. Muito errado. Letras sem nexo atravessam o campo livre onde minha senha de acesso deveria aparecer. Depois de algumas tentativas, o computador aceita minha senha mas… a felicidade não dura muito. Como um robô possuído por uma força maligna, letras e sinais absurdos continuam a pipocar na tela, e meu teclado simplesmente não responde aos meus comandos.

Em pânico, temendo que a Coréia do Norte tenha me posto na mira, desligo tudo e começo a pesquisar a qual loja da Apple eu poderia levar a tralha toda para ser devidamente exorcizada. Apenas uma tem horário livre no Genius Bar — a mais longe de todas, lá no extremo noroeste do vastíssimo Vale de São Fernando, na fronteira da quebrada com o município de Ventura e as montanhas onde vivem pumas e ursos pretos e vários episódios da série Jornada nas estrelas foram filmados.

Que remédio? Lá vou eu.

É um longo périplo por um emaranhado de freeways, ruas e avenidas pontuadas por coisas como “Aulas de tango para idosos!”, “Culinária salvadorenha e filipina!”, “Boliche cósmico!”. O matraquear do rádio me faz uma companhia indiferente… até que reconheço uma voz: a de Naomi Baron, linguista e diretora do Centro de Estudos da Leitura e Aprendizado da American University.

Se eu não tivesse caído no caldo grosso do jornalismo, linguística teria sido uma boa opção — sempre tive e ainda tenho uma tremenda curiosidade sobre o processo de aquisição da linguagem, e o que o tempo, a distância, a necessidade e a cultura fazem com o bordado dos sons e signos. Para quem está indo tentar resolver o drama de uma tradução abortada por um computador com verborragia espontânea, a calma voz da Dra. Baron é quase um acalanto.

E ela está falando de livros. Do seu livro, o recém-lançado Words Onscreen: The Fate of Reading in a Digital World, e dos livros em geral, em papel ou não. As conclusões, que ela apurou de vários estudos realizados nos últimos anos em diversos países, são consistentes e fascinantes: os livros de papel, que deveriam ter morrido com a explosão digital, estão mais vivos do que nunca. A razão, Naomi diz, que todas pesquisas concluem é simples: para a aquisição rápida de informação, preferimos as telas de computadores, tablets, smartphones; para a leitura profunda, aquela que, nas palavras dela, “mudam vidas, que é o que os bons livros devem fazer”, optamos pelos livros.

Não pensem que essas são conclusões extraídas de pesquisas com gente de meia idade, da geração anterior à era digital. Muito pelo contrário: a pesquisa mais recente e mais vasta, que Naomi usou como coração da sua obra, envolveu adolescentes e jovens entre 17 e 26 anos. E não deixou a menor dúvida. O livro, segundo eles, oferece imersão, experiência individual, “sem interrupções”, diz um dos pesquisados, “sem barulhinhos na tela”, “obrigando a pensar”.

A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na “fiação” do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.

Chego em casa com a tranquilidade da missão cumprida, e mais. Na minha cabeceira uma cópia usada, abusada, amassada e anotada de O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, em inglês, resgatada da noite sem fim do depósito, me aguarda.

(O computador? O problema era o teclado, a moça do Genius Bar me diz. Algum líquido caiu nele? Não, eu respondo de imediato mas… tenho duas gatas. Ah, ela retruca. Então tudo pode ter acontecido…)

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling Stone, Bizz, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo