Jornalismo contrasta decisão do STF

A decisão do STF no sentido de que a atividade jornalística não requer diploma ainda causa perplexidade, onde quer que dois ou mais jornalistas se encontrem. Nas entrelinhas, soa ainda mais esdrúxula a decisão: seria como afirmar que se trata de uma profissão que não requer qualquer preparação, treinamento ou especialização; um ofício destituído de qualquer especificidade. Portanto, ao alcance de qualquer leigo.

Seria o jornalismo algo comparável à profissão de administrador, que requer mais um senso prático e objetivo da empresa do que aptidões específicas em determinadas áreas-meios ou fins? Seria como o ofício de escritor, para o que bastaria desenvolver uma forma própria de conduzir uma narrativa, desde que detendo conhecimentos básicos da escrita? Seria, ainda, algo assemelhado ao trabalho do revisor de textos, que demanda basicamente um conhecimento geral da língua?

Embora guarde semelhança com as profissões de administrador, escritor, revisor de textos e outras, o trabalho do jornalista tem algumas especificidades que as distinguem e que dificilmente podem ser adquiridas fora de um curso regular universitário. O domínio da técnica redacional das matérias noticiosas é uma delas, incluindo aí a busca da neutralidade como sentido ético do texto, em contraste com o engajamento que todo veículo ético assume quando lida com questões que digam respeito ao interesse coletivo. Um veículo que descuide dessas duas facetas, dificilmente será bem-vindo junto à opinião pública.

Além desses aspectos gerais, o jornalismo assume características plurais dentro de cada veículo, de acordo com cada seção em pauta. Como esperar que um leigo acompanhe simultaneamente a vida cultural e a forma de noticiá-la num veículo, mediante entrevistas, resenhas, reportagens etc., características que marcam o jornalismo cultural, e que variam conforme a natureza de cada veículo?

Não que um leigo não possa assinar uma coluna específica num determinado jornal ou revista. Pelo contrário, a participação de especialistas não-jornalistas na imprensa foi sempre uma colaboração saudável, contribuindo para o pluralismo informativo em bases seguras. Não é essa a questão em pauta, haja vista que nenhum jornalista sensato quis jamais assinar colunas de assuntos técnicos como medicina, psicologia, astrofísica etc. Nem previa tais “reservas” para jornalista a lei revogada pelo STF, ao contrário do que alguns veículos chegaram a noticiar equivocadamente. Não se trata, portanto, de abrir licitações para a entrega de veículos noticiosos a empreendedores leigos, pois estes não se sentiriam à altura de assumir tais riscos.

Mas é inegável que a decisão do STF causou sérios danos ao jornalismo, como o de sugerir que se trata de uma atividade que pode ser exercida por qualquer leigo, o que vale para coisas destituídas de qualquer complexidade. Como se lidar com uma linguagem, uma técnica e um estilo comprometidos com a clareza e a objetividade estivesse ao alcance do homem da rua!

Em decorrência da mesma decisão, muitas vocações jornalísticas poderão ser seriamente prejudicadas, não só porque começarão a questionar o valor do esforço que estarão fazendo para obter um diploma nessa área, mas sobretudo porque o Estado, como mantenedor desses cursos, poderá passar a discriminá-los em favor de cursos outros. No longo prazo, isso significaria o desmonte de uma atividade a qual, graças a seu papel crucial na formação da opinião pública, ficou conhecido como “o quarto poder”.

Inevitavelmente, um sentido retaliatório seria atribuído a medidas de tal natureza. Especialmente pelo efeito devastador de suas consequências, na medida em que a precarização da atividade jornalística teria reflexos negativos no âmbito da sociedade, deixando-a menos informada acerca de questões cruciais e que exigem ampla discussão coletiva.

Independentemente de todo esse imbróglio, bons jornalistas continuarão a ser formados nas boas universidades. E esse é o lugar aonde as empresas jornalísticas irão recrutá-los, a fim de continuar fornecendo informação confiável, inteligível e correta.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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