Jornalismo Cultural

Por Débora Didonê
Observatório da Imprensa

Enquanto seres humanos, pensamos com as palavras – por meio das quais damos sentido ao que somos e ao que nos acontece. Mas enquanto sociedade da informação só nos interessa saber sobre tudo para poder opinar sobre tudo – sem tempo para viver experiências. Esta é uma reflexão do espanhol Jorge Larrosa Bondía, especialista em Filosofia e Educação da Universidade de Barcelona, e foi trazida à tona pela jornalista e crítica de teatro Beth Néspoli durante o II Congresso de Jornalismo Cultural, realizado em maio, em São Paulo. Seu discurso inflamado conquistou olhares e ouvidos do público, atentíssimo à maneira como a palestrante interpretava a função social da comunicação. Apoiada em Bondía, Beth frisou: “Porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. Porque não podemos parar, nada nos acontece.”

A interpretação da palavra, ora como essência da manifestação humana, ora como excesso de informação que limita a vida, remete à dicotomia da atual crise do jornalismo cultural brasileiro. As redações estão enxutas. As equipes, muito jovens. A troca de experiência entre novos e velhos, por sua vez, rareia. A ânsia por informação reduz o tempo de produção dos textos, liquida páginas de cadernos culturais e transforma reportagens em guias de serviço. Para completar, os repórteres pouco saem da redação. Assim, abrem-se portas para que anônimos e jornalistas desejosos de um espaço livre criem seu blog e Twitter (espécie de microblog em que os usuários digitam mensagens de até 140 toques) e façam seus próprios textos e críticas – muitas vezes, bem melhores do que se vê circular na imprensa. Enquanto as instituições culturais produzem sites e revistas.

Excepcionalidade do jornalista não se sustenta

Um dos principais diagnósticos dados ao impasse entre a reportagem empobrecida e o espaço rico e democrático da internet é o de que protagonizamos o início de uma nova revolução: a digital – como bem colocou Laura Greenhalgh, editora-executiva do jornal O Estado de S. Paulo. Pasmos diante da tela do computador, estamos certos de que é uma janela que nos leva a um mundo de informações. Mas, incertos quanto ao papel que exercemos nele – e de que vale esse mundo. O papel do crítico de cultura, por exemplo, acaba ficando esmaecido. Já não é mais o mediador entre o jornal impresso ou a revista e seu leitor, o canal de TV e seu espectador ou o rádio e seu ouvinte. O mesmo serve para o jornalista de redação. Ambos, crítico e jornalista, perdem seu glamour intelectual para concorrer com o internauta palpiteiro (muitas vezes, competente). Passam a receber respostas públicas e não editadas de seus leitores, incluindo críticas a seus textos.

Por outro lado, a suposta liberdade virtual permite que se escreva por prazer, que a escrita brote, venha de onde vier. A internet estimula a escrita, seja boa ou ruim. O próprio jornalismo literário, uma raridade nas redações atuais, que mescla a apuração exaustiva a um texto mais livre e autoral, ganha espaço em blogs e sites independentes de profissionais da comunicação. Assim como artistas se projetam em redes sociais, entrando em contato direto com os espectadores. Isso inclui a explosão de novos olhares que se vive na sétima arte. A cineasta Laís Bodanzky abriu um twitter para lançar o filme As Melhores Coisas do Mundo. Ao saber das sessões programadas pelo Brasil, Laís acessou o microblog para acompanhar a impressão dos espectadores recém-saídos de cada sala de cinema. Segundo a cineasta, foi um encontro inusitado com o público, que ela não viveu com as películas anteriores Chega de Saudade e Bicho de Sete Cabeças, cujo contato com o espectador se deu via mídia impressa e televisiva.

Por tudo isso, estudiosos apostam em um pé de igualdade entre o jornalista de cultura e seu leitor. Já não se vê mais a reificação da mídia, como afirma a professora de Comunicação e Cultura da UFRJ Ivana Bentes – para quem a própria reserva de mercado das redações produz a ideia de que a excepcionalidade do jornalista não mais se sustenta.

Autopromoção a críticos literários

Mas a revolução digital apontada pela jornalista Laura Greenhalgh não se limita a editoriais de cultura. O impacto da democratização da informação (e da proliferação desenfreada de textos, sites, notícias e opiniões) muda também a relação entre o objeto cultural e o mercado. É o que acontece com a música, que virou mp3 – ao alcance de todos que estão conectados. Com isso, comprar CDs virou deleite de colecionadores. E aos músicos restaram as turnês. O cantor e compositor Lobão observa uma nova ordem da indústria fonográfica, em que o músico tem que aprender a atuar de olho no mainstream. Foi assim que ele mesmo conseguiu emplacar o que produziu nos últimos anos como artista independente: “Gravando um acústico da MTV.”

Essa dinâmica entre artista e mercado precisa ser acompanhada a fundo pelo jornalista de cultura para que ele tenha condições de compreender como a sociedade transforma a música, o teatro, o cinema, a dança, as artes plásticas, a literatura e como as obras espelham seu tempo e vice-versa. O maestro e arranjador Júlio Medaglia enxerga a baixa qualidade (mundial) da música contemporânea como consequência dos meios de comunicação, que assumem a filosofia do consumo e descarte. Pensando bem, o mesmo vale para a arte em geral. A baixíssima durabilidade de uma produção artística coloca em questão o que se busca em cada obra – sentido para a vida e as relações humanas ou mero entretenimento? O crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo Luiz Zanin afirma: “Já não se consegue mais debater sobre filmes no jornal. Eu quero dizer `debater´ porque não é função do jornal `promover´ filmes”.

Estamos na crista da onda da revolução digital, surfando. E quando somos convidados a mergulhar, nos seguramos na prancha (com medo de afundar). O que se vê na superfície é entendido como necessário (e verdadeiro). A palavra que traduziria nossa essência fica, então, esquecida no fundo do oceano (o fundo de nós mesmos). Em suma, deixou de ser interessante ser profundo. Está na moda é ser raso. E quem não segue a moda, está por fora. A palavra deixa de ser essência para virar uma tonelada de coisas que os “bem informados” se orgulham de “saber”, o que inclui boa parte das recentes gerações de jornalistas de cultura. O escritor Humberto Werneck se diz admirado com jovens repórteres que, de repente, são promovidos (ou se autopromovem) à função de críticos literários. E aproveita a deixa para questionar também a produção em tempo recorde de escritores estreantes, o que justificaria seu fraco espaço na mídia oficial.

Uma rede social em que se mantenha o debate

Assim como o novo autor deve beber de fontes de referência para então encontrar sua linguagem e profundidade, é no ato da leitura e escrita constantes que um jornalista se torna crítico literário, como observa Marcio Seligmann-Silva, professor de Teoria Literária da Unicamp. Nesse caso, conhecer os mais variados autores e suas linguagens e praticar a escrita criativa são experiências que precisam ser vividas. Como exemplo, Seligmann-Silva cita Walter Benjamin, grande crítico da primeira metade do século 20 (recorrente no debate entre jornalistas e críticos de cultura): “Benjamin estava aberto para tudo o que era novo. Tinha um olhar político, já que a literatura e as artes são parte da sociedade, vinculadas a questões políticas e sociais.”

O crítico de cinema Inácio Araújo, da Folha de S.Paulo, não hesita em apostar nas revistas feitas por jovens cinéfilos, como Contracampo e Cinética, como fontes da retomada de um debate encorpado sobre a sétima arte. Os filmes de hoje custam milhões. Sua venda precisa ser feita nos dias do lançamento. As projeções ocorrem no curtíssimo período de uma semana, simultaneamente a outros cinco ou sete filmes distribuídos em salas de cinema do mesmo espaço. Resultado: O filme se massificou e Godard virou coisa de outro planeta. Foi essa transformação que Araújo testemunhou (e que o faz repensar constantemente sua função de crítico) desde a década de 1980, e que pouco se vê discutida nas páginas de jornal.

Não é diferente com o teatro, cuja crítica chega a ser comparada à pontuação das escolas de samba pelo diretor da Cia do Latão Sérgio de Carvalho. “Do século 19 pra cá, ampliaram-se apenas as categorias descritas de uma peça, sem aprofundamento algum sobre seu impacto”, diz Sérgio. Para Beth Néspoli, talvez a solução não seja o teatro emplacar críticas e reportagens na grande imprensa. E sim, em uma pequena, desde que não seja rasa. Afinal, o artista é um homem que se recusa, por definição, a operar no campo iluminado. Ele vai em direção às sombras, faz ver o que não está sendo visto, ouvir o que não se escuta, sentir o novo paladar. Está na fronteira, como bem definiu o professor de História da Arte da USP Agnaldo Farias. E isso não se traduz em meras linhas descritivas.

O profissional do jornalismo cultural não precisa se perder em busca de definições, e sim aceitar percorrer os caminhos desconhecidos propostos pelos artistas. Tentar digerir, observar e viver experiências políticas, sociais e antropológicas embutidas em cada obra, para, então, exprimi-las em palavras que realmente dêem sentido ao que foi vivido. Sem se deixar contaminar pela urgência de dizer tudo. Sem descartar após o uso. Mas com o compromisso de instigar o leitor a refletir sobre sua condição humana. Com essa disponibilidade, o jornalista tem as ferramentas certas para produzir textos significativos, seja na mídia oficial ou nos blogs e sites independentes. E a internet só tem a somar, aí sim, como a possibilidade de se criar uma rede social em que se mantenha o debate.

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