Jornalismo, desinformação e preconceito

Por Muniz Sodré
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Dois anos atrás, minha apertada poltrona num vôo internacional era vizinha à de um cidadão, com quem conversei um pouco ao longo da viagem. Era um próspero fazendeiro do interior paulista, que retornava de uma estada em Cuba, onde tinha ido tratar-se de uma doença grave. Aberto a revelações, ele me disse seguir outros conhecidos em sua região, também clientes do sistema de saúde cubano, que era eficiente e baratíssimo. A informação sobre essa demanda brasileira era uma surpresa e eu, que jamais estive em Cuba, quis saber mais sobre os sentimentos dele com relação àquele país. Tive, então, a segunda surpresa: o rosado beneficiário desatou em ofensas ao país e ao povo, para ele coniventes com a falta de liberdades civis. Nenhuma palavra de gratidão para os médicos que tentavam lhe salvar a vida.

O episódio vem-me agora à cabeça em face dos eventos e do noticiário recorrente na mídia brasileira sobre a imigração de médicos cubanos. Não disponho de elementos para avaliar com precisão o modo como foi implantado o programa governamental “Mais Médicos” e também partilho os receios daqueles que apontam para a provável impotência da ação médica em regiões sem qualquer infraestrutura hospitalar.

A questão aqui discutida, entretanto, é a presença dos profissionais de Cuba, que gerou o vexaminoso episódio do preconceito em Fortaleza. Na contramão das informações correntes, vale registrar alguns dos dados revelados pelo jornalista Hélio Doyle, membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília. O que não se conta (ou se conta em letras miúdas…) é que médicos cubanos já trabalharam no Brasil a serviço de comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá, sem que tivesse havido qualquer reclamação quanto à qualidade do atendimento. Deixaram de trabalhar por pressão do corporativismo médico.

Diversidade propalada

 A omissão informativa maior, entretanto, diz respeito ao fato de que “há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1.200 médicos cubanos – que sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras”. Outros dados, de outras fontes, chegam mesmo a ampliar esses números para 113 mil médicos.

É oportuno buscar diretamente fontes dessa ordem para dosar a informação corrente na mídia hegemônica. Por isso não cabe insistir na repetição dos dados trazidos à luz por Hélio Doyle. Mas uma citação da revista norte-americana New England Journal of Medicine nos parece definitiva:

“O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

Reitero não conhecer Cuba e, em consequência, depender por inteiro de relatos informais e da formalidade midiática para tentar uma abordagem compreensiva da realidade atual daquele país. Não há, assim, como evitar a pergunta: por que informações como essas acima trazidas não aparecem em nossa imprensa, ainda que fosse para desmenti-las? Onde comparece no jornalismo profissional a propalada “diversidade de ângulos”, que supostamente representaria a superioridade do profissionalismo corporativo sobre as formas ditas “pré-jornalísticas”, recorrentes no fluxo caótico das redes eletrônicas?

Pedido de desculpas

 Na cobertura jornalística do encerramento do campeonato mundial de judô no Rio (O Globo, 1/9/2013), a notícia de que a alemã Maria Suellen, primeiro do ranking mundial, foi derrotada pela cubana Idalys Ortiz aparecia espremida no meio do texto. Coisinhas assim são recorrentes na informação pública sobre Cuba.

Os efeitos da desinformação e da manipulação de dados estão visíveis na enxurrada de preconceitos e agressões veiculados pela mídia nacional a propósito da chegada de médicos cubanos. Atitudes e comportamentos vergonhosos pontuam desde a jornalista que enxergou aparências de “empregadas domésticas” na fenotipia dos imigrantes até os médicos que, em Fortaleza, vaiaram os colegas.

Na televisão, o político Ciro Gomes pediu desculpas em nome do Ceará. Sua fala passava sinceridade. Talvez alguém precise fazer o mesmo em nome do país como um todo.

***

Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * *

O DIAGNÓSTICO APRESSADO DA IMPRENSA

 Por Luciano Martins Costa em 04/09/2013 na edição 762

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 4/9/2013

 O programa Mais Médicos não sai do noticiário. Não por seus méritos ou pelo potencial de reduzir as diferenças na oferta de serviços de saúde no Brasil, mas pela exposição exagerada dos problemas na sua implantação.

Como toda ação de política pública, a iniciativa deveria ser avaliada pelo que faz e pelo que deixa de fazer. Para isso, o pressuposto da imprensa precisa ser baseado nos efeitos obtidos em prazo razoável, com os resultados contextualizados em relação às carências que o programa se propõe a atacar. No entanto, toda ênfase tem sido dada a ausências e atrasos na posse dos profissionais inscritos.

O que se vê diariamente, desde o anúncio do projeto, é um grande desequilíbrio nas escolhas dos editores, com a predominância de dados e informações negativas sobre o preenchimento das vagas abertas. Na quarta-feira (4/9), ao se deparar com o principal título da Folha de S. Paulo sobre o assunto – “Médicos questionam infraestrutura e exigências e abandonam programa” –, o leitor é levado a acreditar que ocorre uma debandada de profissionais. Mas a Folha não diz quantos médicos desistiram nos primeiros dias, qual a porcentagem deles em relação ao total de profissionais que aderiram, e outros detalhes que poderiam justificar o título.

Outra reportagem no mesmo jornal informa que os lugares para onde deverão ser enviados os médicos cubanos formam o pior cenário na geografia desigual do desenvolvimento humano no Brasil. Não seria por outra razão que o programa destinaria os profissionais cubanos para esses municípios, que, segundo a Folha, apresentam indicadores socioeconômicos inferiores aos da média nacional de treze anos atrás: ao contrário da maioria dos médicos brasileiros, os cubanos estão habituados a atuar em condições precárias, em países assolados por desastres ambientais e crises humanitárias.

Os médicos brasileiros, na maioria oriundos das camadas de renda mais alta da população, não se destacam pelo espírito de sacrifício. Na organização Médicos sem Fronteiras, por exemplo, o total de profissionais do Brasil em 2011 não passava de uma centena.

Os médicos cubanos, que são formados para a medicina preventiva e o atendimento básico, e educados para atuar em situações de extremo desconforto, formam o maior contingente do mundo de profissionais de saúde em ações humanitárias: são dezenas de milhares trabalhando nas mais severas e inseguras circunstâncias imagináveis.

Suspeita de boicote

 Por essa razão, as escolhas dos editores dos principais jornais, ao destacar as ausências, desistências e reclamações dos primeiros profissionais brasileiros a ocupar os postos para os quais foram escalados, expõem de maneira escandalosa essa diferença entre eles e o perfil característico dos estrangeiros.

Veja-se, por exemplo, o caso de um cardiologista brasileiro entrevistado pelo Estado de S.Paulo: o especialista se inscreveu “sem notar” que o programa era destinado a clínicos gerais, foi destacado para a cidade de Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, e saiu no primeiro dia, alegando que “falta tudo no sistema público”.

Observe-se que o doutor tem um consultório particular em Ribeirão Preto e atende também em Salvador, Bahia, por meio de convênio. Ele considera o salário do Mais Médicos, de R$ 10 mil reais por mês, “uma miséria”.

Não foi destacado para trabalhar numa favela ou numa aldeia da Amazônia, mas em Santa Bárbara, a apenas 138 km de São Paulo, cidade que foi colonizada por imigrantes dos Estados Unidos, tem um alto Índice de Desenvolvimento Humano e taxas reduzidas de violência.

O cardiologista jura que não se inscreveu para boicotar o programa. Apenas não leu direito as instruções.

Então, tá.

Na falta de números que autorizem a afirmar que o projeto é um fracasso, os jornais capricham nos títulos de dupla interpretação. Sem dados comparativos, o Estado de S.Paulo afirma: “Desistências continuam em diversos estados”. Na ausência de informações consistentes no texto interno, predomina a intenção do título, que é a de induzir no leitor a ideia de que o programa não se consolida.

O Globo, que aprecia trocadilhos e gracejos, aplica um título de gosto duvidoso usando o nome do programa: “Mais Médicos que faltam ao trabalho”.

Na contramão do senso comum, que colocou na pauta das manifestações de junho a emergência de ações na saúde pública, a imprensa dá a entender que torce contra o sucesso do plano. Insiste que o projeto foi feito atabalhoadamente, quando registros dos próprios jornais informam sobre reuniões de planejamento ocorridas anos atrás, inclusive com a participação de entidades dos profissionais de saúde.

O resultado pode ser um tiro pela culatra, com o efeito colateral de provocar maiores danos na imagem dos médicos brasileiros, que nas redes sociais ganharam um apelido tão genérico quanto injusto: são chamados de “coxinhas”, aqueles seres mimados que não toleram uma contrariedade.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + dezoito =

ao topo