Jornalismo, política e literatura em tom maior na Piauí de dezembro

A Piauí de dezembro (n º111) publica pelo menos cinco textos excelentes. Pela ordem, os que gostei mais: “Um leitor obsessivo” (fragmentos generosos dos diários do escritor argentino Ricardo Piglia); “Colapso do Lulismo”, assinado por André Singer; “O quinto poder”, por Luiz Maklouf Carvalho, que mostra como as agências de comunicação influenciam o trabalho da imprensa; “Depois do massacre”, em que Ruy Fausto faz um balanço das reações ao atentado em Paris; e “O mestre”, contando a história de Bernardo Esteves, o cientista norte-americano que formou uma geração de pesquisadores defensores da Amazônia. Tem ainda o “Diário de Dilma” (humor), que Demétrio Diniz gostou, mas eu não me interessei.

Doutor em Ciência Política, André Singer escreveu os livros “Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994” e ”Os Sentidos do Lulismo – Reforma gradual e pacto conservado”, além de muitos artigos e ensaios sobre questões relacionadas ao Partido dos Trabalhadores e Lula da Silva.

O texto de Singer é uma avaliação à esquerda, portanto se você é de direita, liberal, do PSDB, coxinha etc nem perca seu tempo, pule-o. Se é jornalista vá direto para o texto de Maklouf, nele você vai ficar de cabelo em pé diante do poder das megas empresas de assessoria de imprensa. Se não é e nem se interessa por jornalismo, mas gosta de literatura, então leia parte dos diários de Piglia que a revista publica.

Pedro Meira Monteiro, colega do escritor argentino, quando ambos foram professores na universidade de Princeton, faz uma introdução aos diários, iniciados quando Piglia era adolescente (está com 75 anos, sofre de esclerose lateral amiotrófica. Já não consegue escrever e dita a uma secretária). O texto de Meira você pode acessar: aqui. Os outros não.

Eu vou ficar ligado para comprar esse livro (foi lançada uma primeira parte dos diários em espanhol). É literatura em estado puro (“O sentido da literatura não é comunicar um significado objetivo exterior, e sim criar as condições para um conhecimento da experiência do real”). Nos diários, o escritor repassa seus anos de formação e tem também alguns trechos impagáveis, como os encontros com Borges e uma alfinetada boa em “Cem anos de solidão”, de García Márquez.

Fazia tempo que não lia uma edição da Piauí com tanto texto que me agradasse.

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