José Castello entre dois centenários

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Romancista, biógrafo, cronista, crítico, palestrante… Ser escritor hoje, no Brasil, não é tarefa das mais fáceis. Pelo contrário, é preciso ter convicção firme, nascida ainda na transição da infância para a juventude, de que escrever é uma aposta definitiva, mas de ganhos incertos em qualquer sentido que se tome essa palavra. Além do mais, o escritor em progresso precisa se desdobrar em múltiplos afazeres, assumir riscos em projetos às vezes excessivamente ambiciosos, pesquisar exaustivamente e, ainda, não se deixar intimar pelos fracassos que eventualmente aconteçam. Enfim, precisa encontrar o tempo certo para realizar a obra que considera indispensável, sem se deixar influenciar pelos julgamentos críticos imediatos, quase sempre apressados.

Que o diga o escritor José Castello, cuja história se confunde um pouco com a de tantos outros escritores-jornalistas, escritores-colunistas, escritores-palestrantes e outros híbridos da escrita. Não é fácil, mesmo, esse ofício de lidar com palavras com obstinação até extrair delas um resultado que se eleve acima dos ruídos indistintos da aldeia global que cabe por herança a todo escritor.

Elegante, discreto até a modéstia, paciente com as perguntas, mesmo as de formulação cambiante, José Castello foi sabatinado nessa quarta-feira passada por um pequeno mas entusiasta auditório no Sesc/Cidade Alta. A ideia, antecipada pelo jornalista Tácito Costa, que apresentou e conduziu o evento, seria a coincidência dos centenários de Vinicius de Moraes e Rubem Braga, ambos nascidos em 1913. Na plateia, o poeta Lívio Oliveira contribuiu para animar o encontro com conversas diretas com o entrevistado.

Biógrafo de ambos os aniversariantes, José Castello se dispôs a falar em público sobre o duplo tema, mas acabou se alongando nas informações sobre detalhes que fizeram de Vinicius um mito no qual os limites do real e do imaginário parecem se fundir. Para ilustrar tal certeza, Castello se valeu de episódios que pesquisou durante a escritura de seu livro “Vinicius de Moraes, o Poeta da Paixão” (Cia. das Letras, 1993).

Apesar de ter estudado seu personagem sob os mais diversos aspectos, Castello admitiu que é difícil falar de Vinicius, pois o poeta encarnou como nem mesmo o fez Mário de Andrade a condição de mutante: a cada parceiro correspondeu um letrista; a cada amada, um amante sob medida, até que se exaurisse a paixão. Mas antes que o desejo de desencarnar abatesse todas as defesas do poeta, ele se entregava a nova paixão, carma que aceitou como um destino que cumpriria até o fim.

Sendo tantos Vinicius, qual deles escolher? A preferência de Castello recai sobre o poeta, sem desmerecer, todavia, o letrista, o compositor, o dramaturgo, o tradutor, o cronista, o crítico de cinema e tantos outros avatares que assumiu vida afora. Recomenda, porém, que cada leitor procure descobrir o seu próprio Vinicius, tarefa que reputa das mais prazerosas, considerando a excelência da obra que Vinicius deixou.

A essa altura, a conversa já entrara na sua segunda hora. Foi quando alguém se lembrou de indagar a Castello sobre o seu livro “Na Cobertura de Rubem Braga” (José Olympio, 1996). Castello frisou que sua obra é um registro biográfico, mas não propriamente uma biografia, uma vez que aborda a vida e a obra de Braga a partir de tópicos alfabéticos que são, em seguida, detalhados. Há, assim, abundantes informações biográficas, muitas retiradas das crônicas do próprio Braga. Como exemplo, citou um trecho do verbete “Ceticismo” no qual o cronista fala de seu trabalho: “O cronista é um escritor que tem suas medidas fixadas pelo cotidiano. Está preso ao chão. Logo, não pode cair”.

Reportando-se à contribuição do autor de “Ai de ti, Copacabana” para a crônica brasileira, Castello foi breve e enfático: “depois de Rubem Braga, a crônica brasileira ganhou contornos definitivos, fundindo realidade e fantasia numa matéria indissociável, autoral, o que lhe garantiu muitos seguidores, mas nenhum sucessor”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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