José Helmut Candido – Humano mais que humano

V – Personalidades da Cultura do Rio Grande do Norte.

Conversava outro dia com o amigo Jácio. O assunto não podia ser outro: o encantamento do nosso querido Helmut. E Jácio me lembrou de coisas esquecidas e vividas – por ele: Jácio. Das pedras que Helmut atirava no Jácio e outros meninos. Uma vez, Jácio escolheu ficar na frente de fachadas de vidros, no Banco do Brasil. E disse: – rebole a primeira pedra. Seja homem. A vitrine não foi quebrada, mas Jácio teve que correr muito para se livrar das pedras do Helmut.

Todos nós aprendemos a nos livrar dos bodes de Helmut. Tinha dias que ele não estava para conversa. Estava enfesado com tudo e todos. Precisava deixar ele quieto para não levar outra saraivada. Ultimamente ele vendia uma poesia-guardanapo por qualquer dinheiro. Sabia a quem se dirigir. E conhecia os intelectuais da cidade. Deixou muitos poemas em papeis avulsos e inéditos. Alguém precisava reunir, assim como foi feito com os poemas do “Boca do Inferno”.

Os poetas são assim mesmo. Antes de Helmut, teve o Milton Siqueira que vendia poesias em papeis de embrulho. Gostava de escandalizar para tristeza da família. A família não aceitava aquele seu jeito nômade e irreverente de ser.

Lembro da alegria do Abmael, tão pródigo na sua atenção ao Helmut, quando da entrevista que Helmut deu para a revista Piauí, de circulação nacional e muito bem escrita pelo jornalista Levino.

O Helmut, sabendo da minha paixão por Camões, várias vezes recitou cantos inteiros de Os Lusíadas. Ele estava escrevendo algo sobre Camões e queria que eu fosse o primeiro da fila no dia do lançamento. Helmut também adorava cantar Nelson Gonçalves e outras belas vozes do nosso cancioneiro. Fumava várias carteiras de cigarros por dia e numa baforada na cara pedia: – Me dê um real!. Quantas vezes não ouvi – comovido, a esse pedido de um belo e querido amigo.

Um artista como outro não havia em Natal. Um pintor Naify que lembrava Van Gogh. O carteiro do Mestre Cascudo. Um homem culto que conhecia todo “Os Lusíadas” de Camões. A conversa certeira de poucos interlocutores. Cinema, literatura, tudo ele falava com muita sabedoria.
Quando Helmut partiu alguém comentou que ele partia sem deixar nada. Discordo! Qual a herança do artista senão sua arte! Helmut deixou poesia, livros e centenas de quadros que ele pintava em qualquer cartão ou papel. Um homem amargurado que tentou algumas vezes suicídio, e esteve internado por várias vezes em casa de tratamento mental. Uma vez cortou a orelha para lembrar ainda mais o seu artista favorito: Van Gogh. Seus quadros tinham a atmosfera e traços vangoguianos.
Os poetas são assim mesmo: Helmut deixa muitas saudades e um tremendo vácuo no coração da cidade que tanto ele amava. Cidade que ele flanava qual um cisne navegando em mares turvos e habitado por seres muitas vezes medíocres que não têm a dignidade intelectual e humana de Helmut.
O poeta só morre quando ele deixa de ser lembrado. Vamos concluir a obra deixada por Helmut. O seu livro sobre Camões de quem tanto amava. Promover exposições com os seus quadros. Cantar as músicas de que tanto ele gostava.

A saudade de alguém que jamais te esquecerá. Helmut deixou, sim. Muita coisa: Dignidade. Arte. Poesia. Amizade e honestidade intelectual

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