José Vieira

Arte: Fátima Marques

Por Demétrio Diniz

Saulo Diniz pertencia a uma família de gordos. Talvez por isso relevava o fato de ter a pequena camioneta esquentado o motor ao transportar o corpo grande e pesado do tio José Vieira.

Saulo não guardava notícias do mundo, vivendo da roça para o açougue, onde aparecia aos sábados sujo de sangue e trazendo às costas um porco esquartejado. Do tio não guardava recordações. Lembrava-se apenas do peso excessivo, do caixão grande, que ocupou a sala da frente, e da pequena fábrica de gelo tendo que trabalhar também à noite para preservar o morto, enquanto os filhos chegassem de longe.

Por outro lado se compreende a memória curta de Saulo Diniz: estava longe da ancianidade, quando as lembranças mais antigas se apinham e atacam como um bando de abelhas africanas.

De nada sabia do retrato de José Vieira pregado nas paredes do mercado público, o rosto liso, desafiador, de candidato a prefeito. O tempo então corria tão devagar e quieto, que muitos anos depois uma parte descolada e gasta dos retratos ainda esvoaçava nas mesmas paredes, quando um vento rasteiro aparecia prenunciando chuva.
A marchinha de sua campanha era a mais bonita e mais fácil de cantar, mas os favores de um médico novo que apareceu uma tarde, debaixo de discurso e foguetório, e logo se candidatou por outro partido, se pagaram nas urnas.
Na campanha, de nada adiantou a distribuição dos pães. José Vieira convocava os eleitores e do alto da calçada de sua casa abria sacos grandes de pão, despejando-os sobre a pequena multidão. Muitos disputavam agachados os pães na areia, e havia brigas por conta disso. Voltavam apressados para casa, sem barulho, diferente da ida, em que iam cantando “José Vieira, José Vieira, és a nossa salvação”. Sabia-se que na véspera o misto de Oscar Soares, carregado de sacos de farinha de trigo, encostava escondido atrás da padaria de Minu.

O tio era rico, tinha a maior loja da cidade. Mas a mulher, viciada em baralho, aos poucos foi esvaziando as prateleiras. E um dia José Vieira precisou de mais dinheiro para pagar as dívidas. Um advogado sabido o convenceu a assinar uma retrovenda. Venderia as propriedades, sob a condição de tê-las de volta tão logo saldasse o débito. José Vieira caiu no laço dos juros. Ele e a família por toda vida evitaram o vocábulo jurídico — uma palavra nova que andou sonora de boca em boca em Mombaça —, porque soava como sinônimo de estultice e da pobreza que os marcaria pelo resto da vida.

O imprevisível, a revelar amores, prata e ouro, traz também desgraças, algumas piores que uma retrovenda mal sucedida. Uma manhã, acordado aos gritos, José Viera se deparou no quarto dos fundos com um filho dependurado e com a língua de fora. Era o caçula e o mais querido, e até hoje não se sabe por que o menino de catorze anos amarrou uma corda no caibro, enlaçou o pescoço e saltou de um tamborete.

Da última vez em que o vi, já envelhecido, mancava da perna acometida de erisipela e era muito gordo. Manso como todos os seus irmãos, com um tique no pescoço que deslocava repetidamente a cabeça para a direita, ao fim de uma conversa ligeira abençoou-me.

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