Josefa de Óbidos: As influências do Barroco, a obra e a fé

Transverberação de Santa Teresa, de Josefa de Òbidos

Por Cíntia Daniele

1 INTRODUÇÃO

O presente ensaio será desenvolvido com base na vida da ilustre artista portuguesa Josefa de Óbidos. Nascida na Espanha, bem pequena foi com a família para Portugal, onde desenvolveu habilidades com as pinturas; era uma artista com interesses diversificados. Para Josefa, a vida era uma missão que ela tinha, sendo assim, produzia suas obras, não se interessando pelo julgamento alheio, manifestando sempre o que pensava. Quando morreu, acreditava já ter cumprido sua missão.

A artista recebeu influências do Barroco, o qual em Portugal esteve presente durante todo o século XVII até a metade do século XVIII. Caracterizado pelos elementos dramáticos, pelo contraste claro/escuro, entre outros, Josefa também utilizou tais elementos do estilo artístico para produzir sua intensa obra.

A obra de Josefa de Óbidos pode ser contemplada em diversos ambientes como igrejas, conventos e mosteiros; a Academia de Belas Artes também possui um quadro seu. A artista pintava os temas ditos sagrados com uma tradução nova, tal aspecto da vida dela será explorado neste ensaio, analisando alguns quadros da artista à luz da Bíblia Sagrada.

Assim, neste ensaio mostraremos a biografia da artista, algumas características do estilo que ela seguiu – barroco – e enfim a relação entre a obra e a fé de Josefa de Óbidos.

Natureza morta: pote e cestos com queijos, figos e cerejas, de Josefa de Óbidos

2 JOSEFA DE ÓBIDOS

Primeira filha de Baltazar Gomes Figueira – pintor português – e de Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero – espanhola -, Josefa de Ayalla Figueira nasceu na Paróquia de São Vicente – lugar onde também foi batizada -, em Sevilha, Espanha, no mês de fevereiro do ano 1630. Seu padrinho foi Francisco Herrera, célebre pintor barroco.

Com a jovem nasce seu grande talento. Com os ensinamentos do pai e com sua tamanha esponateneidade, começou a praticar a arte sem maiores influências. É enquadrada no movimento barroco, valorizando a imagem e se dedicando à arte religiosa, criando pinturas e gravuras que mostram uma Josefa feminina, gentil e de grande sensibilidade. Suas obras são assinadas com o seu nome e com o local onde a artista se encontrava. Alguns painéis assinou como Josefa d’Ayala em Óbidos, ficando conhecido pelos lusitanos e espanhóis por Josefa de Óbidos.

Josefa tinha dez anos quando foi com a família para Portugal, se instalando primeiro em Peniche, e em seguida em Óbidos – cidade natal do seu pai -. Quando adolescente, seus pais mandaram a jovem para o convento de Sant’Ana em Coimbra, onde recebeu aulas de pintura, além de ensinamentos religiosos. No entanto Josefa não permaneceu por muito tempo e regressou a Óbidos em 1653. Foi na cidade de Mondego que a artista de fato começou a pintar, provavelmente sua obra mais antiga é datada de 1644. Também fazia gravuras em metal, no estilo barroco. Seus traços inconfundíveis eram reconhecidos mesmo com a ausência da assinatura.

Sendo educada segundo a religião católica, foi devota e casta até à morte. Dessa forma, a grande maioria dos seus quadros retrata temas religiosos; eles encontram-se em Óbidos, na igreja de Santa Maria, em Cascais, na igreja matriz e em outros ambientes, como conventos, por exemplo. Os títulos dos seus quadros mostram a vida de fé que a artista tinha: São Francisco de Assis e Santa Clara adorando o Menino Jesus, Santa Maria Madalena, Natividade, Cordeiro Pascal, Adoração dos Pastores, São José e o Menino, Transverberação de Santa Teresa, O Menino Jesus Salvador do Mundo, Visão de São João da Cruz, Anunciação, Calvário entre outros.

Em uma época em que as mulheres geralmente não trabalhavam, ela conseguiu afirmar-se como excepcional artista. A sua fama levou-a a ser convidada pela Família Real para reproduzir a rainha D. Maria Francisca de Sabóia, mulher de D. Pedro II e da sua filha, a infanta D. Isabel Luísa Josefa. Josefa de Óbidos foi um dos nomes mais importantes da pintura barroca do século XVII em Portugal.

Faleceu em 22 de julho de 1684, tendo apenas 54 anos. Foi enterrada na igreja de São Pedro, em Óbidos e eternizada nas mentes e corações do povo que tanto a admirou. Assinou um testamento deixando a sua herança à mãe e às sobrinhas. Seu pai já havia falecido em 1674, momento em que a artista trabalhou mais intensamente para sustentar a mãe e as sobrinhas. O seu irmão Barnabé de Ayalla também foi pintor.

Suas obras estão em diversos museus portugueses e também nos acervos de importantes colecionadores lusitanos.

3 BARROCO

Como movimento cultural e artístico, o barroco se estende do final do século XVI até o início do século XVIII. Começa na Itália e alcança vários países europeus e algumas de suas colônias, como o Brasil. O desafio do barroco era representar um mundo instável, dessa forma, sua arte é caracterizada pelos contrastes.

A origem do vocábulo barroco é um tanto quanto imprecisa. Algumas etimologias propostas para definir o termo não merecem atenção. Segundo Vítor Manuel de Aguiar e Silva, no livro Teoria da Literatura, página 439: “Durante muitos anos, a doutrina mais aceita fazia derivar ‘barroco’ do vocábulo baroco, pertencente à terminologia da lógica escolástica, que designa um silogismo em que a premissa maior é universal e afirmativa, a menor, particular e negativa, e a conclusão, igualmente particular e negativa: (…)”. A designação do termo barroco como uma pérola de forma irregular é para os estudiosos uma “conclusão bem fundada”.

Estudaremos as transformações verificadas na passagem do estilo do Renascimento para o estilo do barroco, por meio de cinco categorias que Wofflin de Alois Riegl utiliza para caracterizar o barroco como um estilo que se desenvolve a partir do classicismo do Renascimento:

1 Passagem do linear para o pictórico: O caráter linear é próprio da arte renascentista; o caráter pictórico é próprio da arte barroca e conduz à confusão das coisas. A pintura barroca valoriza a cor e não a linha.

2 Passagem da visão de superfície à visão de profundidade: Os elementos dispostos em uma superfície, segundo planos distintos, é próprio do Renascimento; já a arte barroca despreza a superfície, sobrepondo os elementos de uma composição segundo uma ótica de profundidade.

3 Passagem da forma fechada à forma aberta: A arte do Renascimento é um todo fechado, rigorosamente delimitado, regular e simétrico; enquanto a arte do barroco opõe-se a este ideal de um modo bem delimitado, é assimétrica e cria a ideia de instabilidade.

4 Passagem da multiplicidade à unidade: No Renascimento cada parte possuía um valor próprio, proporcionando harmonia a sua arte; no barroco todas as partes são subordinadas a um elemento principal.

5 Passagem da claridade absoluta à claridade relativa dos objetos: A arte renascentista possui objetos com uma qualidade plástica que concede uma claridade perfeita à composição; já na arte barroca, a luz e a cor muitas vezes não definem as formas nem dão destaque aos elementos mais importantes.

Essas categorias definem algumas características da arte do barroco, como uma arte pictórica, com visão de profundidade, aberta, com unidade e com claridade relativa. A arte barroca possuía cenas que são definidas pela oposição claro-escuro; com a força das cores quentes, da gradação da claridade os pintores barrocos eram sempre realistas, manifestando sempre seus pensamentos por meio das telas. Esse era o objetivo de Josefa de Óbidos, destaque no barroco português e tema deste ensaio.

4 OBRA E FÉ

A grande Josefa de Óbidos pintou brilhantemente painéis religiosos e naturezas mortas. Neste ensaio enfatizaremos duas pinturas baseados em temas religiosos, os quais estão presentes na Bíblia Sagrada. Para isso, serão utilizados trechos da Bíblia, de modo que venha esclarecer o sentido de alguns quadros da pintora barroca.

O primeiro dos quadros que analisaremos é o “Calvário”, óleo sobre a madeira, pintado em 1679, mede 160 cm de altura e 174 cm de largura e pertence ao Santa Casa de Misericórdia de Peniche. Possui cores que se destacam em relação às formas, apresenta diferentes tons de marrom e de vermelho – cor que representa o sangue de Jesus na cruz. Observando a Bíblia Sagrada, no terceiro livro do Novo Testamento – Lucas, capítulo 23, versículo 33 está escrito: “E quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram e aos malfeitores, um, à direita, e outro, à esquerda”. Jesus foi crucificado num local fora da cidade, conforme diz o texto, o local era chamado “A Caveira”, a razão para ser chamado dessa forma não é conhecida, porém sabe-se que o termo grego para caveira corresponde ao latim Calvário, da forma que está na versão bíblica em latim. Para os cristãos, o Calvário é a expressão do amor de Deus, é uma revelação de amor; nele podemos contemplar o meigo Salvador, o Senhor na cruz morrendo de nós se compadeceu e enfim deu-nos seu perdão. Outro trecho bíblico, este no livro de João diz “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Sendo o Calvário um lugar tão relevante para os que possuem fé, assim como Josefa de Óbidos, foi escolhido por ela para ser representado. Na obra vemos o Jesus crucificado, mensagem pregada pelos cristãos e que atravessa os séculos, sendo pintada por Josefa e reconhecida até hoje.

O segundo quadro a ser analisado é “Menino Jesus Salvador do Mundo”, óleo sobre a tela, pintado em 1673, mede 95 cm de altura e 116,5 cm de largura e pertence à Igreja Matriz de Cascais. No Evangelho de Lucas podemos ver o nascimento do Salvador, “pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.”, no capítulo 2, versículo 11. Como cristãos acreditamos no Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz, e é este belo menino, maravilha da sabedoria divina que é retratado de forma única por Josefa de Óbidos. Jesus resgataria o dom da vida eterna, supriria todas as reais necessidades dos filhos e inauguraria um reinado de paz, por meio da quebra da maldição do pecado e da morte. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Cheia de fé e de dons, Josefa reproduz o homem que é Deus, Jesus e o Pai são um.

É interessante observar os quadros analisados, pois as cenas por eles representadas são de conhecimento universal, inclusive são celebradas as festas da Páscoa e do Natal, que tem como objetivo maior o conteúdo desenvolvido nesta última parte do ensaio. A nova tradução que Josefa de Óbidos deu a esses temas sagrados deve ser mais reconhecida, pois possuem um grande significado, não apenas religioso, mas de características barrocas presentes em cada um deles.

A arte de Josefa de Óbidos é singular, brilhante.

5 CONCLUSÃO

Diante das pesquisas feitas e dos textos lidos para a elaboração deste ensaio, comprovamos a importância da arte de Josefa de Óbidos para o barroco português. Seus quadros cheios de fé mostram a vida religiosa que sua família seguia. Sendo a ideologia do barroco fornecida pela Contra-Reforma, seus artistas tinham como um dos objetivos desenvolver uma arte que envolvesse a fé católica, o que pôde ser visto na relação feita no presente ensaio entre a obra e a fé de Josefa de Óbidos.

Em meio a tantos nomes que se destacaram no barroco português, como por exemplo, o famoso Padre Antônio Vieira, Josefa de Óbidos também conseguiu o seu destaque. O exemplo do seu pai a inspirou na pintura dos quadros, e dificilmente ela não teria seguido essa carreira tão bela e difícil. Além da pintura, também se dedicou à estampa, à gravura, à modelagem de barro, ao desenho de figurinos, de tecidos, de acessórios vários e a arranjos florais.

Dessa forma, neste ensaio pudemos explorar as características do barroco, a vida e a obra de Josefa de Óbidos, e de uma maneira singular analisá-la segundo as Escrituras Sagradas, que de certa forma foi algo que lhe inspirou, caso contrário não teria feito telas baseadas em temas religiosos.

Josefa de Óbidos é uma artista que deve receber mais destaque, de modo que os estudantes de modo geral reconheçam a sua obra e a sua importância.

REFERÊNCIAS

• SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e. Teoria da literatura. 5º Ed, Coimbra: Livraria Almedina, 1983.

• http://www.pitoresco.com/portugal/portugal/antiguidade/josefa.htm Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://www.arqnet.pt/dicionario/obidosjosefa.html Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://aarteemportugal.blogspot.com/2011/01/josefa-de-ayala-dita-josefa-de-obidos.html Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://www.infopedia.pt/$josefa-de-obidos Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://tv0.rtp.pt/gdesport/?article=629&visual=3&topic=1 Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://sexoforte.net/mulher/index.php?option=com_content&view=article&id=1205%3Asofonisba-anguissola-pintora-do-renascimento&catid=79%3Agrandes-mulheres&Itemid=113&limitstart=1 Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://www.fotosantesedepois.com/2011/01/28/josefa-de-obidos/ Acesso em 27/11/2011 às 13:14

• http://www.brasilescola.com/historiag/a-arte-barroca-na-pintura.htm Acesso em 28/11/2011 às 10:53

• http://www.ci.uc.pt/artes/6spp/josefa_de_obidos.html Acesso em 28/11/2011 às 16:23

• http://netopedia.tripod.com/Literatura/barroco.htm Acesso em 29/11/2011 às 14:14

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Trabalho apresentado como requisito para avaliação na disciplina de Literatura Portuguesa I, do segundo semestre do ano letivo de 2011.

Professor Márcio de Lima Dantas

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