Julho é Sant’Ana

Quando Julho chega o Seridó muda o semblante. É visível a transformação. Até o clima ajuda, ficando mais ameno. Julho é Sant´Ana! É o mês da festa e todo ano, com a permissão de Deus, a tradição se renova em Currais Novos, Santana do Seridó, Santana do Matos, Campo Grande, Caicó, dentre outros recantos que buscam a intercessão da padroeira dos sertões. Ocorre que, sendo Caicó a sede da Diocese e a mais antiga cidade da Região, a Festa vai além dos limites municipais, se torna nacional, uma tradição que é patrimônio do Brasil sem perder – o que parece mágico – a condição de pertencer individualmente a cada devoto. É, mais ou menos, como expressa a poesia do caicoense Manoel Dantas:

Toda Caicó se engalana
Quando chega o mês de julho,
Outra Festa de Sant’Ana
Do seridoense orgulho…
Devoto, rezo contrito,
E neste solo bendito
O meu rosário debulho

Sendo uma boa mistura de emoções, Francisco de Assis Medeiros, certa vez, cravou em artigo publicado no Blog Bar de Ferreirinha: “Caicó nesses dias se transfigura ora rainha ou príncipe, ora vaqueiro corajoso ou touro bravio. A tradição secular mistura-se num só corpo de festa com os costumes mais modernos. Velhos e jovens, abraçados à mesma bandeira religiosa, celebram o vigor da cultura seridoense, sempre renovada através dos séculos. É o amálgama de dolorosos esforços e sofrimentos nas secas e do delírio da alegria nos anos de inverno. A simbiose dos contrastes da vida sertaneja no Seridó potiguar. Somente em Caicó, e em nenhum outro lugar dos muitos que conheço, a vida corre assim, tão alegre quando chove e tão festiva quando não chove. Aqui o homem é imune aos percalços do tempo. Chova ou faça sol, a festa não para. A de Sant’Ana é a maior delas”.

E a Festa, de fato, é cada vez maior. Tem gente para todos os eventos e gostos. É frevo de dia e de noite, como repetia um amigo mais velho. De todo modo, a pedra fundamental a amparar tanto movimento ainda é a fé. A Festa, sob a análise religiosa, foi patrocinada para homenagear Ana, mãe de Maria, avó de Jesus. Com ela, também o esposo Joaquim é reverenciado. Aliás, 26 de julho, a cada ano, é, para a Igreja Católica, o dia de reverenciar a memória do casal. A doutrina católica ensina que, em síntese, os santos Ana e Joaquim são intercessores diante de Deus e que, estando na visão beatífica, ouvem as nossas preces e se somam ao nosso esforço diante do Altíssimo.

A tradição conta que o casal alcançou a santidade pela perseverança da oração e pelo fruto sagrado da união conjugal. Mesmo com idade avançada, pediam para ter descendência. A esterilidade era causa de sofrimento e até vergonha na época, segundo o relato de alguns pesquisadores. Joaquim e Ana alcançaram a Graça, foram atendidos. Da fé e da fidelidade a Deus, nasceu Maria que, adiante, se tornou mãe de Jesus Cristo. O restante da história a grande maioria conhece e nela muitos professam crença.

No Caicó de todos nós é bem antiga a devoção a Sant’Ana. Remonta aos primeiros colonizadores e a vinculação da Senhora Sant’Ana aos sertões e suas atividades de criar e plantar. O marco histórico de 1748 é sempre lembrado com destaque, porque no mês de Julho daquele ano se deu a instalação da Freguesia Mater e a primeira procissão de Sant’Ana em Caicó. Muitos anos depois, em 1939, foi criada a Diocese de Caicó, instalada solenemente no dia 28 de julho de 1940, tendo como padroeira justamente a Senhora Sant’Ana.

É, enfim, uma longa e boa história… Em apertado resumo é uma tradição bonita de fé e alegria onde o povo, em encontros, reencontros e abraços, demonstra uma estima especial pela Padroeira e deu a ela um sobrenome próprio. Se na Igreja ou em outros lugares a mãe de Maria, avó de Jesus, é Ana, aqui, a mesma Venerável Senhora, é Sant’Ana de Caicó!

Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. João da Mata 19 de julho de 2016 9:45

    Salve Sant`Ana

    Moxotó, camará, catingueira
    Sustentam a vida
    A chuva acordava a terra num
    Odor de zimbro e chumbo
    Meu sertão caritó
    Serra Negra, Acari.
    Caicó e Jardim do Seridó
    Thomas- o filho – cronista
    De homens-ferros,
    Cachimbos, galegos
    Judeus e Portugueses
    A rede suspende a vida – letargia -morte
    Meu avô morreu de cezão aos 33 anos
    O bisavô mestre-escola
    Minha avó dormia só uma madorna e
    Faleceu de arteriosclerose.
    Mamãe solidão
    Vivendo estamos doendo
    Não há fim para essa lembrança.
    Engenho torto
    Açúcar o sangue
    Chouriço espécie
    O sol a carne
    Queijo de coalho e lingüiça
    Não, não foi Deus …
    Ninguém entende
    Sefus gões
    Quadrivium
    Guerra – o Padre
    O sobrado virou museu
    Sant´anna; ensina
    essa menina!

    João da Mata Costa

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