A justiça de Ian McEwan

Por Paulo Roberto Pires
BLOG DO IMS

Já ia escrevendo que Ian McEwan é que nem Woody Allen, sempre parecido com ele mesmo e sempre valendo a pena. A comparação é injusta, admito, já que, até pela longevidade e a obra prolífica, o cineasta é muito, mas muito mais irregular. Mas o paralelo só me veio à cabeça porque em The Children Act senti pela primeira vez um (leve) cheiro de fórmula. O romance, que sairá no Brasil como A balada de Adam Henry (imaginem um romance chamado Estatuto da criança e do adolescente ou algo parecido), é o 15o título de ficção de uma carreira iniciada há quase 40 anos, em 1975, com Primeiro amor, últimos sacramentos. E combina explicitamente cenários, situações e estratégias narrativas familiares aos leitores de McEwan – e hoje eles são legião em todo o mundo.

Fiona Maye, a protagonista, é uma importante juíza da Corte Suprema especializada em disputas familiares. É profissional conceituadíssima, como o são Henry Perowne, o neurocirurgião de Sábado (2005), e Michael Beard, o cientista vencedor do Nobel de Solar (2010). Como eles, faz parte de uma upper class londrina próspera e intelectualizada, todos eles envolvidos em maior ou menor grau com o noticiário – sobretudo nas questões que extrapolam o estritamente local. A ação de A balada de Adam Henry tem contrapontos discretos na conflagração da Síria, assim como o Iraque e as políticas públicas sobre o aquecimento global ajudam a compor os dois outros personagens, o seu modo de estar no mundo.
Os dilemas morais, a tragicidade das escolhas que a vida impõe, são um importante leitmotiv na mundo de McEwan. É assim na terrível cena de abertura de Amor sem fim (romance de 1997 em que um balão desgovernado se solta a despeito do esforço de personagens sobre os quais passa a pairar a culpa de ter afrouxado primeiro a corda), no virtuoso final de Na praia (2007) e, é claro, no soberbo Reparação (2001), uma espécie de sinfonia das responsabilidades, da razão e emoção emboladas, do que se vê e se quer ver. Em A balada de Adam Henry, essa dúvida essencial sempre presente é didatizada no cotidiano de uma juíza, que em última instância ganha a vida solucionando dilemas invariavelmente espinhosos da vida alheia. E Fiona enfrenta uns bons impasses: gêmeos xifópagos devem ser separados mesmo sabendo-se de antemão que um deles irá morrer? Pais amorosos mas desajustados têm o direito de criar os filhos que amam?

No novo livro, há ainda a marca inconfundível do Ian McAbro, apelido que ele já fez mais por merecer, como no horror explícito de Cães negros (1992), O jardim de cimento (1978) ou Ao Deus-dará (titulo bizarro para The Confort of Strangers, de 1981). Gosto mais do terror insidioso, que chega sempre do mesmo jeito: descreve-se uma situação de tranquilidade, não raro de conforto material, que vai aos poucos se tensionando, se crispando na lenta materialização do que pode ser um susto, um drama ou mesmo uma tragédia – ou os três alternadamente. Tenho para mim que a eficácia dessas narrativas está menos na incrível habilidade técnica de McEwan, sempre impressionante, do que na filosofia de vida que traduz, da reiterada lembrança, incômoda, de que vivemos em precariedade permanente, sempre por um triz, sempre a um passo do descontrole e da aniquilação moral ou mesmo física.

Partindo deste princípio, a noite de domingo de Fiona segue lenta e melancólica como são as noites de domingo no Rio de Janeiro ou em Londres, da mesma forma como seguia normal, atribulado, o sábado de Henry Perowne no romance de 2005. Tapetes caros, móveis de design, gravuras, uísque, musica clássica. Aos 59 anos, sem filhos, ela estuda um processo quando Jack, mesma idade e seu marido há 30, reivindica a chance de ter mais uma paixão na vida, levar adiante um affair incerto com uma jovem – há quanto tempo não transam?, pergunta ele. Este é, no entanto, apenas o primeiro “toque McAbro” do autor. A contraprova de que a paz é uma quimera e a existência, um tormento, vem do processo de Adam Henry, um adolescente de 17 anos que agoniza de leucemia e, pressionado pelos pais, decide entregar-se à morte, já que, como Testemunha de Jeová, não pode aceitar a transfusão de sangue.

A jurisprudência, os peritos, os pais de Henry e a assistente social encarregada do caso não são, para Fiona, suficientes. Ela precisa tomar uma decisão rápida – a doença avança – e decide ir ao hospital para ouvir o próprio interessado, procurando assim embasar a sentença que permite ou não tratar alguém contra sua vontade. Numa cena memorável, a juíza e o rapaz falam sobre a vida, a música e a poesia. A partir desse encontro ela embasa a decisão que, literalmente, muda os rumos da história: do paciente, é claro, e dela, personagem admirável na tensão permanente entre a convulsão emocional que vive no casamento e o equilíbrio, real, com que conduz o processo. Dizer mais do que isso, aqui, é spoiler mesmo, pois a precisão de McEwan como narrador não deixa gordura em exatas 200 páginas na edição que sairá pela Companhia das Letras este mês.

Assim como Fiona, que ao longo do romance se equilibra precariamente entre a austeridade profissional e a desordem sentimental, a narrativa caminha no fio da navalha entre a elegância clássica do autor e um discreto flerte com o clichê. Mas os abastados senhores de meia-idade com problemas sentimentais, o uso ostensivo de referências da música erudita e os arroubos sentimentais não chegam a matar o que há de profundamente McEwan neste Ian McEwan.

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