Kafka na voz de um rabino

Por José Castello
O GLOBO

Todos conhecem minha paixão desmedida por Franz Kafka. É mais que paixão: sinto como se densos laços de sangue nos ligassem. É, posso dizer sem medo de errar, uma obsessão. Não sou judeu, não falo o alemão, meu pai não era comerciante e só estive em Praga uma vez, como turista.

Sei que ligar-me a Kafka soa pretensioso e até afetado. Mas não estou me comparando a ele: estou dizendo, apenas, que, desde menino, Kafka se transformou em uma ideia fixa que jamais consegui derrotar. Mais que isso: em um combustível de minha vida.

Ciente disso, meu amigo Sérgio Pantoja _ com quem dividi, na adolescência, os bancos de colégio e com quem divido, até hoje, fortes laços afetivos _ me trouxe de Buenos Aires um exemplar de Galáxia Kafka, coletânea de contos organizada por Edgardo Cozarinsky (Adriana Hidalgo Editora,2010). Nela encontro 18 escritores que dividem comigo o mesmo mal ou, talvez dizendo melhor, o mesmo bem. Por escolha ou, ao contrário, sem saber disso, todos estão marcados, em definitivo, pelas palavras e pela figura de Franz Kafka.

Lembra Edgardo que, em “Kafka e seus precursores”, ensaio de 1951 incluído em Outra inquisições, Jorge Luis Borges reconhece a voz e os hábitos de Kafka em uma grande variedade de escritores. Ele adota agora a tese de Borges, apoiando-se, ainda, em uma sentença de T. S. Eliot: “O passado deve ser alterado pelo presente tanto como o presente se nutre do passado”. Vendo as coisas desse modo, pode dizer, como Borges, que escritores do passado como Zenão, Han Yu e Kierkegaard foram kafkianos antes de Kafka. Kafkianos cegos, mas nem por isso menos potentes.

Entre esses precursos inconscientes, Edgardo inclui o rabino ucraniano, do século 18, Nachman de Breslov, bisneto de Baal Shem Tov, o fundador do hassidismo, movimento ortodoxo do judaísmo. Do rabino, ele seleciona uma impressionante parábola, “História do rabino e seu filho”_ narrativa que me ajuda não só a ler Franz Kafka, e minha obsessão por ele, mas a ler a própria leitura que dele faço.

Estudioso fiel da Torá, um rabino se angustia porque seu filho não gosta de ler. O jovem adquiriu imensos conhecimentos, mas sua sabedoria não vem da palavra escrita, e sim de sua alma. No período em que se dedicou aos livros, o filho do rabino tinha o sentimento de que se perdia na imensidão de um deserto. “Seu coração ficava tenso como um arco que vai a lançar uma flecha e não como as cordas de um instrumento que executará belas melodias”.

Desiste, e passa a ler o mundo de sua própria maneira _ que o pai vê como iletrada. Amante da reflexão e do silêncio interiores, o rapaz tem a ideia de procurar um zadik, místico que se ortogou o poder de ler as almas, e não os livros. O pai o proibe, negando-se a aceitar que seu filho busque a perfeição espiritual junto a um homem tão extravagante.

O filho insiste que precisa fazer a visita, caso contrário a vida perderá todo o significado para ele. O pai, enfim, cede e resolve acompanhá-lo na viagem, mas estabelece uma regra: devem retornar se um acidente qualquer aparecer em seu caminho, o que seria um sinal de mau agouro. Repetidas vezes, um pequeno acidente interrompe a viagem do rabino e de seu filho até a cidade do zadik. Por fim, desgostoso, o rapaz morre sem conseguir chegar à resposta que procurava.

A partir daí, acompanhamos as desventuras do pai em busca da reparação do mal que fez ao filho. Até que a narrativa se encerra abruptamente, em um momento no qual o rabino se encontra paralisado de terror. Só acreditava na leitura ortodoxa _ aquela que se apega ao rigor das palavras, à reflexão racional e ao texto. Para ele, a sabedoria era o resultado do esforço, da dedicação, da concentração, da postura inflexível.

Não admitia que ela pudesse vir de outras experiência _ de outras formas de leitura, mais intuitivas, menos distanciadas e mais apaixonadas. Para o rabino, não havia boa leitura sem atenção minuciosa, clareza e precisão. Toda leitura turva e flutuante, toda leitura transpassada pela emoção e pelos nervos, toda leitura que incluísse a dúvida e a cegueira se tornava inaceitável.

Em busca de um mestre que o amparasse nessa leitura apaixonada das coisas, seu filho não só fracassou, mas morreu. Cúmplice de sua morte, o pai não conseguiu entender que a sabedoria tanto pode estar nos livros, como fora deles. Não se trata só de uma leitura _ é mais uma atitude, uma posição diante da existência.

Depois da morte do rapaz, o rabino passa a sofrer de uma dor desordenada, que não corresponde a palavra alguma. Uma dor silenciosa e intraduzível, com que é obrigado a conviver e de que passa a sofrer. Que se torna sua obsessão. Começa, tarde demais, a entender a busca (obsessão) do filho morto. A entender sua dor sem remédio. A entender que a razão não pode se descolar da paixão, ou se embrutece e enlouquece.

Penso no rapaz, aflito com suas dúvidas e suas perguntas, e nele vejo um ideal de leitor. Alguém que entra nos livros não apenas com a mente, mas com os nervos e o sangue. Alguém que se desarma, que deixa de lado a bengala do saber acumulado, antes de abrir a primeira página. Que lê sem saber o que busca e sem ter certeza do caminho que escolhe. Alguém que se entrega.

Visto de longe pelos olhos severos do rabino, esse leitor apaixonado parece desprezar o pensamento. Ao contrário: só ele consegue vitalizá-lo. Só ele confere sentido às palavras.

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