Kendo Deuxglik e a arte do grafite francês em Natal

Em 2005, o jovem parisiense Octave Unglik cruzou o Oceano Atlântico com um grupo de amigos e desembarcou no Brasil.

Eles tinham acabado de pintar algo rendoso o suficiente para bancar a viagem a São Paulo, uma das mecas do grafite, arte de essência urbana, por vezes, vítima de profunda ignorância.

Em meio à selva de concreto, onde morou por um ano, a experiência ao lado de grafiteiros brasileiros, donos de técnica e inventividade única, referência mundial, moldou ideias latentes naquele francês então com 25 anos de idade.

Da Paulicéia, partiu para o norte brasileiro, Bolívia e Peru, de mochila nas costas e a cabeça a mil.

Ônibus, barco e carona foram seus meios de transporte.

Os meses correram, correram, correram e a decisão de ficar nos trópicos surgiu com naturalidade.

Passou dois anos em Brasília, na época do Ano da França no Brasil (2009).

Kendo_Baiana Bordeaux
Kendo Deuxglik explora brasilidade em sua arte, como nesta baiana pintada em um muro de Bordeaux; ele vive entre Brasil e França desde 2005; sua exposição PalavrArte, na Aliança Francesa, conta com 12 telas.

“Sempre fui de viajar. Não aguento ficar, tipo, três anos no mesmo lugar”.

Na urbe projetada no Planalto Central, ficou bestificado com a cidade e participou de um projeto coletivo para pintar 25 mil metros quadrados do Centro Cultural Renato Russo.

Desde então, pula entre Europa e América do Sul com uma lata de spray na mão, transmutado em Kendo Deuxglik, grafiteiro residente em Natal há oito meses, cuja exposição PalavrArt está em cartaz na Aliança Francesa até a segunda quinzena de junho.

“Natal é uma cidade muito linda. Agradável no dia a dia. É sempre quente, isso é muito bom pra europeu. Podemos viver de bermuda, o que para nós é um luxo. O litoral é muito lindo. Na Europa a arquitetura é mais valorizada, tem prédios antigos. Aqui tu tem prédio bonito também, mas com a pintura caindo. Aqui também não tem essa cultura de andar na rua. Aqui tu sai as dez horas [22h] e não tem ninguém na rua”.

Kendo é de Paris, mas mora em Bordeaux, porto no departamento de Gironda, famoso por suas vinhas.

Diz que assim fica mais perto da natureza.

“São Paulo é interessante para o grafite. Lá tem um tsunami de pintura. A gente conseguiu ganhar uma grana num trampo e decidiu ficar com essa grana para fazer uma viagem juntos. E assim chegamos sem conhecer ninguém. Depois de uma semana a gente já tinha muitos amigos para fazer pinturas e depois viajamos pelo Brasil, pelo Sul, Nordeste, e assim fiquei meio apaixonado pelo Brasil. E decidi voltar tendo contatos para poder trabalhar aqui”.

Era o início da vivência neste paraíso conturbado.

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Kendo reside em Natal há oito meses, onde montou exposição PalavrArt na Aliança Francesa até a segunda quinzena de junho. Em 2009, participou de um projeto coletivo em Brasília para pintar 25 mil metros quadrados do Centro Cultural Renato Russo.

Grafite na modernidade

Como nem sempre Paris é uma festa, voltemos ao passado, para o começo dos anos 1990.

Kendo tinha 13 anos e vivia solto pelas ruas, skate na mão, vulnerável a tudo de bom e de ruim.

Um sujeito lhe abordou com uma caneta especial e sugeriu que ele rabiscasse palavras em muros alheios.

“Entrei nisso como skateboarder. Moleque que fazia besteira na rua, mas não sendo bandido mesmo”.

Seus pais estavam em processo de separação, o que deixava o garoto livre para testar limites.

“Mas eles me passaram valores de ser bom [como pessoa]. Sempre me deram muita liberdade. Fui muitas vezes preso, pela coisa do grafite e do tag, que na verdade é mais perto da pichação, de escrever seu nome de um jeito rápido. Fiquei uma noite na delegacia, minha mãe veio me buscar, mas tudo bem. Era uma época que meus pais tiveram muitos problemas, estavam separando, problema de trabalho. O lado bom é que tive muita liberdade. Podia brincar na rua”.

E então toda uma linguagem, aliás, toda uma forma de viver surgiu.

A empolgação com a arte do grafite exigia novos conhecimentos – arte esta com forte influência francesa, apesar da clássica origem nova-iorquina; pois a França é o berço do Impressionismo, talvez o movimento na pintura que mais se assemelhe ao que ocorreu com o grafite, longe de temas conservadores, nobiliárquicos, voltado para ‘devaneios’ pictóricos bombeados em jatos de tinta, para muitos, incompreensíveis.

Diante de uma tela ou de um muro grafitado, o leigo sabe que ali tem um texto, mas espera por algo que o ajude a decifrá-lo, algo como uma legenda.

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Trabalhos sob encomenda são aceitos, como esta casa no condomínio Villagio Venezia, na praia de Pirangi; “Seu preço será meu preço”, disse o francês de olho no comércio de arte em Natal

É por evitar a simples explicação, e por extrapolar formas e conteúdos, por vezes, caros a nós outros, urbanoides, que o grafite tornou-se universal.

Se a visão brasileira recai sobre áreas degradas, como propícias ao grafite, o francês Kendo ressalta que, hoje, uma cidade que se diz moderna trata de aproximar esse tipo de arte do cidadão comum, ao abrir espaço para grandes obras em pontos estratégicos – inclusive com financiamento público.

“Fora dessa classificação de diferença social, um muro que é feio não merece uma pintura? Mas o artista tem que se esforçar para fazer bem. O problema é que para pintar um prédio desse ele não pode sustentar o valor material. É um trabalho para prefeitura e moradores. Revitalizar um bairro através da pintura é um investimento muito barato para uma prefeitura. O mundo inteiro está aberto nessa coisa de pintar os muros. Eu acho que se uma cidade ela quer ser da modernidade, ela tem que ter pontos onde tem pintura que traz muita felicidade, para todo mundo, até para os conservadores”.

 

Mano do arrondissement

O brasileiro que conversa com Kendo toma um susto com sua habilidade na língua portuguesa, sobretudo após saber que nenhum curso foi feito.

“Aprendi tudo com grafiteiros, na rua”.

Gírias, palavrões (usa sem abusos e os menos cabeludos), parte do linguajar malandro que pode levar tempo para ser assimilado por um nordestino do interior é dominado com facilidade pelo francês de 36 anos de idade.

Sua exposição PalavrArt foi aberta na semana retrasada e conta com 12 telas.

Ele tem noção que o mercado de artes plásticas em Natal é pequeno.

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“[…] Revitalizar um bairro através da pintura é um investimento muito barato para uma prefeitura. O mundo inteiro está aberto nessa coisa de pintar os muros. Eu acho que se uma cidade ela quer ser da modernidade, ela tem que ter pontos onde tem pintura que traz muita felicidade, para todo mundo, até para os conservadores”.
Para grafiteiros, então, um sonho.

Kendo diz que nenhum deles vive somente do trabalho de pintar muros ou telas.

No entanto, viver de arte é coisa para poucos em qualquer lugar do mundo.

“Quem entra numa exposição te diz que está lindo, até se ele pensa que está feio. Tem que tocar algumas pessoas aqui. A dificuldade é no mundo inteiro. Tem que conhecer algumas pessoas. É tão luxo poder pagar suas contas fazendo pintura que não deve cair do céu assim. Aqui em Natal não consegui fazer isso. Só na França. Aqui não tem grafiteiros que vivem do grafite. Em São Paulo e no Rio tem”.

Pergunto preço de uma tela de sua autoria.

“Seu preço será meu preço”.

Apaixonado por caligrafia, cores e espaço, ele é formado em artes plásticas e fala que a inspiração veio do telescópio Hubble e do escritor, ilustrador e piloto Antoine de Saint-Exupéry.

“A universidade na França de artes plásticas te dá mais o pensamento de como saber usar a mão. Mais o conceito. A ideia. Eu aprendi muito, mas vi que eu não queria algo tão conceitual. E fui para o grafite. Estou mais na poesia do que no conceito, na verdade”.

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“Entrei nisso como skateboarder. Moleque que fazia besteira na rua, mas não sendo bandido mesmo”.

Demasiado humano

Gosto de acreditar que a experiência direta da arte pode causar uma profunda sensação de ignorância.

Por vezes, quadros, esculturas, poemas, sonoridades reverenciadas por gente que você admira causa uma estranheza difícil de ser superada.

Com o grafite, em uma mente obtusa, acontece algo parecido – a diferença é que pinturas são multicolores, exuberantes, muitas vezes realistas.

Está lá na rua, de graça, à vista de todos.

O sujeito passa diante de um desenho vistoso e entorta o nariz.

Pergunta: ‘Isso lá é arte?’.

Mal sabe ele que é das mais respeitadas e caracterizadas por artistas brasileiros.

Kendo explica a razão.

“Graças a uma falta de material, o Brasil conseguiu criar um estilo próprio. Trabalhar com rolinho e tudo. É um jeito de pintar, de ver o mundo fora do dogmatismo americano, que tinha na França. A França era uma cópia dos Estados Unidos. Quando cheguei aqui, já era outra coisa. Aqui tem a liberdade, o lado relaxado. A diferença é a mesma que tem no futebol, por exemplo. Mais artístico, mais humano, mais fluido. E na pintura a gente sente a mesma coisa. Menos pressão, menos barreiras, mais liberdade. Também o uso das cores. Porque tu vive numa sociedade que sempre tem sol, cores na rua. Se tu vai na França, por exemplo, no inverno, todo mundo está de cinza, preto e bege. Eu peguei essa liberdade que aqui tem nas cores para usar nas minhas pinturas”.

Kendo_Candelária Monumento NiemeyerUm dos trabalhos de maior impacto produzido por Kendo em Natal foi o muro pintado no Presépio projetado por Oscar Niemeyer, na avenida Prudente de Morais, numa parceria com o grafiteiro potiguar Pok.

Mas o traço original dos grafiteiros brasileiros sofre, como em todo canto, com os efeitos da era digital.

“Hoje, com a internet, todo mundo tem a mesma cultura. Esse boné tem no mundo inteiro. No pensamento é igual. Tu tem estilo de grafite paulista em Berlim e tem estilo alemão em São Paulo. Hoje é mais a personalidade. Tem um cara foda lá no Japão, ele será conhecido”.

Em julho, Kendo Deuxglik volta para mais uma temporada na França.

É por lá que ele faz dinheiro, enquanto flerta com natalenses colecionadores de arte.

Entre o clima intimista de uma exposição, com obras menores, feitas na solidão, e o caráter explícito de um muro de uma casa ou prédio qualquer, salta o apuro de um artista francês em processo de sedução de um público incipiente, porém, curioso.

“Relação humana é importante. Pra mim, fazer grafite numa rua é tão mais engraçado fazer com outras pessoas. Dividir momentos com os outros, fazer uma criação junto. Se eu quero fazer algo sozinho, eu vou fazer uma tela. Mas um muro? É o que eu acho”.

Fotografias de Kendo Deuxglik: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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