Kurosawa e Jodorowsky: a simbiose da grande literatura e do quadrinho

Kurosawa e Jodorowsky: a simbiose da grande literatura e do quadrinho com
o cinema

A vida é tão curta, / se apaixone querida donzela, / enquanto seus
lábios ainda são rubros. Kurosawa (FOTO)- Viver 1952

Todas as artes estão relacionadas, e isso me adverte. Os “plongé e
perspectivas dos quadrinhos – já centenário, foram utilizados no cinema.
Os quadrinhos, por sua vez, devem muito aos folhetins radiofônicos.
Lembro com saudades das novelas “ronda dos fantasmas” e “Jerônimo, o
herói do sertão”. Assustado e aventureiro percorri os becos da infância.
Depois fui vender revistas em quadrinhos, sem capa (muito mais barato),
nas portas dos cinemas e escolas. Muitos quadrinhos foram parar nas
telas do cinema. Muitos cineastas atuaram nas duas mídias. O Grande
Orson Wells fez época no rádio, antes de se consagrar no cinema.Em 1938,
o futuro diretor de Cidadão Kane produziu uma transmissão radiofônica
intitulada A Guerra dos Mundos, adaptação da obra homônima de George
Wellscausou pânico na população que pensava está sendo invadida por
marcianos. Federico Fellini desenhou o Flash Gordon e era fascinado pelo
“Mandrake”, do Falk e Davis. O grande ator italiano Marcelo Mastroianni,
dirigido pelo diretor de “A Doce Vida” tem muito do Mandrake.Diria mais;
não é possível conhecer a história da arte sem passar pelo genial e
eterno Fellini.

Outro grande diretor de teatro e cinema e roteirista de quadrinhos foi o
genial Alejandro Jodorowsky. Em 1957, Jodorowsky fez o filme “La
Cravate”. Um filme mudo rodado em Paris cujo roteiro era baseado num
conto de Thomas Mann, em que uma garota vende cabeças. Esse magnífico
diretor cult e anti-roliúde fez ainda os filmes A Montanha Mágica, El
topo e Fando y Lis. Filmes inquietantes, repletos de alegorias e
simbolismos. Filmes onde você pode encontrar o universo fascinante de
Frida Kahlo, o realismo fantástico, o surrealismo e o escambal.
Jodorowsky é um Chileno- Aquariano meu próximo. Nos quadrinhos ele se
imortalizaria como roteirista de alguns dos quadrinhos mais fascinantes
dos tempos modernos. Seus quadrinhos em parceria com o grande Moebius
(Incal)são obras primas.

No ano de 2010 foi comemorado pelos amantes da sétima arte o centenário do maior diretor de cinema japonês e um dos maiores do mundo. Seus filmes
fazem sonhar e são partes da antologia fílmica mundial. O mundo passou a
conhecer o Japão mítico e profundo dos samurais, a partir dos filmes do
Kurosawa. Dirigiu grandes obras primas como Viver, Rashmon, Ran, Dersu
Uzala, Kagemusha, Trono Manchado de Sangue, Dodeskaden , Yojimbo, Os
sete Samuraise Anjo Embriagado. Foi um apaixonado pela literatura russa
e fez “O idiota” baseado em Dostoiévski e Ralé em Gorki. Tinha paixão
pelos livros e thriller de Geoges Simenon. Baseado no Macbeth de
Shakespeare dirigiu o belíssimo “Trono Manchado de Sangue”.

O mais importante não é o porquê, mas o como.

” O modo com a coisa acontece pode não mostrar nada da coisa em si, mas
mostra obrigatoriamente algo sobe as pessoas envolvidas no acontecimento
e que fornece o como”

Apesar de sua grande estima por Dostoievsk – “É o escritor que escreve
com maior honestidade sobre a existência humana”, O Idiota não é o seu
melhor filme. Um dos filmes da minha predileção do Kurosawa é Viver e
seus flash — backs. Diretor de alguns dos maiores atores do cinema
Toshiro Mifune e Takashi Shimura. Dirigiu o belo Rashomon, vencedor do
Festival de Veneza de 1951, baseado em contos do grande escritor suicida
Ryunosuke Akutagawa. O que o escritor quis dizer é que a verdade é
relativa, com o corolário de não haver verdade alguma. E que cena
magistral: A velha rouba os cabelos dos cadáveres. Ela diz que rouba
apenaspara sobreviver fazendo perucas dos cabelos roubados.O servo,
decide transformar-se em ladrão,a derrubalevandosuas roupas e dizendo
que a desculpa tambémvaleria para ele.

Dono de uma pontuação e cortes magistrais do cinema em belos wipese
grandes fades elegíacos, foi um dos maiores cineastas de todos os tempos
e elevou o cinema á condição de uma das mais belas artes. Arte que faz
sonhar e refletir sobre o grande mistério que é VIVER.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Alex de Souza 1 de novembro de 2011 17:14

    Outro grande lance da relação do Kurosawa com os quadrinhos, João, era a preocupação dele em desenhar os storyboards de cada plano de seus filmes.

    Os de Ran são belíssimos e dizem muito sobre a iconografia que o diretor imprime à obra.

  2. João da Mata 1 de novembro de 2011 11:50

    Obrigado Alex, pelos comentários pertinentes,
    A referencia a Wells foi seu transito do rádio para o cinema.
    No caso do Jodorowsky do quadrinho para o cinema e vice-versa. A literatura permeando tudo. Abraços fraternos.

  3. Alex de Souza 1 de novembro de 2011 11:42

    Beleza de lembrança, João, só não entendi uma coisa: você fala que vários cineastas andaram pelos quadrinhos e cita Welles, mas num episódio no qual os quadrinhos não tiveram nada a ver.

    Quer dizer: tudo bem que A Guerra dos Mundos, do H.G. Wells, tenha sido adaptada algumas centenas de vezes para as HQs, mas não deixa de ser um romance de ficção científica. E o que o Welles fez foi uma adaptação pro rádio, né?

    Valeu por desenterrar Jodorowsky, ele merece, só que é bom lembrar – perdoando o trocadilho – o cara ainda tá vivinho da silva. Como você fala dele no pretérito, alguém pode pensar que não.

    Um abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo