La cubana en la Habana

Ela parecia guardar o mundo nas ancas. Era enorme, uma mulher enorme, daquelas que metem medo nos homens – mãe enorme parindo ao contrário, com jeito de engolir. Mas dançava com a desenvoltura de uma sílfide, dançava com a liberdade de uma salamandra, escorregava balançando como uma ondina.

Eu a conheci num longínquo dezembro, mais precisamente em 31 de dezembro de 1998. Longínquo não é o tempo, vós o sabeis, mui longínqua é a nostalgia. Por isso, a cubana dançante de Havana é longínqua.

Ali, em Havana, onde as ruas encompridam os nossos olhos, de noite e de dia. E não só os olhos. Tudo se encomprida em Havana. Comprida é a praia, sobre a qual contemplei lua cheia mais-bonita-não-há, da janela alta do hotel luxuoso. Os hotéis para turistas e tudo para turistas é muito luxuoso em Havana. A revolução se encompridava já, fazia quarenta anos. Encompridei-me corpo e alma pelas ruas do centro da cidade, inclusive olhando os prédios ocupados pelo povo no tempo da revolução. O povo, cujas gerações se encompridam nos antigos edifícios do governo, feitos cortiço, sem manutenção, descascados, vexados pelo tempo. Lá em Havana, onde os policiais em cada esquina nos impediam de chegar mais perto dos moradores daqueles prédios. Nós, os turistas, a quem era destinado luxo e aparência.

Tínhamos muito pouco tempo. Não nos estreitamos com o povo, nós que líamos antigos livros de poesia cubana vendidos nas praças, fumávamos charutos andando nas ruas, tomávamos sorvete na Coppelia, daiquiri no Floridita e táxi em longínquos automóveis. Nós que não amávamos a revolução e achávamos bizarrice Che Guevara pregado numa cruz à moda de Cristo. Não, não nos estreitamos com os que nos pedíamos confeitos, batom e creme dental, coisas que carregávamos para eles mesmos. Não nos estreitamos com quem nos pedia roupas e brinquedos. Nem quando singramos o rio para visitar a Santeria e a Nossa Senhora Negra de Havana.

Mas não é preciso estreitar-se para arder de paixão. Digam o que disserem, diga eu o que disser, Havana apaixona perdidamente. Havana não é um sítio para se pensar. Não é um lugar de racionalidades. É um lugar para se sentir. Adentrar a feira e comprar uma cubana imensa, uma cubana feita de barro guardando o mundo nas ancas.

Uma dessas, mas de carne, eu a conheci dançando no ano novo de 1999. Ela tinha a força e a cor da terra. Dançava com todos os homens do lugar, no pátio em frente à igreja. Eles, se magros e pequenos, desapareciam engolidos pelas carnes voluptuosas. E todos eles, diante da grande-mãe, pareciam pequenos e magros. A grande-mãe, semeadora da vida, dançava, enquanto, um a um, eles iam cansando. Ali, em Havana, o ano novo prenunciava o bom futuro, num ritual de fertilidade.

Na longínqua Havana, houve a lua cheia e a grande-mãe, tudo mulher. Por isso, a gente se encomprida por lá, mulher é coisa de encompridar. Havana é uma imensa mulher, engolidora, como aquela aparição de ano novo.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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