Lá vem o Tigre

Crônicas de uma cidade submersa I

Final de semana quase carnaval. As noticias não são nada boas. Vão acabar com Ponta Negra. Precisava um sambista como Herivelton Martins para cantar: Vão acabar com a nossa Ponta Negra!. Cidade mergulhada no vício e no maior descalabro administrataivo da história. Espero que os colegas não estejam entorpecidos pelo fedor e miséria. Hoje falarei de tigres e manhá quem sabe ja estaremos mudos.

Refiro-me aos “tigres” que povoam e já povoaram as nossas cidades. Há um século atrás, a nossa merda de cada dia era transportada, por negros e escravos, em barris ou latas chamadas de “tigres”.

Lá vem o tigre diziam os moradores! Tiger, exclamavam os gringos sem saber do que se tratava. Esses tigres eram despejados nos mares, rios e mangues. A nossa merda é a nossa parte menos comunicável e, no entanto, uma parte essencial do ser animal.

Somos o que fazemos da merda que produzimos. O meio ambiente vem sendo agredido diariamente pelos viventes de um país chamado Brasil.

Na avenida Roberto Freire temos que andar rápido, pois o fedor de bichos mortos é insuportável. Lá na frente meço os batimentos que estão a 130 por minuto. Andar faz bem sem o nariz tampado!. São placas e mais placas falando das construções a serem obradas.

Uns outdoors enormes para conter os muitos zeros e ouros cifrões. Bacana mesmo é a precisão dos cálculos: centésimos de reais. Os tigres de hoje, sr. Editor, correm céleres pelas vias abertas da urbe que se adensa sem planejamento e esgotamento sanitário.

Caminhões-tanques enormes transportam a merda das cidades, por suas vias atapetadas. Hoje, acordei com as vias respiratórias superiores impregnadas de miasmas e outras fedentinas. No semáforo quase fui atropelado por um tigre gigante. Tigres e mais tigres correndo numa cidade enfeitada para turistas.

No calçadão de Ponta-Negra quase fui dragado por uma infinidade de crateras abertas pelas chuvas e marés. Por que será que não construímos obras para durar!. A sensação do efêmero me amolece.

O mar responde pelos degelos e poluições a que vem sendo submetido durante séculos. E lá vem o emissário. Olha o “tiger”, diz o gringo.

Não é tigre não, Sir, é merda, mesmo. As ruas agonizam encharcadas e estupradas por tantos corcéis, tigres e outros bichos possantes de muitos cavalos-vapor.

Vou caminhar pela via costeira e me deparo com um tremendo muro da vergonha. Como pode tapar o mar! O mar é de todos. Choro mais uma vez.

Tropeço nas calçadas esburacas de pedras portuguesas. Não posso tomar banho, infilizmente a praia está poluida e a solução deles é colocar a merda via emissário no mar de ponta- negra.

Quem fez a merda é responsável por ela, que não pode escorrer “in natura” para o mar, responsável pela vida.

Corram, corram, lá vem o “tigre”.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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