Lábios-espelhos de Marize Castro


Noite de poesia vermelha hoje na Siciliano do Midway. As tonalidades podem variar conforme a abstração de cada leitor. O escarlate sedutor seria bem empregado. Aquele vermelho dos jambos escuríssimos, rimariam com as cores sombrias da solidão. Também um toque rosado, de feminilidade, desde que bem universal. É que os rios de Marize Castro passeiam entre essas margens tonificadas pela poética-palavra. Lábios-espelhos (Editora Una, 100 pág) será lançado às 18h30 de hoje para público de qualquer cor, desde que aberto à compreensão das mais variadas matizes sentimentais.

A poesia de Marize Castro em Lábios-espelhos é cortante; desperta suspiros, alívios, sustos a cada frase ou palavra-síntese. A leitura é tensa, agridoce. A sensualidade está embutida como toucinho em osso e ameniza a angústia prazerosa da leitura. A ânsia é pelo desfecho, como quem espera o fim de um suspense de Hitchcock. E a cada conclusão, um corte navalhado de difícil cicatrização. Ou como se curar desta Finitude, em jogo licenciado da poesia com a primeira pessoa? “Despeço-me de mim:/ não mais existem o latido mais íntimo e grave,/ a senha mais rara, a alegria primordial/ e última”.

A extrema lascividade da poética de Marize Castro escapam do furor da poesia erótica, presente no trabalho de Lívio Oliveira e Nei Leandro de Castro, por exemplo. É sensualidade discreta, de segundo plano. E como tal, mais instigante, provocativa, como uma moça de beleza tímida a ponto de desabrochar-se. A sedução se esconde entre retoques de extrema solidão, descrença no mundo e amparo no Divino. E o recado é direto. De uma página ou uma frase, como na poesia intitulada Deidade: “Revejo crianças azuis nas redes do infinito”. Ou em Silente: “Sinto urgência em dizer: calo”.

O resumo sintetizado (sem redundância) das palavras percorre 25 anos. Desde que Marize Castro publicou o livro Marrons Crepons Marfins e passou a colecionar elogios Brasil afora. O poeta e crítico Moacir Amâncio comparou a obra de Marize no Caderno 2, do jornal Estado de São Paulo, à de poetisas vencedoras do Prêmio Jabuti de Literatura, como Adélia Prado. No currículo da poetisa, ainda retratos de épocas laureadas de publicações culturais, quando foi editora da revista O Galo. Quem melhor se define é a própria: “Escuto o tempo./ Sou toda urgência./ Toda terra./ Escamada por dentro/ e por fora./ Preciso do antigo:/ do que se transformou em céu/ e se fez floresta.”.

Lábios-espelhos

Espere-me lá fora.
Ainda não estou pronta.

Esqueci meu colar de estrelas
meu kimono
minha zori
meus adereços de gueixa.

Minha língua te recompensará.
Ela (esfomeada) saciará tua fome.
Ela (sedenta) te levará ao leito
Mais próximo.
Ela (saliva e cristal) revelará o enforcado
– seu destino, seu nome.

Espere-me lá fora.
Aqui há um naufrágio púrpura,
um rio de mel que corre entre lábios-espelhos.
Dele, sou filha.

(Marize Castro)

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