Labirinto Inundado

De quando em quando, uma alma canguleira sai de mim e, em seus vagares, me põe em diálogo com os becos da Ribeira antiga. Existem por lá uns olhos procurando penetrar-me, lamber-me o néctar do passado. Uns olhos de ondins. Contavam-se histórias desses esguios ondins, fugidos de mares remotos, dados ao acaso, tomando conta daquelas ruas estreitas. Dizia-se que atraiam enxurradas e inundavam o bairro. Dizia-se que legiões deles lavavam seus cabelos no pântano da Ribeira, e os sacudiam vastos, esverdeando noites.

Alagada pelo tempo ancestral, reconheço que o passado buscado em mim não é meu. Não é minha esta alma, nem meu o território. Eu não corri sobre as pedras da Rua Tarquínio de Souza, fugindo de casa para ir à escola. Não acalentei diante dos seus prédios de cores vivas minhas bonecas de celulóide. Não engoli a fumaça dos lampiões nem molhei seus pavios. Não fiz teatro de rua nem estive no Ginásio Dramático. Não fiz deslizar por ali o brilho das minhas bolas de gude. Também lá não fui abençoada pela ingenuidade para trocar pérolas por miçangas ou afagos. Não ouvi os lamentos da insana, antes de morrer nalguma daquelas casas. Morreu jovem e louca, o jeito mais sábio de perecer. Afinal, de quem é esta alma canguleira que me escapa?

O tempo da velha Ribeira é profundo, eu o sinto feito enxurrada ou amante, e não distingo amante de enxurrada, nem amor de labirinto. Por isso, gozo becos molhados de tempo, moradas de ondins.

Creio na Igreja do Bom Jesus, ainda mais na hora das minhas dores. A igreja do Bom Jesus, mulher feito eu, parindo continuamente as veredas da Ribeira e me amparando o caminhar. De lá parte a minha comoção quando quer percorrer aquelas ruas.

A cidade moderna ainda despeja sua pulsante vida nos canais do bairro. No entanto, vibra em mim a fantasmagoria, a Ribeira que prescinde do esmalte da restauração, límpida, contada e vivida. Eu vivo cores remotas…

A Ribeira essencial são frinchas e água e noite. São mistérios. Com os becos eu falo de espírito, coisa profunda, coisa feita de tempo, coisa havida antes de eu me saber. Sinto a ribeira assim, meu corpo é seu corpo, concedo e concebo.

Sobrevivo, alma canguleira condensada. Sobrevive esta alma não minha, tão profunda e íntima que não se sabe exteriorizar e até mesmo eu apenas vislumbro. É dentro de mim que pervago, andando lá, por sobre as rugas dos seus paralelepípedos ou na sua máscara de asfalto. Para andar pela Ribeira nem preciso sair de mim…

E é também de mim que perguntam os ondins. Teria o amor me conduzido à Ribeira ou sua alquimia me conduzira ao amor? Somente sei que o amor fincou-se, em simbiose com o bairro, meteu-se num tempo não dividido.

E agora? Agora se noticia que a drenagem não deixará o próximo milênio inundar a Ribeira e o bairro ficará para sempre lembrando um passado de poder e opulência.

Os ondins estão se desidratando e morrerão brevemente e os becos ficarão excessivamente secos e será real apenas a recordação. Mudará a ribeira e mudarei eu, seu corpo decadente. O passado está expirando em minhas mãos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 10 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 26 de fevereiro de 2013 16:03

    Grata, amigos. Danclads e Edilson, a minha alma canguleira é mais antiga do que eu. Na verdade, minha avó é que viveu a infância na Ribeira e me transferiu afetivamente essa infância.

  2. Edilson Freire Maciel 26 de fevereiro de 2013 13:19

    Carmen Vasconcelos. Seus textos líricos e encantadores sempre embeveceram minha alma. Esse, então; sobre a saudosa e velha Ribeira … , a sonhar embalada pelo desfraldar das velas sobre o Potengy, resgatou minha liberdade aventureira de menino canguleiro a deambular sob as sombras dos oitizeiros, cortando avenidas e adentrando vielas, morcegando trem que se movimentava em pequenos solavancos, em contraste com a fluídez leve e serena do rio, que transportava nossos sonhos juvenis. Parabéns, pela alma canguleira. Grato por compartilhar reminiscências tão ocultas em nosso ser. Lindo, por demais, lindo!

  3. Bethânia Lima 25 de janeiro de 2013 13:54

    “…Para andar pela Ribeira nem preciso sair de mim…” , eu costumo adotar esse caminho…

  4. Danclads Andrade 25 de janeiro de 2013 13:17

    O que eu posso mais dizer diante desta maravilha? É belíssimo, sim! Antológico, sim! … Enfim, é um brinde aos olhos. Parabéns, Carmen Vasconcelos pelo texto que, além de tudo, traz o passado de volta.

  5. Carmen Vasconcelos 25 de janeiro de 2013 11:25

    Obrigada, pessoal.

  6. Lívio Oliveira 25 de janeiro de 2013 9:00

    Um texto antológico!

  7. Alex de Souza 25 de janeiro de 2013 8:38

    massa, carmem.

  8. Cellina Muniz 24 de janeiro de 2013 23:17

    Que lindo, Carmen Vasconcelos… “Esverdeando as noites” é demais! Um bom texto para se pensar memória e tradição na cidade.

  9. thiago gonzaga. 24 de janeiro de 2013 21:12

    Texto belíssimo.
    Deixou meu dia mais bonito e feliz !

  10. Ângela Magna 24 de janeiro de 2013 20:04

    Pois é. O novo diretor da Pinacoteca disse que sentiu uma “satisfação transbordante” com a recepção que teve da “comunidade artística”. Só em Natal mesmo pra existir comunidade artística, Deus do céu, isso é cultura ou arrumação? Imagine que isso foi dito por quem esbanja uma imagem de independência cultural, quem quiser que compre…

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