Labirintos e Minotauros (Artigo de Umberto Eco)

Acatando uma sugestão do amigo e colega Adriano Medeiros, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e fundador/coordenador do Grupo Eduardo Galeano de Estudos e Pesquisas Latino-Americanas em Comunicação Social, traduzi um artigo de Umberto Eco ainda inédito no Brasil e o presenteio aos meus leitores no Substantivo Plural como homenagem póstuma a um escritor e intelectual que foi referência para a minha geração. O texto foi publicado na coluna La Bustina di Minerva (O envelope de Minerva), que o autor mantinha no semanário L’Espresso, em 4 de setembro de 2015. O original em italiano está disponível no link: http://espresso.repubblica.it/opinioni/la-bustina-di-minerva/2015/09/02/news/labirinti-e-minotauri-1.227264.

Umberto Eco

Labirintos e Minotauros

No dédalo de Cnossos, uma vez eliminado o perigo, a saída era encontrada facilmente. Não é assim nos contemporâneos. Complexos como as nossas angústias.

Labirinti e Minotauri

Por Umberto Eco.

Gostaria de retomar o tema do último “Vetro soffiato” de Scalfari*. O labirinto nasce com a história de Teseu e Ariadne, mas continua a obcecar se não o mundo dos filósofos, o das artes, aparece nos pisos das catedrais medievais, entre maneirismo e barroco inspira a estrutura de jardins, até chegar aos angustiantes percursos de Kubrick em “Shining”, a Escher, ou às imaginações sempre labirínticas de Borges.

Mas no labirinto de Cnossos, o de Teseu, não havia como se perder. Procurem na internet um modelo do labirinto de Cnossos e sigam o percurso com um lápis. Perceberão que não podem senão chegar ao centro e do centro não podem senão encontrar a saída. O labirinto de Cnossos é “unicursal” e se o desenrolarem terão em suas mãos um fio, o fio de Ariadne. O que torna o labirinto de Cnossos perigoso é que no centro dele se encontra o Minotauro. Eliminado o Minotauro, dá para sair dele sem dificuldades.

Salvo que os problemas para Teseu, nos lembra Scalfari, começam depois, quando é obrigado a fazer outras escolhas, digamos, “existenciais” (por exemplo, ter que decidir entre Fedra e Ariadne). A imaginação clássica não tinha conseguido dar forma a esse emaranhado que nos aguarda fora do labirinto porque, pelo menos até a época moderna, o modelo do mundo era rigidamente geométrico, feito de formas “fechadas”: esferas concêntricas, hierarquias triangulares, e de Vitrúvio a Leonardo figuras humanas encerradas em um quadrado, em um círculo, em um pentágono.

Com a era moderna se começa a suspeitar não só que a terra não esteja no centro do mundo, mas que o mundo seja infinito, ou que existam infinitos mundos, e que o universo não é mais representável com métodos euclidianos. Assim, de unicursal o labirinto se torna multicursal. A cada passo se apresenta uma disjunção entre dois percursos e só um é o bom. No labirinto multicursal as pessoas se perdem e, se fosse desenrolado, não resultaria dele um fio, mas uma árvore, potencialmente infinita. Um percurso pode levar toda vez a um beco sem saída, ou a outros percursos que não conduzem até a saída. E não há como se ter uma imagem global do labirinto, mas somente fazer hipóteses a cada escolha, de forma que um matemático como Rosenstiehl pôde falar em “algoritmo míope”.

Mas a situação se complica com uma terceira forma de labirinto, a rede ou teia de aranha, onde cada ponto pode estar conectado com qualquer outro ponto, inspirando percursos múltiplos. Como em uma malha ferroviária, para ir de Milão a Turim certamente o percurso mais breve passa por Novara, mas nada impede que se encare a aventura da viagem Milão-Bolonha-Roma-Grosseto-La Spezia-Gênova-Turim. Ou então pensem na Web.

Uma rede não pode ser desenrolada. Até porque, enquanto os labirintos dos primeiros dois tipos têm um interior (seu próprio emaranhado) e um exterior, de onde se entra e para o qual se sai, o labirinto do terceiro tipo, extensível ao infinito, não tem nem fora nem dentro. Deleuze e Guattari tinham proposto a metáfora (ou o modelo) do rizoma.

Agora o mundo contemporâneo percebeu que a estrutura do universo é a rede. A ciência não tem medo da rede porque depois de cada escolha pode falsificar suas hipóteses e tentar outra via (como diziam os do Cimento**, tentando e tentando novamente). Mas na nossa vida não é fácil abrir mão das nossas convicções e, mesmo querendo, não há como voltar atrás. A rede é insensível à passagem do tempo, mas nós não o somos.

Eis então como o labirinto rede explica as nossas angústias e a nossa condenação ao erro e à contradição. Nosso próprio Minotauro somos nós.

* Eugenio Scalfari é um jornalista, escritor e político italiano. É fundador do diário La Repubblica, um dos mais influentes jornais italianos, e participou da fundação do semanário L’Espresso, onde Umberto Eco manteve durante anos sua coluna La Bustina di Minerva. Vetro soffiato (Vidro soprado) é o nome da coluna de Scalfari no mesmo semanário.

** O autor se refere à Accademia del Cimento (Academia do Experimento), fundada em Florença em 1657 e que foi a primeira associação científica na Europa a utilizar o método experimental de Galileu. O mote da associação era Provando e riprovando (Tentando e tentando novamente), ainda conhecido e utilizado na Itália.

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