Laços de família

Por Carmen Vasconcelos

Assisti nesses últimos dias a dois filmes* que, por coincidência, tinham a mesma temática: o passar, não do tempo, mas da vida; o envelhecimento, o lugar que as pessoas ocupam ou vão deixando de ocupar na vida das outras. Coincidentemente, também, os dois filmes eram ambientados no Japão, sendo um japonês e o outro não. Ambos os filmes falavam de casais idosos que resolviam visitar os filhos, os quais já tinham suas casas, vidas e famílias formadas. Em ambos os casos, a vida corrida dos filhos já não deixava espaço para uma convivência estreita com os pais. Eles se preocupavam essencialmente em encontrar algo para os pais fazerem ali, enquanto esses filhos viviam suas agitadas existências, das quais, dava para ver, os pais já não faziam parte, senão como história. Os filhos não queriam ser culpados pelo eventual tédio de seus pais, mas também não queriam entediar-se com eles.

Além de me causarem melancolia, os filmes me fizeram pensar em muitos porquês. Muitos porquês sem respostas feitas, as coisas só acontecem em cadeia, nunca sozinhas. As respostas são assim. Por que as pessoas se afastam de suas histórias, passando a ter com elas uma relação superficial? Estilo de vida do mundo moderno, autonomia adquirida na idade adulta? Talvez. Mais ainda, uma inconsciência da inevitável dependência que todos temos uns dos outros. Mas as crianças e os idosos são conscientes disso. As crianças, porque são ávidas de entendimento de tudo e sabem que precisam dos adultos para ensinar-lhes coisas. As crianças, porque percebem que precisam de outros para lhes ajudar a construir suas histórias que começam. Os velhos, porque sabem que a sua transcendência está naquilo que possam contar e passar para os outros. Sabem que suas histórias somente continuarão em quem ficar depois deles.

Nos dois filmes a que assisti não é assim, pois as crianças agem como seus pais, mas creio que, na vida, crianças e velhos se aproximam e se comunicam por uma linguagem cuja origem é essa consciência da dependência dos outros, inexistente nos adultos jovens, vigorosos e autossuficientes. A linguagem entre crianças e velhos talvez não seja explícita, mas é determinante para a profundidade das relações, pois não há relacionamento profundo sem o abandono de certas defesas. É a linguagem do pedido, da fragilidade, da precisão. E os adultos, os que já aprenderam tudo e não precisam de ninguém, desaprendem essa linguagem para só reaprendê-la mais tarde, quando já envelhecidos.

Adultos não querem ser frágeis, mostrar necessidades. Já para as crianças, desarmadas, os velhos são aconchegantes. Eles trazem acenos de um mundo seguro e estimulante e ainda que possam contrapor esse mundo ao atual, suas histórias mostram que existem possibilidades infinitas de buscar o melhor dos mundos. Acreditar ou não nessas possibilidades é parte das escolhas que as crianças, cedo ou tarde, acabam por fazer.

*Os filmes aos quais me refiro neste texto, o qual os tomou como leves referências são os seguintes: “Contos de Tóquio”, de Yasujiro Ozu, e “Cerejeiras em Flôr”, de Doris Dorrie.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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