Lágrima na Chuva n°1

A rua é um sumidouro e na Ribeira Revitalizada
eu sou um rato esgotado vestido de mijo.
Eu sou o silêncio de Fia no centro da avenida amputada.
Eu sou o choro amputado de Fia nos batentes.
Contorço o vão das noites carcomido pela cidade áspera.
Chupei o pau de um ciborgue negro no pátio da Igreja Matriz.
E acendi velas na Praça Padre João Maria.

Por que não as putas a dar nome às ruas e praças?
As bestas i-mundas, calçadificadas. O lixo indigente,
por que não lembrá-lo em monumento?
forjar em mármore seu instante mais sórdido –
os cacos sob os pés e a parede dos lábios descascada.

Mas quem construiria esse museu de dejetos?
Quem, para guardar os estilhaços da História?

Comentários

Há 17 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 3 de fevereiro de 2013 21:18

    Qualquer um pode falar sobre qualquer um. Caso contrário, cairemos no monopólio da confissão – gays falam sobre gays, machos falam sobre machos, putas falam sobre putas. Confissão romântica, demasiado romântica. monólogos paralelos.
    As putas não precisam de intelectuais paternalistas para existirem, pensarem, serem. Elas mesmas são intelectuais – quer dizer, seres dotados de intelecto. Que existem diante de outros seres dotados de intelecto.
    Agora, História com H de Homem já era desde o tempo de Michelet, não é? Romântico mas muito esperto.
    Sou favorável a dialogar com as putas (com os operários, com os mendigos, com qualquer um). Não me interessa que eles pensem por mim. Se isso ocorresse, eu apenas inverteria – PATERNALMENTE – a mão única de poder. Estou noutra.

  2. Manoel Borba 3 de fevereiro de 2013 21:07

    O que me diverte nesse espaço é que tem gente elogiando Mombaça, como se não fosse com eles o tiro certeiro de Momba direto na face suave dos “num é comigo”. É consigo sim.

  3. Jota Mombaça 3 de fevereiro de 2013 20:40

    Maria Boa é, de fato, uma personagem prestigiada. Talvez por isso seja mais fácil falar sobre ela do que sobre as putas ordinárias (ou os michês) das quais os intelectuais da província jamais puderam prescindir. Intelectuais estes que, diga-se de passagem, são incapazes de pensar da cintura para baixo – homens em sentido moderno, castrados de cu, cuja mente parece pretender uma patética dissociação racionalizada da carne.
    Eu penso que para refletir sobre o que é uma puta, Marcos Silva, ninguém melhor do que uma puta. Façamos um levantamento! Vamos procurar ouvir o que nos dizem as putas produtoras de sua própria história, responsáveis por suas próprias teorizações e pela construção dos mitos que as embalam. Talvez aí encontremos muito mais do que um sujeito estável e internamente coerente (seja “a liberta indomável” ou “a prostituta sofredora”), como ocorreu quando as feministas negras do terceiro mundo e as transmulheres desafiaram a concepção identitária fechada que o feminismo branco de classe média havia elaborado para definir a categoria “mulher”.
    Só aí poderemos saber, sobre as putas, muito mais do que que a História com H de Homem tornou possível saber.

  4. Cellina Muniz 3 de fevereiro de 2013 20:12

    Como disse Marquês de Sade na sua Filosofia de Alcova, putas são aquelas que a opinião difama mas que a volúpia celebra! Que venham os direitos trabalhistas e os nomes de rua, das glamourosas às mais ordinárias!

  5. Marcos Silva 3 de fevereiro de 2013 18:00

    Maria Boa não é nome de rua nem praça mas é verbete no prestigioso livro “400 nomes de Natal”.
    Agora: seria bom refletir sobre o que é uma puta. Heroína romântica? Empresária? Trabalhadora explorada em linha de produção?
    Na pesquisa histórica, falam no mito da prostituta sofredora. Percebo que cresce também o mito da liberta indomável.
    Agora: sou favorável, sim, aos direitos trabalhistas das putas que não são empresárias.

  6. Jarbas Martins 3 de fevereiro de 2013 13:34

    Maria Boa não é um mito popular, digo com conhecimento de causa, Serviu à burguesia local, à gente de “boa família” natalense: médicos, magistrados, por aí. Tornou-se conhecida internacionalmente, graças aos oficiais norte-americanos, que aqui pousaram durante o período da II Guerra Mundial.Nunca chegou a ser um mito como protistutas ou mulheres emancipadas como Maria Bonita ou Dona Beja, de Araxá,MG, escravas alforriadas pelo ouro do amante, como Chica da Silva.Ou como uma prostituta capixaba, que foi à luta numa guerra ao lado do povo contra à injustiça social. Aqui em Ponta Negra houve quem quisesse homenagear postitutas com um monumento.Não vingou a idéia. Como não foi posto em prática as teses (sérias) de antropólogos portugueses que quiseram implantar neste bairro uma área livre para que elas pudessem transitar sem serem molestadas pela repressão de todos os matizes. Como o poeta Jota Mombaça é estudante de Ciências Sociais. deve conhecer o trabalho dos antropólogos europeus. Há anos, antes de Parnamirim ser tomado pelas oligarquias políticas, chegaram a candidatar uma pobre mulher que tinha sido (ou era). prostitua. Esqueci o seu nome e fiz bem:: não havia seriedade por parte do grupo que lhes dava sustentação política.Não era por moralismo, não. Questão de ética.política.

  7. Lívio Oliveira 3 de fevereiro de 2013 11:50

    A pergunta de Marcos é perfeita. Respondê-la não é assim tão simples.

  8. Alice N. 3 de fevereiro de 2013 10:49

    Marcos Silva: dão? Aqui em Natal, por exemplo, nem a prestigiada Maria Boa recebeu nome de rua ou busto em praça, que eu saiba…

  9. Marcos Silva 3 de fevereiro de 2013 10:00

    Alice:

    E nao dão?

  10. Alice N. 3 de fevereiro de 2013 9:25

    “Por que não as putas a dar nomes às ruas e praças?” Dá-lhes, Jota!
    Isso é que é um soco na hipocrisia reinante! Seus versos sim guardam os estilhaços da História!

  11. Jarbas Martins 1 de fevereiro de 2013 21:39

    Sem dúvida, horácio oliveira.

  12. horácio oliveira 1 de fevereiro de 2013 18:03

    Piva adoraria!

  13. Jarbas Martins 1 de fevereiro de 2013 16:07

    Jota Mombaça é um dos três poetas da contemporaneidade brasileira que me chama a atenção. Já disse aqui..Cantei essa pedra há muito tempo. Excede em tudo. Pela verdade crua de seus versos, o uso do verso largo, que lembra o Allen Ginsberg de UIVO, o ritmo improvisado, que ignora qualquer forma pré-concebida de poema. É o pós-Ginsberg, melhor que Ginsberg. Resta-me parodiar William Carlos Williams: levantai a barra de suas saias, gente delicada,quando atravessares um poema de Jota Mombaça !

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