Lágrimas de São Paulo

Publicado no Balaio Vermelho

Por Marcius Cortez
Escritor

Aqui perto de onde moro, no bairro da Consolação, em S. Paulo, há uma vila de sobrados geminados e, na garagem de um deles, o proprietário abrigou uma família que perdeu tudo por causa das chuvas que castigam a maior capital do país. Contei: uma mulher, três crianças e dois homens dormindo no chão, às seis da manhã do dia 25 de janeiro. Mais tarde, por volta das nove horas, passei outra vez por lá. As crianças me pediram dinheiro e então as convidei para um lanche na padaria. O menorzinho deles perguntou se podia chamar a mãe: Pode, disse eu. No balcão da Bela Pão, falei para o Reginaldo atender os pedidos daquela família.

Com exceção do caçula que puxava conversa comigo, ninguém mais queria papo e era visível um certo nervosismo entre eles. Reginaldo e o Gordo foram trazendo as vitaminas, os sanduíches, os sucos, as médias de café com leite, os iogurtes, o pão com manteiga. Comemos em silêncio. Quando levantei o rosto, observei que a mulher tinha lágrimas nos olhos. Tomei coragem e não desviei meu olhar. Fiz questão que aquela senhora visse que eu estava espiando ela chorar. Dona Célia me dirigiu a palavra, pela primeira vez: O senhor pegou a confusão?

Dei de ombros: Que confusão, minha senhora? Acabando de mastigar um pedaço de pão de queijo, a mãe dos meninos aumentou a voz: Os moradores da vila fizeram um abaixo-assinado pra gente ir embora. Indaguei a ela: E o dono da casa aceitou? Emocionada, Célia declarou que os moradores podem chamar a Polícia, mas que na casa dele quem manda é ele e que ninguém vai embora não. Injetando esperança no pessoal, comentei: Tenho certeza que vocês vão sair dessa para uma melhor. A criança mais velha abriu um discreto sorriso. Pedi a conta, enfiei uma nota de dez no bolso do pixote e nos despedimos.

À noite, por volta das 22 horas, retornei à vila e verifiquei que a família permanecia acampada na garagem da mesma casa. Os desabrigados talvez não estivessem dormindo, talvez estivessem apenas deitados, pescando o sono.

Quando fui saindo da vila, vi um carro da Polícia entrando na ruazinha. O motorista diminuiu a marcha, parou o automóvel e os soldados ficaram olhando para o pessoal, olhando, olhando… Não falaram nada e partiram. Começou a intimidação, pensei.

No caminho até o prédio onde moro, encontrei o Pernambuco, o segurança que faz a ronda noturna em nosso quarteirão. Ele me confirmou que a Polícia tá passando direto lá. Por curiosidade, quis saber quem era o cidadão que acolhera os novos sem teto da nossa cidade: O senhor conhece, seu Márcio, é aquele cabeludão, só um maluco mesmo, aquele pessoal, seu Márcio, é tudo invasor. O cara vai se dar mal, quero ver ele se livrar desse bando de vagabundo… Fitei o Pernambuco bem dentro dos seus olhos, desejei-lhe uma boa noite e me retirei.

Naquele momento senti toda a ciência social que aprendera com meus mestres Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Ruy Coelho na velha Faculdade da rua Maria Antônia, sumir do meu cérebro. Acalentei essa sensação. Pouco importava entender aquilo pelo viés da sociologia, da dialética, do estruturalismo, de que diabo fosse.

Óbvio, tive uma noite de cão. Foi um tormento atravessar aquela cordilheira de dor.

Não consegui pensar em mais nada. Logo a água subiu e eu me vi em cima do telhado da minha casa, ilhado, náufrago como toda a minha cidade. A São Paulo onde outrora fui feliz fora tragada pela vingança da natureza. Não acredito que meus netos, paulistanos, viverão numa metrópole civilizada. Com o Tietê limpo, com espaço para o rio se infiltrar quando chegar a época das enchentes, com o transporte coletivo no lugar do transporte individual, com um trânsito que anda, com a população consciente de como deve tratar o lixo, com políticos responsáveis que tenham um projeto para a cidade e que descartem obras eleitoreiras, faraônicas e apressadas, com ar puro, árvores e flores. Não acredito que essa sociedade tão desigual e tão mal informada possa se unir em torno de uma mudança radical que coloque o progresso a serviço de todos e não apenas das classes sociais mais privilegiadas.

À mercê de uma insônia sufocante, fiquei de pé, no meio da sala do meu apartamento a olhar para a cesta de alimentos que deixara perto da porta, cesta que no dia seguinte iria levar para aqueles adultos e para aquelas crianças. Isso era a única coisa que me acalmava, me acalmava pensar que ouviria de novo, o menor de todos me dizer com a sua voz de esperança: Muito obrigado por tudo que o senhor está fazendo por nós.

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