Lágrimas por Kim e esperança

Por Gilles Lapouge
ESTADÃO

O dirigente norte-coreano Kim Jong-il morreu e o país todo chora copiosamente: rios de lágrimas. A apresentadora que teve a terrível incumbência de anunciar a notícia na TV se pôs a soluçar. Na rua, os pedestres paravam para chorar abundantemente. Na Universidade de Pyongyang, os professores tiveram de interromper as aulas para deixar que os alunos se derretessem em lágrimas.

Quando todas as lágrimas cessarem, o país começará a refletir sobre seu futuro. Evidentemente, a sucessão já está definida. Mal o “rei” morreu, outro “rei” tomou seu lugar no pódio – o filho do rei defunto, Kim Jong-un, de 28 anos, poliglota, que teria estudado na Suíça e foi repentinamente promovido a general de quatro estrelas.

Sabemos muito pouco a respeito de Kim Jong-un. Ele é o retrato idêntico de seu avô, Kim Il-sung: mesmo corte de cabelo, mesmo uniforme de Mao, mesma corpulência. A primeira dinastia comunista da história declina-se da seguinte maneira: o avô Kim Il-sung morreu em 1994 e foi substituído pelo filho, Kim Jong-il, que morreu e já havia transmitido o cetro ao filho, o jovem Kim Jong-un, o qual acede hoje ao poder.

Teoricamente, não há tempestades em vista. A sucessão foi determinada minuciosamente. No entanto, a Coreia do Norte encontra-se num tal estado de decomposição, e ocupa um lugar tão nevrálgico no tabuleiro internacional, entre a China e o Japão, entre os EUA e a Coreia do Sul, que todos os países com os quais se relaciona dobraram suas medidas de segurança. Os 28 mil soldados americanos estacionados na Coreia do Sul estão em alerta. O presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, cancelou todos os seus compromissos e convocou um conselho de urgência.

As precauções de Seul são razoáveis. Os dois países foram formados no final da feroz guerra na qual, de 1950 a 1953, enfrentaram-se os comunistas do Norte e as forças do Sul respaldadas pelos “aliados” ocidentais: uma guerra implacável, selvagem. O armistício que se seguiu dividiu em duas partes a península – Coreia do Norte e Coreia do Sul, separadas por uma faixa desmilitarizada de 2 quilômetros de largura ao longo do Paralelo 38.

Esta fronteira, um dos lugares mais perigosos do planeta, é guardada ao norte por 2 milhões de soldados norte-coreanos, ao sul por 650 mil soldados sul-coreanos. A única vitoriosa nesta situação é a biodiversidade. Sobre a faixa de terra desmilitarizada e vazia de seres humanos, prospera e pulula livre e alegremente uma população de animais maravilhosos, de aves deslumbrantes e de flores estupendas. Um pequeno paraíso terrestre, um improvável Jardim do Éden nasceu ali há 50 anos, no momento em que a loucura dos homens atingia seu paradoxismo.

Será possível interpretar esta singularidade como uma fábula filosófica, e esta fábula será feliz ou sinistra? De tempos em tempos, a Coreia do Norte, por razões diplomáticas, provoca um incidente com a Coreia do Sul, como aconteceu em 2010, quando Seul acusou o Norte de ter torpedeado uma corveta militar do Sul, matando 46 marinheiros. Paralelamente, a Coreia do Norte adota uma política de desafio em relação aos EUA.

Poder

Há dezenas de anos, os pesquisadores nucleares norte-coreanos trabalham intensamente no centro de Yongbyon, no nordeste do país. No início, tiveram o apoio da URSS, que lhes permitiu construir um reator experimental, e posteriormente criaram um segundo, de tipo Magnox (de urânio não enriquecido), no início dos anos 80.

Este reator funcionou mais ou menos até 1994. Um pouco mais tarde, George W. Bush decidiu incluir a Coreia do Norte no “eixo do mal”. Então Pyongyang endureceu suas posições, retirou-se do tratado de não proliferação e realizou dois testes nucleares em 2006 e 2009, o que fez com que a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) se tornasse alvo de sanções da ONU.

Em 2010, entrou em operação uma usina com mais de 2 mil centrífugas; em 2011, o país preparava-se para inaugurar um reator de água leve. Mas nestas últimas semanas, o clima era de distensão. Por uma bizarra coincidência, a morte de Kim Jong-il ocorreu alguns dias depois de um acordo que suspende as atividades de enriquecimento da Coreia do Norte. Por que motivo? Porque a situação alimentar do país é terrível. Na Coreia do Norte as pessoas morrem de fome. Pyongyang capitalizou, portanto, a suspensão das atividades de seus reatores em troca de uma retomada em massa da ajuda alimentar americana.

Outro país, a China, acompanha com apreensão o que acontecerá depois da morte do “tirano vermelho”. Pequim apresentou suas “sinceras condolências”. E aposta-se que a China desempenhará, amanhã, assim como ontem, o papel de “estabilizador” para este país falido. Não devemos esquecer de que o comércio da Coreia do Norte com a China representa 56% do seu total. Mas, se oficialmente a China é a amiga mais próxima da Coreia do Norte, na realidade esta amizade é confusa, explosiva e tenebrosa. Pequim recusou-se frequentemente a aprovar as provocações, principalmente militares, de Pyongyang contra a Coreia do Sul, e portanto indiretamente contra os EUA.

No Comitê Central de Pequim predomina uma prudência extrema. E na população chinesa, um repúdio radical. Para o cidadão chinês comum, a loucura fria dos dirigentes de Pyongyang lembra a loucura inflamada da China às vésperas da morte de Mao Tsé-tung. Ao que se sabe no Ocidente a respeito das mensagens postadas na internet pelos blogueiros chineses, a quase totalidade destes não só não deplora a morte de Kim Jong-il como lamenta que ele não tenha morrido antes.

As apresentadoras chinesas que anunciaram a morte do ditador nas estações de TV da China não se derramaram em lágrimas como fizeram, no mesmo instante, suas pobres colegas de Pyongyang. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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