Em 2020, mensagem de “Lança Perfume” ainda precisa ser ouvida

Há 40 anos, eu aguardava ansioso para ganhar de presente o disco Rita Lee, mais conhecido como Lança Perfume. Era novembro de 1980 e eu tinha apenas 7 anos.

Naquela época a única forma de ouvir uma música, se você não tivesse o disco, era esperar que ela tocasse no rádio e isto não era suficiente para mim. Meus pais me disseram que uma amiga da minha mãe me daria o tão aguardado vinil no meu aniversário. Então, contei nos dedos os dias que se passaram.

Porém, eis que para minha surpresa ela resolveu me dar um presente qualquer. Que decepção! Minha festa de aniversário não foi mais a mesma. No outro dia para minha alegria, meu pai abalado pelo meu desapontamento providenciou de comprar o álbum.

Naquele fim de ano, o Brasil inteiro já sabia de cor o carro-chefe do disco e se inebriava com o seu aroma musical. Lança Perfume, a mais nova criação da dupla Rita Lee e Roberto de Carvalho, era uma canção irresistível, misto de disco music com marchinha de carnaval, e não parava de tocar nas rádios, nas pistas de dança e de patinação.

A cantora que já era bem conhecida no nosso país pela sua marcante presença tropicalista com os Mutantes, e depois por ter sido a pioneira bandleader feminina da banda de rock Tutti Frutti, agora, com este disco, abria fortemente o caminho para o pop no Brasil.

Leia “Rita Lee em Natal: amor e rebeldia no imaginário potiguar”, artigo de Joseh Garcia

Se os fãs roqueiros, que até então a acompanhavam, se ressentiram da sua diversidade, o nosso país ganhou com Lança Perfume uma referência para a música pop de qualidade técnica e letras bem colocadas com sensibilidade, humor e inteligência.

O fato é que Rita, aos 32 anos, lançou seu perfume musical tão longe que sua canção alcançouo primeiro lugar nas paradas da França e entrou na Billboard dos EUA. Até o príncipe Charles, anos depois diria que sua cantora favorita era a nossa roqueira múltipla.

No Brasil, o sucesso foi imenso e o público recebeu de peito aberto o álbum, que emplacou quase todas as músicas nas paradas e vendeu aproximadamente 1 milhão de cópias.

Agora, em 2020, o álbum é relançado em vinil em uma edição remasterizada com material gráfico original, em comemoração aos seus 40 anos de existência.

Os vários tons do perfume musical

O disco Rita Lee (Lança Perfume) é primoroso e oferece uma variedade bem amarrada de estilos sonoros com arranjos sofisticados, melodiosos e dançantes sob a produção de Roberto de Carvalho e Guto Graça Melo, e a presença especial de Lincoln Olivetti. 

O vinil democraticamente dá espaço a disco music, bolero, reggae, ritmos latinos e rock. A voz de Rita é precisa, bem colocada, e melodiosa com uma suavidade que facilmente viaja do sensual ao sereno. No seu canto também incorpora humor e tons coloquiais que dão a impressão de um canto híbrido entre o discurso falado e a voz cantada.

O resultado é um frescor que envolve a mensagem simples e astuta de suas letras e provoca uma sensação de intimidade com a artista, como se ela falasse baixinho nos nossos ouvidos suas experiências privadas e reflexões sobre o viver.

A mensagem libertária

“nas canções, os desejos expressos pela compositora não buscam satisfação no consumo, na aquisição de poder ou de ambições materiais.”

Ao ouvir o álbum Rita Lee (Lança Perfume), fica bastante claro, a princípio, que ele enfatiza uma vida pessoal focada no amor e no prazer.

É fácil de se “deixar levar pelo beijo eterno” das canções e se deleitar com o prazer sensorial que emana de músicas como Caso SérioBem-me-querShangrilá, além da mais conhecida do disco, Lança Perfume.

Mas se prestarmos mais atenção nas letras, perceberemos que nem só de romance se trata o disco. O conjunto lírico deste vinil afirma um estilo de vida não só centrado no amor, mas também direcionado à harmonia com a natureza, ao não-consumismo e ao questionamento ideológico.

Ao nos aprofundarmos na escuta do disco, poderemos notar que, nas canções, os desejos expressos pela compositora não buscam satisfação no consumo, na aquisição de poder ou de ambições materiais.

Isto fica claro, por exemplo, em Nem luxo, nem lixo (evidente já no título e nos versos “Não quero luxo, nem lixo / Meu sonho é ser imortal, meu amor / Não quero luxo, nem lixo / Quero saúde pra gozar no final”), e em João Ninguém (onde a artista faz uma crítica ao desejo desenfreado por posses e por poder como pode-se ver nos versos “João Ninguém virou um homem poderoso pra chuchu / Limousines, banquetes mil, rodeado de urubus /… / Quanto mais tem, mais quer / Quanto mais tem mais quer / Quanto mais tem mais quer”).

Algumas outras músicas prestigiam uma vida em harmonia com o meio ambiente, como vemos na suave e dançante Baila comigo. O desejo presente é de uma vida em ressonância com o ecossistema (“Se Deus quiser / Um dia eu quero ser índio / Viver pelado pintado de verde / Num eterno domingo”). Mais adiante na letra, a identificação se expande e inclui a personificação da própria natureza em si. (“… Ser um bicho-preguiça /… Se deus quiser / Um dia acabo voando / Tão banal assim como um pardal /… Se Deus quiser / Um dia eu viro semente / E quando a chuva molhar o jardim / Ah, eu fico contente / E na primavera vou brotar na terra).

O disco também dialoga com difíceis contextos sociais e expressa um questionamento que se estende ao campo da fé em favor de uma conexão de prazer com a vida. Era Guerra Fria no mundo. A possibilidade de uma terceira guerra mundial com armas nucleares pairava na mente de quase todos.

Na canção Baila Comigo, Rita sugere uma consciência destes perigos eminentes e mostra um desejo voyerístico de estar viva para ver o fim da destruição do planeta em uma afirmação da sua relação com a vida: morrer bem velha e estar viva não apenas até o seu fim pessoal, mas até o fim global, o fim do mundo.(“ Se Deus quiser / Um dia eu morro bem velha / Na hora H quando a bomba estourar/ Quero ver da janela”).

No cenário nacional, vivíamos a ditadura de um sistema que prendia, torturava e matava os discordantes. Em Nem Luxo, nem lixo, ela nos convida a verificar como estamos indo em meio a uma situação coletiva difícil. (“Como vai você? / Assim como eu / Uma pessoa comum / Um filho de Deus nessa canoa furada / Remando contra maré). Também expressa um questionamento da fé, recurso tão comumente recorrente em momentos de crises. “Não acredito em nada / Até duvido da fé”.

O álbum termina com a música mais incendiária em sua mensagem de rebeldia contra o sistema: Orra Meu. Nela a compositora soa mais afirmativa com seus desejos e demanda respeito à sua loucura, à sua rebeldia e mais uma vez, afirma o seu elo vital com o prazer (“Vou botar fogo nesse asilo / Respeite minha caducagem / Porque essa vida é muito louca / E loucura pouca é bobagem /… Quanto mais o tempo passa mais eu quero me divertir / Me despir / Me sentir guerrilheiro / Forasteiro / Orra meu”).

Desviando do estilingue da censura

Se olharmos de forma panorâmica para o conjunto das letras, vemos que o eu lírico deste disco valoriza o amor, expressa desejos, questiona comportamentos e crenças religiosas, e escolhe uma vida próxima à natureza e aliada ao prazer.

Este disco traz em si esta mensagem nas suas letras, e assim exemplifica e sugere esta possibilidade de estar consigo e com a sociedade. E como acontece com qualquer obra musical tem o potencial de influenciar os ouvintes mais atentos.

A ideia de que obras artísticas possam inspirar o comportamento das pessoas era bastante comum no governo ditatorial. Como já anteriormente mencionado, o álbum surge e estoura em popularidade quando estávamos vivendo um asfixiante regime de governo, que reprimia e punia, procurando utilizar a censura como forma de reduzir a influência de obras artísticas nas mentes e comportamentos dos brasileiros.

Se colocarmos a mensagem lírica e sonora do álbum dentro do contexto social que se apresentava no tempo em que o mesmo foi lançado, começamos a ter uma dimensão mais clara da sua grandeza. Em plena ditadura, o disco Rita Lee (Lança Perfume) era um hino à liberdade. Se os poderosos diziam: “Cale-se, enquadre-se, não perturbe, reprima-se”. As músicas do disco diziam: “Libere-se, conecte-se com o prazer e com a vida, questione, rebele-se, seja feliz”. 

Ele manifestava uma celebração da vida e de sua força vital. Surpreende, então, que este álbum não tenha sido censurado. O contexto repressor que vivia o Brasil certamente não via com bons olhos os valores libertários expressos nas letras de suas músicas. O conservadorismo andava de mãos dadas com a ditadura.

E dentro daquele contexto, uma mulher de atitude afirmativa do seu prazer sexual, cujas ideias demonstram uma liberdade de ser, provavelmente seria vista como uma ameaça ao status quo e ser punida para não inspirar outras e outros a ir na mesma direção.

Por estes e outros motivos, “por atentar contra a moral e os bons costumes”, Rita Lee foi a compositora mais censurada pelo governo ditatorial do Brasil. Apesar disso tudo, este disco passou pelo crivo da censura. Talvez por não ser um álbum de discurso militante ou prevalentemente político, ou pela sutileza na forma em que as mensagens libertárias são expressas ou até mesmo, pela falta de interpretação de texto dos censores.

A grande ironia é que este disco inclui uma canção de teor altamente crítico, João Ninguém, inspirada no então presidente João Figueiredo (fato desconhecido pelo departamento de censura do governo da época).

O fato é que Rita “desviou do estilingue” da censura e com a despretensiosa profundidade de suas letras e a alegria dos seus ritmos, se comunicou diretamente com os corações e espírito daquele tempo e 4 décadas depois, sua mensagem longe de se tornar ultrapassada, continua vibrante e forte.

Os ecos do álbum no contexto atual

De lá pra cá muito mudou e nada mudou. No Brasil, nos vemos em um governo de viés autoritário, e que se sustenta em valores conservadores. O planeta asfixiado por tanta emissão de gás carbônico e plástico nas suas águas se aquece de forma exponencial e se convulsiona em climas imprevistos.

Muitas discussões sobre a necessidade de reformar o nosso estilo de vida em direção a uma forma mais responsável de consumir e de respeitar a natureza se tornou imperativo. Todas estas crises trazem forçosamente uma discussão com grande atraso sobre questões que demandam uma mudança no sistema.

Além disso, pelo mundo, a opressão de governos autoritáriosnos fazem lembrar da importância da liberdade de pensar e de se expressar, do questionamento de dogmas, e da necessidade de repensar formas de operar coletivamente.

E dentro deste contexto, a mensagem libertária, ecológica, questionadora e amorosa do álbum Rita Lee (Lança Perfume), é necessária para os dias de hoje, e faz sentido que a ouçamos e dialoguemos com a mesma.

O potencial terapêutico do disco Lança Perfume

A música, de todas as artes, é a que mais nos oferece uma experiência íntima. Seus sons adentram nossos ouvidos e afetam os nossos ritmos biológicos, suas melodias despertam emoções, bem como suas ideias alimentam nossos pensamentos. Diferentemente do que ocorre ao ler um texto, a palavra cantada oferece uma experiência mais holística de interagir com ideias, que assim aliadas a dinâmica das notas musicais, melodias e ritmos, são experienciadas como um combo de pensamento-sensação corpórea-emoção. Nesta alquimia de fatores, os potenciais de experiências psicológicas são vastos.

Quando nos sentimos fortemente atraídos por uma canção e nos identificamos com a mesma, o potencial terapêutico da música se ativa, e conjuntamente com a nossa psique podemos manifestar mudanças significativas na nossa forma de sentir, de compreender o mundo, e eventualmente de se comportar.

Ao se permitir uma identificação profunda com o eu lírico das canções cria-se espaço para um exploração psicológica de si (quem sou eu em contraste com o eu da música? Existem aspectos meus que reconheço neste versos?).

Desta forma, à medida que se escuta a canção, pode-se dialogar com a mesma e também se escutar (como é para mim me colocar no lugar do eu lírico? Como me sinto ao me identificar com o eu da música? O quão divirjo dele?).

Neste sentido, a identificação psicológica com as letras do disco Rita Lee (Lança Perfume) oferece um grande potencial para os ouvintes. Suas músicas estimulam uma relação positiva com o corpo, seja pelo caráter afirmativo da sexualidade presente nas suas letras, seja pelo estímulo à dança provocado pelos seus ritmos.

E podem, assim, criar um espaço interior de auto-permissão para sentir o próprio corpo, seu prazer, sua sensualidade sem correntes repressoras. Além disso, também nos oferece a oportunidade de abrir nossos corações e nos reconectar com o amor por si mesmo, pelo outro, pela natureza e pela vida.

E por último, o disco também fornece um espaço para o questionar de crenças religiosas e facilitar um contato com as aspirações da alma. Por exemplo, se nos determos na canção Baila Comigo, várias questões podem ser exploradas:

– Como eu completaria a frase: “Se Deus quiser um dia eu quero…”?

– Quais são as minhas aspirações pro futuro?

– Como é a minha relação com a natureza?

– Como é a minha relação com o fim da vida?

– Como é a minha maneira de estar no mundo? Afirmativa de vida? Autêntica?

E com relação a canções de enfoque mais sensual ou romântico, tais como Caso Sério, Lança Perfume, Shangrilá e Bem-me-quer, pode-se exercer curiosidade sobre:

– Como é minha relação com minha sexualidade? Com meu corpo? Com o prazer?

Desde o lançamento do álbum Rita Lee (Lança Perfume), perdi as contas de quantas vezes embarquei no seu mundo lírico-musical, de quantas vezes me inebriei pelo seu perfume amoroso e libertário, e de quantas jornadas minha psique fez em diálogo com as ideias apresentadas.

A partir deste disco e de vários outros que se seguiram, compreendi que a música pode ser utilizada como uma ferramenta terapêutica da psique para se conhecer e se reformular, se conectar com emoções, realizar catarses e acessar estados elevados de consciência.

E desde então, a música longe de apenas ser uma experiência prazeirosa e superficial se tornou uma jornada sensorial de auto-descoberta e despertar de potenciais terapêuticos.

Por isso posso dizer que sem dúvidas, não poderia ter ganho um presente de aniversário melhor do que aquele, naquele fim de 1980.

Artista e Ph.D. em psicologia, autor da tese “Music as vehicle for self-transformation” e do romance “ A Mulher que Nunca Recebeu Flores”. Cantor e compositor dos álbuns Bossa a Trois e Conscious (Original Movie Soundtrack). Co-diretor do filme “Conscious: Fulfilling our Higher Evolutionary Potential”. www.josehgarcia.com [ Ver todos os artigos ]

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