Laranja Boreal

Por Vianês Júnior

Aconteceu há muito tempo, mais precisamente em 1978, na pequena e poeirenta Santa Cruz do Inharé.

Na rua principal da cidade, defronte à igreja matriz, morava uma beata que atendia pelo nome de Maria do Amparo. Maria, uma professora aposentada, residia numa casa amarela com portão pintado de branco, através do qual se via na garagem um opala laranja boreal. Quando não guardado, o carro ficava mal estacionado em frente a casa, os pneus tingidos com a cal do meio-fio,e debaixo de uma velha Acácia tomada por um enorme cupinzeiro.

A professora tinha o feio hábito de cheirar as axilas sujas e peludas. Quase não as lavava e, quando muito, passava um chumaço de algodão embebido em Leite de Rosas.

Maria mantinha um romance com o padre da cidade, bem mais moço que ela, com uma diferença de 15 anos. Os dois costumavam encontrar-se no opala da professora, sempre tarde da noite, na rua da Ladeira, que ficava atrás da matriz e frente ao portão do cemitério. Por se tratar de uma rua escura e íngreme, quase ninguém transitava por ela, favorecendo assim o casal apaixonado.

Certa noite, quando os dois estavam no melhor do namoro, e não estando engatado o freio de mão do carro, o opala desceu de ladeira abaixo. No final da rua havia uma praça, onde se instalara um parque velho de diversões, e os namorados comiam pipoca e maçã do amor. Da difusora montada na roda gigante se ouvia ¨Eu quero namorar¨, na voz de José Orlando.

De repente as pessoas gritaram e se afastaram para não serem atropeladas pela ¨laranja boreal¨, que subia o meio-fio da praça e só parou quando bateu no busto do prefeito. A turma rodeou o carro e viu estupefata o casal nu.

Mais que depressa a namorada do padre pulou para o banco do motorista, e, ligando o motor, engatou a marcha ré e faz cantar os pneus na calçada da praça. Ficaram duas listras pretas e o cheiro de borracha queimada, e na cabeça dos moradores de Santa Cruz do Inharé uma interrogação, pois a partir daquela data nunca mais se teve notícia de Maria do Amparo.

Comentários

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  1. demetrio 24 de setembro de 2011 21:50

    Vianês Júnior, que me dá a satisfação de ser o namorado da minha filha, se inicia nos difíceis caminhos da literatura, mas que são ao mesmo tempo prazerosos. No internato os padres italianos me ensinavam que só os caminhos íngremes levavam ao paraíso, os largos e fáceis eram uma porta escancancarada para o inferno. Sem nenhuma alusão à rua íngreme em que o padre namorava com a professora Maria. Assim, desejo que Vianês continue neste ramo da literatura, e traga novos contos para o nosso entretenimento. Receba os parabéns do seu sogro e amigo, e continue tratando bem a minha filha, senão vou desgostar de suas estórias.

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