Lavoura de olhares e outros contos

Por José Mário da Silva
DOCENTE DA UFCG

Outrora não brilhante assim, conforme acertado juízo crítico expendido pelo ensaísta Hildeberto Barbosa Filho, a contística paraibana, nos tempos do agora, parece ganhar uma robustez que a faz desconectar-se da condição periférica de gênero marginal. O código onomástico dos cultivadores qualificados da chamada narrativa curta já é sobremaneira encorpado na geografia ficcional do nosso estado. Políbio Alves, Geraldo Maciel, Maria José Limeira, Ariosvaldo Guimarães, Carlos Tavares, Rinaldo de Fernandes, Pepita Cavalcanti, Marília Arnaud, dentre outros, são as garantias de alto nível na fascinante e difícil arte de transfigurar a vida a partir da cuidadosa observação de um só episódio do cotidiano.

Para o crítico Massaud Moisés, o conto é uma estória curta matizada pela presença de uma só célula dramática. Em Valise de Cronópio, admirável coleção de ensaios literários, Julio Cortazar, numa feliz analogia, aproxima o conto da fotografia, flagrando o que neles há de invariante básica: a captação de um instantâneo da vida, de uma cena apenas do existir, dentre as multiplicadas realidades que cartografam o caleidoscópico dia-a-dia.

Integra o time de craques da contística paraibana a figura de Aldo Lopes, sertanejo de Princesa Isabel, radicado durante certo tempo na cidade de João Pessoa, e, hoje, morando no vizinho estado do Rio Grande do Norte. Lavoura de Olhares e outros contos é o seu livro de estreia na já longínqua quadra cronológica dos anos oitenta. É o clássico exemplo de quem já dá os primeiros passos na seara da criação literária, exibindo um invulgar domínio dos meios de expressão.

Para o mestre da crítica poética brasileira, Eduardo Portella, é nas tramas da linguagem que se decide a sorte ou o infortúnio da literatura. Com Roman Yakobson, protagonista da revolução teórica empreendida pelo Formalismo russo, “a literatura não vale pelo que diz, mas sim pela forma como diz”. Ambos os pronunciamentos ajustam-se à maravilha à Lavoura de Olhares e outros contos, universo estético urdido pela fina imaginação, refinada sensibilidade e agudo senso de observação de Aldo Lopes.

Enraizadas na espacialidade rural, geografia primeva do competente escritor paraibano, suas narrativas transcendem o cromatismo localista; ultrapassam o mimetismo da mera crônica de costumes; desvencilham-se, enfim, do regionalismo exótico e pitoresco, em que frequentemente naufragou a literatura que, ao se pretender a mais realista possível, findou convertendo-se na previsível morada do estereótipo, tão fixo quanto enganador. Vale, aqui, trazermos à baila, a velha e atual lição de Machado de Assis em seu insuperável ensaio Instinto de Nacionalidade, para quem “o que se espera do escritor é que ele tenha o sentimento íntimo do seu tempo e do seu país”.

Lavoura de Olhares e outros contos, ficção invadida pelo sopro transgressor da poesia, ancora, recorrentemente, no porto melancólico de uma memória fraturada pelo desconfortável sentimento da perda. Aqui, a morte, sutilmente espreitando a tudo e a todos pelas frestas da lembrança doída, é personagem central dos microenredos engendrados por Aldo Lopes. A consciência viva da inflexível passagem do tempo responde pela focalização ziguezagueada de quem, hoje adulto, tenta olhar o mundo com as retinas incontaminadas do menino que se foi um dia, com a libertária fantasia de uma infância irrecuperável.

As dilaceradas fraturas da memória, contudo, não eclipsam uma tonalidade de ternura e compaixão que nutre o narrador em seus intimistas embates com o real. Enfim, nas mãos hábeis do consumado artesão da palavra, que é Aldo Lopes, o conto paraibano ratifica a sua condição de portador de maioridade estética.

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