Leis de incentivo à cultura precisam de mudanças urgentes

Felizmente, a roubalheira na Lei Rouanet estourou agora. Se tivesse ocorrido um pouco antes, teria tornado a volta do Ministério da Cultura mais complicada. A gritaria dos ignorantes e imbecis que, por exemplo, acham que artistas identificados com a esquerda, como Chico Buarque, Caetano, Leticia Sabatella são seus principais beneficiários, teria sido ainda mais ensurdecedora.

Imagino a surpresa dessas pessoas “bem informadas” quando viram que entre os principais captadores através da Lei Rouanet está a… Rede Globo. Nenhum artista “esquerdista” oportunista no time dos maiores beneficiados pela Lei (aqui).

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Uma das dezenas de mentiras postadas na internet sobre artistas beneficiados com a Lei Rouanet

Isso explica porque tanto os telejornais da emissora quanto O Globo (impresso) tenham aberto tanto espaço de ontem para hoje para especialistas e o pessoal do setor defender a lei. O leitor/espectador mal informado não deve ter entendido nada. Afinal, a Rede Globo vem sendo tão implacável contra a corrupção. Neste caso, vale o ditado, “Mateus, primeiro os teus”.

Eu tenho críticas às leis de cultura nos três níveis de governo. Os textos de todas elas são antigos e com o passar dos anos os problemas foram ficando cada vez mais evidentes. Acho que elas cumprem um papel importante, mas precisam de mudanças drásticas e urgentes. Isso é reconhecido pelas autoridades do setor, produtores, artistas e jornalistas. Por que não se avança nisso não faço a menor razão. Talvez agora, com esse escândalo, as coisas comecem a acontecer.

Através destas leis temos acesso a muita coisa boa na área cultural. Basta ver os 15 maiores captadores de recursos através da Rouanet no ano passado (link no segundo parágrafo). Estão lá as orquestras sinfônicas do Brasil e de São Paulo, o MASP, o MAM e o Instituto Tomie Ohtake.

picasso

“Joueurs de Ballon sur la Plage”, de Picasso, em exposição no Instituto Tomie Ohtake

Sim, o Sudeste fica com praticamente todos os recursos da Rouanet e os departamentos de marketing das grandes empresas decidem os projetos que apoiarão (exemplo: pode ser a biografia da cantor Cláudia Leitte). Essas são duas das principais críticas contra o mecanismo (aqui).

Aqui em Natal temos vários projetos muito bons realizados através das leis de incentivo à cultura municipal e estadual. Eu cito apenas um para mostrar que, apesar das distorções já conhecidas, é possível se fazer algo de qualidade via lei de incentivo à cultura: o Projeto Som da Mata, realizado todos os domingos no Parque das Dunas.

Recentemente, o produtor Marcos Sá pediu-me um depoimento para constar em vídeo e livro sobre os dez anos do projeto. Dei com o maior entusiasmo. Como um dos mais assíduos frequentadores do Som da Mata, não tive dificuldade em reconhecer a sua importância. Sem a lei de incentivo esse e vários outros projetos hoje caros à cidade não seriam realizados. Essa é que é a realidade. Então, continua valendo a campanha Fora Temer, Fica MinC (mas mudem a Lei Rouanet, pelo amor de Deus! rs).

PS. Por acaso, pesquisando hoje sobre outra coisa na net, soube que Reinaldo Azevedo, da Veja, é contra a Lei Rouanet, o que só reforçou minha posição de ser favorável (com mudanças, claro) – rs.

 

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